<p>RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Há oito meses longe do Palácio Guanabara, Wilson Witzel (PSC) terá em julgamento nesta sexta-feira (30) as definições de seu processo de impeachment e do futuro de sua breve carreira política.

</p><p>Uma eventual vitória no Tribunal Especial Misto, formado por desembargadores e deputados estaduais, não o recolocará de imediato no cargo de governador do Rio. Uma decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça) o impede de reassumir o governo até fevereiro do ano que vem, em razão da ação penal a que responde na Corte.

</p><p>A eventual derrota, por sua vez, poderá congelar por até cinco anos a carreira política que surgiu como um furacão às vésperas do primeiro turno das eleições de outubro de 2018 e o manteve por um ano e oito meses como governador do estado.

</p><p>O ex-juiz federal é acusado no Tribunal Especial Misto de ter chefiado um esquema de desvio de recursos destinados ao combate à pandemia da Covid-19. Também responde por supostamente ter favorecido um empresário ao anular a punição a uma organização social por sua atuação na Secretaria de Saúde.

</p><p>Na esfera penal, Witzel é réu sob acusação pela PGR (Procuradoria-Geral da República) de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Uma das acusadas é sua mulher, Helena Witzel, cujo escritório de advocacia foi usado para repasse de propina, segundo a Procuradoria.

</p><p>Há ainda duas denúncias cujo recebimento ainda não foi analisado pelo STJ.

</p><p>Na esfera política, o governador afastado será julgado por um tribunal composto por cinco deputados e cinco desembargadores. Ele precisa obter ao menos quatro votos a seu favor para ser absolvido da acusação de crime de responsabilidade.

</p><p>As esperanças do governador afastado recaem sobre os magistrados, já que considera improvável que os políticos votem a seu favor. O processo de impeachment foi autorizado pela Assembleia Legislativa por 69 votos a 0.

</p><p>O governador foi afastado do cargo em agosto de 2020 por decisão do ministro Benedito Gonçalves (STJ) na deflagração da Operação Tris In Idem. O Ministério Público Federal apontou que Witzel fazia parte de um esquema de desvio de recursos públicos da saúde do estado.

</p><p>O ex-secretário de Saúde da gestão Witzel, Edmar Santos, firmou acordo de delação premiada e relatou uma suposta "caixinha da propina" na pasta, da qual o governador afastado faria parte.

</p><p>Também recai sobre o governador afastado a responsabilidade sobre a contratação irregular da organização Iabas para montar e gerir hospitais de campanha no início da pandemia. O acordo foi revogado em razão das irregularidades no processo de contratação.

</p><p>Ele também é acusado de favorecer o empresário Mário Peixoto na reclassificação da organização social Unir Saúde, proibida pela Secretaria de Saúde de firmar contratos com o estado por supostas irregularidades na gestão de unidades de saúde.

</p><p>Peixoto não é dirigente da entidade, mas a Procuradoria afirma ter evidências de que ele era um espécie de sócio oculto da OS. Ele nega.

</p><p>Ao longo do processo, Witzel negou todas as irregularidades. Afirmou que agiu quando detectou irregularidades nos hospitais de campanha, cancelando o contrato com o Iabas.

</p><p>Disse que revogou a punição à Unir Saúde por ter considerado que a entidade não pôde se defender das falhas relatadas. Apontou também a ausência de provas de Edmar sobre sua participação no esquema da "caixinha de propina" da saúde.

</p><p>"O processo contra mim é uma fraude e não tem provas", afirmou Witzel.

</p><p>Desde o início do processo, Witzel afirma que seu afastamento se deve à ação do presidente Jair Bolsonaro, ex-aliado de quem se tornou adversário em seu primeiro ano de mandato. Mais recentemente, Witzel passou a mirar ataques ao presidente da Assembleia Legislativa, André Ceciliano (PT), também mencionado na delação de Edmar.

</p><p>"Após as investigações há sérios indícios do envolvimento do presidente da Alerj com a máfia da saúde: Edson Torres e José Carlos Melo [empresários também acusados] cumpriam ordens de André Ceciliano que coordenava ordens para as ações de Edmar e na Cedae. O presidente da Alerj aproveitou a perseguição da procuradora Lindora [Araújo, da PGR] e manipulou o processo de impeachment contra mim", disse o governador afastado.

</p><p>Em nota, Ceciliano afirma que Witzel exerce "o direito de espernear". "Entendo a mágoa que ele nutre contra mim, o que explica essas acusações sem prova, mas a verdade é que ele teve o destino que ele mesmo cavou, através das relações que alimentou, envolvendo até mesmo a esposa em seus desatinos", afirmou o presidente da Assembleia.

</p><p>"Wilson Witzel será não apenas o primeiro governador cassado do Brasil. Ele será lembrado também como o mais biruta de toda a história, que mandou confeccionar uma faixa de governador por se sentir um imperador", declarou Ceciliano, em nota.

</p><p>Desde seu afastamento, o governador interino Cláudio Castro (PSC) se alinhou ao presidente Jair Bolsonaro e abriu espaços em sua gestão a deputados estaduais e seus indicados. Com um estilo discreto, ele se manteve afastado dos ataques ao titular do cargo.

</p><p>"Estou confiante no meu retorno. Cláudio Castro não tem apoio popular e está refém do governo federal e da Alerj", disse Witzel.

</p><p>Caso seja condenado, ele estará também inabilitado para o exercício de função pública, o que o impede de ser nomeado em cargos públicos. Os deputados e magistrados também decidirão se ele terá os direitos políticos cassados por um prazo máximo de cinco anos.

</p><p>Witzel diz ainda não pensar em seu futuro político. "Ainda é cedo para decidir. Vou avaliar o cenário. Quero um Brasil melhor e estou disposto a ajudar", disse ele.

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