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m de leitura Atualizado em 09/03/2022, 17:13

Turquia tenta se equilibrar entre Rússia e Otan na guerra da Ucrânia

PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de março de 2022

IGOR GIELOW
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um dos atores regionais mais afetados pela guerra na Ucrânia, a Turquia sedia nesta quinta-feira (10) o encontro de mais alto nível entre representantes de Moscou e Kiev desde que os mísseis de Vladimir Putin começaram a cair em 24 de fevereiro sobre o vizinho.

Em Antália, devem se encontrar os chanceleres Serguei Lavrov (Rússia) e Dmitro Kuleba (Ucrânia). Não se deve esperar muito, dado que ambas as partes têm conversado com delegações na Belarus desde a semana passada e o Kremlin já fez sua lista de exigências para acabar com a guerra, vistas em Kiev como um ultimato de rendição.

Para o governo de Recep Tayyip Erdogan, contudo, muito está em jogo. E num momento péssimo: seu governo enfrenta uma grave crise econômica, com medidas heterodoxas visando segurar o derretimento da lira turca, tudo de olho na eleição presidencial do ano que vem.

O presidente turco está numa posição única, como membro da Otan (aliança militar do ocidente), apoiador da Ucrânia e sócio próximo da Rússia em diversos negócios e parcerias estratégicas.

É na sua relação com Kiev que o autocrata turco está mais confortável, até pela posição econômica dominante. Estabeleceu uma ligação militar importante, com ucranianos fornecendo os motores dos novo helicópteros de ataque turcos, e entregando os valiosos drone Bayraktar-TB2 que tanta dor de cabeça dão aos blindados russos agora.

Ao mesmo tempo, a rivalidade histórica com a Rússia, com quem disputa a bacia do mar Negro desde o tempo em que o Império Russo ascendeu e desafiou o Otomano no século 17, desaguando em inúmeras guerras, tem momentos de proximidade.

Ambos os países apoiaram lados diferentes nas guerras civis da Síria e da Líbia, mas ao fim estabeleceram cooperação para dar as cartas. No início da intervenção russa no conflito sírio, um de seus caças foi abatido ao invadir sem querer o espaço aéreo turco, mas depois a situação se normalizou.

Ancara apoiou a guerra movida em 2020 pelo Azerbaijão contra a Armênia, aliada algo reticente de Moscou. Ao fim, Putin conseguiu manter seu pé estratégico mantendo tropas de paz em torno das áreas ainda em disputa de Nagorno-Karabakh, mas o peso geopolítico turco cresceu muito na região.

Quando Ancara estava estremecida com Washington, devido à recusa de Donald Trump de extraditar o clérigo muçulmano que Erdogan culpou pela tentativa de golpe de Estado que sofreu em 2016, foi ao bazar de armas russo para comprar o poderoso sistema antiaéreo S-400.

A medida desagradou tanto os EUA que os turcos foram expulsos do programa internacional de construção do caça de quinta geração F-35. Deram de ombros, e podem comprar ainda mais armas russas -isto é, poderiam, dada a animosidade mundial e da Otan contra Putin agora.

A relação turca com o Ocidente é complexa. A União Europeia sempre esnobou seus pedidos para entrar no bloco, por resistência daqueles que viam a medida como uma porta de entrada para imigração desenfreada e, pior para políticos de olho no eleitorado conservador, de um país muçulmano.

Com a Otan, sempre houve ciclotimia. Por um lado, a base turca de Incirlik é o trampolim para ações em todo o Oriente Médio e guarda ogivas nucleares dos EUA, e Ancara controla a saída do mar Negro para o Mediterrâneo -ou seja, o acesso da Rússia às chamadas águas quentes.

Por outro, há os interesses divergentes com sua rival histórica Grécia no Mediterrâneo, em torno da ilha dividida de Chipre. Invadida pelos turcos em 1974, o norte do território segue separado do sul, o que rendeu a Ancara um embargo de três anos de armas da líder da Otan.

Nos últimos anos, navios de sondagem turcos exploram campos potenciais de gás e petróleo na área, e Atenas se viu compelida a fazer um acordo militar com Paris, incluindo a compra de caças avançados Rafale. E os três países são da Otan.

Assim, Erdogan está sob pressão para adernar rumo à Otan e à Ucrânia no confronto, até porque condenou a anexação russa da Crimeia em 2014 -e dá abrigo a políticos da minoria islâmica tártara da península, que veem em Putin um espelho do ditador soviético Josef Stálin, que os expulsou de lá por décadas.

Até aqui, não foi longe. Manteve seu espaço aéreo aberto para aviões russos, ao contrário do resto da Europa, e apenas restringiu a passagem de navios de guerra pelos estreitos de Bósforo e Dardanelos, permitindo a volta de embarcações russas da Frota do Mar Negro.

A Ucrânia queria o fechamento total da área, mas Erdogan estava amparado na Convenção de Montreaux, de 1936, que lhe dá o controle e estabelece regras para uso das vias em tempos de paz e de guerra.

Agora, o líder turco terá a oportunidade de tentar mediar o conflito atual, algo que Putin e a Otan menosprezaram nas semanas que antecederam os primeiros tiros. Se for bem-sucedido, poderá continuar com seu ato equilibrista; se não, a pressão para aderir à linha belicista da Otan vai aumentar.

Em termos de interesses de longo prazo, o mundo ideal para Erdogan é que a Rússia não saia fortalecida com uma submissão militar total da Ucrânia, embora isso possa fazer sua posição estratégica ser revalorizada no Ocidente.