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m de leitura Atualizado em 22/03/2022, 19:02

Ucraniana descreve dias de desespero após ataque da Rússia a abrigo lotado em Mariupol

PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de março de 2022

ANDRÉ LIOHN
AUTOR autor do artigo

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ZAPORÍJIA, UCRÂNIA (FOLHAPRESS) - Apenas algumas colunas sobraram do prédio onde Haliana Ivanivna mantinha sua hospedaria em Mariupol. Antes da guerra, o antigo dormitório soviético, uma construção de nove andares feita de colunas de concreto e aço, era usado para abrigar funcionários da tradicional indústria metalúrgica da cidade.

Em 27 de fevereiro, quando a invasão russa apenas começava, um funcionário da prefeitura falou com Haliana para saber como ela poderia ajudar. Tropas russas e ucranianas estavam se enfrentando em Sartana, comunidade a 18 km do centro de Mariupol, e, na véspera, ao menos dez civis haviam sido mortos em um ataque aéreo, o que fez o governo local buscar um lugar mais seguro para a população.

O conflito não era novidade na vida de Haliana, 63. O marido morreu em Donetsk, em 2017, durante uma batalha contra separatistas pró-Rússia. Agora, disse ela, era a sua vez de se sacrificar pela Ucrânia.

Assim, o dormitório que antes alojava 60 trabalhadores recebeu 172 pessoas, entre as quais 50 crianças, muitas mulheres e poucos homens, na maioria idosos, todos moradores de Sartana que ficaram desabrigados em razão dos combates. A prefeitura de Mariupol havia prometido garantir alimento, água e medicamentos a todos, mas o local que deveria ser uma zona segura logo se tornou alvo.

As ruas ficaram desertas, e as explosões, mais próximas. Os que estavam em quartos foram levados para o porão, que não era usado havia décadas. "Tinha muita sujeira, muito pó, não havia aquecimento e não tínhamos como preparar comida. Conseguimos levar algumas camas, colchões, cobertores e aquecedores elétricos, mas com tantas pessoas não tínhamos espaço nem para caminhar", diz Haliana.

Ela decidiu então deixar sua casa, localizada na periferia oeste da cidade, com medo de não conseguir chegar ao dormitório devido aos bombardeios. Organizou-se com a prefeitura, que forneceu mil litros de água potável e vegetais suficientes para que eles pudessem se alimentar por ao menos duas semanas.

A filha, o genro e os dois netos de Haliana também se mudaram para o local, tanto para ajudá-la quanto para garantir que a família não se separasse. Do lado de fora, soldados ucranianos se instalaram em um prédio próximo e disparavam contra os invasores. Temendo um contra-ataque russo, ela tentou falar com os militares, alertando que quase 200 pessoas estavam no porão perto de onde eles montaram a base.

Não houve tempo. Em 2 de março, bombas atingiram o dormitório. Naquele dia, os abrigados ficaram sem eletricidade e gás, e parte dos alimentos foi destruída debaixo dos escombros de onde ficava a cozinha.

Mesmo sob o risco de novos bombardeios, Haliana e sua filha passaram a cozinhar do lado de fora do prédio, duas vezes por dia, queimando a madeira que encontravam nos restos dos edifícios vizinhos.

Diariamente, 60 litros de rassolnik, uma sopa típica russa feita de cevada, picles e batata, eram divididos com cuidado. Duas conchas e meia para mulheres com filhos, uma concha para os homens. Mesmo com toda a economia, sem receber mais alimentos ou água da prefeitura eles logo ficaram sem comida.

A solução momentânea foi derreter neve para conseguir água, mas a comida disponível já não matava a fome das pessoas, principalmente das crianças que choravam cada vez mais. No dia em que militares ucranianos tentaram entregar mantimentos, um bombardeio intenso impediu que os itens chegassem.

Em 15 de março, quando Haliana, a filha e outras mulheres cozinhavam a sopa que seria servida, um ataque com dezenas de foguetes atingiu o lugar onde estavam reunidas. Haliana, mesmo machucada, viu a filha correndo com uma ferida no rosto, o olho esquerdo arrancado por um estilhaço das explosões.

Também conseguiu ver que a entrada do porão havia sido atingida, mas não pôde se aproximar para checar o que havia acontecido com quem estava lá dentro. "Se pudesse, voltaria para ajudá-los. Sonho todas as noites que as crianças estão bem, que as mães estão bem, que todos eles sobreviveram", diz ela.

Ambulâncias e caminhões do corpo de bombeiros chegaram ao local, e ela foi levada a um hospital que ainda funcionava no centro da cidade. A clínica estava cheia, os médicos não conseguiam cuidar de todos. Não havia eletricidade, e muitas pessoas ficaram no chão, deitados sobre cobertores.

Haliana, que não conseguia caminhar, deixou o hospital dois dias depois, quando ouviu que os russos permitiriam a saída de feridos da cidade. Ela, a filha, os dois netos e o genro observaram os primeiros carros com civis saindo e pensaram em esperar para ver se voltavam. Nos dias anteriores, quem tentou fugir de Mariupol retornou assim que percebeu que a fuga seria ainda mais arriscada do que ficar.

Ainda assim, continuaram com o plano. Os vidros do carro estavam quebrados, e o vento gelado que batia em seus rostos aumentava o desconforto. Quando chegaram a um posto de controle russo, os militares, ao verem as bandagens cobrindo o rosto da filha de Haliana, perguntaram o que havia acontecido.

Disseram que eles deveriam voltar ao hospital, ignorando que o local havia sido bombardeado pelas forças que eles mesmos representavam e que o centro médico não tinha mais condições de receber pacientes.

Mesmo com os percalços, Haliana chegou a Zaporíjia, onde foi internada em um hospital. Esta terça-feira (22), diz ela, foi o melhor dia de sua vida, porque enfim conseguiu voltar a caminhar. Aproveitou a melhora para visitar os vizinhos de leito, todas mulheres vindas de Mariupol com histórias parecidas com a dela.

Para Haliana, a guerra tem gosto de água salgada quente, porque a sopa que ela fazia para os abrigados em seu dormitório, após as batatas acabarem, tinha gosto de água quente.