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m de leitura Atualizado em 16/03/2022, 07:51

Tradicional no Bexiga, Samba da Treze causa 'declaração de guerra'

PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de março de 2022

CARLOS PETROCILO E ISABELLA MENON
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O samba pode até não morrer e nem acabar. Mas mudar de endereço e adequar o horário para evitar problemas com os vizinhos é o que vem acontecendo com o Samba da Treze.

Tradicional no bairro do Bexiga, a roda acontecia havia mais de dez anos às sextas-feiras na calçada da rua Treze de Maio, altura do número 507, em frente ao bar do Gilson. Porém, uma reunião entre os organizadores do Samba da Treze e a Subprefeitura da Sé, na última quinta (10), terminou com uma "declaração de guerra".

"[Na reunião] foram explicados os motivos da decisão e reiterado que o evento ganhou uma proporção que o local não comporta mais", diz a Prefeitura de São Paulo em nota. "Além disso, todos os eventos, independentemente da sua natureza, têm de pedir autorização à Prefeitura para que as informações fornecidas pelos organizadores sejam analisadas pelos técnicos à luz das regras de uso e ocupação do solo."

As apresentações vêm sendo improvisadas em outros botecos da região, como no JR Burger. Nesta casa, na rua Conselheiro Carrão, perde-se parte da cultura da roda de samba e o contato entre músicos e público torna-se raro.

Os músicos tocam dentro do estabelecimento, enquanto os clientes curtem o som da calçada. No estilo "o samba agoniza, mas não morre", a roda começa a se formar por volta das 18h, mas um clima de apreensão perdura até a última nota.

Quando veículos da GCM (Guarda Civil Metropolitana) e da Polícia Militar passam pelo local, o proprietário do estabelecimento pede para que a música cesse por alguns instantes --ele teme ser multado em razão do barulho.

A reportagem esteve no evento na última sexta (11) e, por volta das 20h30, quando uma viatura da GCM despontou na Conselheiro Carrão, o dono da JR Burguer, Francisco Newerkla Junior, deixou o balcão e correu para a calçada. Aos berros, pedia para os garçons recolherem as mesas e cadeiras. As vozes, assim como o surdo, o pandeiro e o cavaquinho, silenciaram. Barulho, apenas, de garrafas e copos, que, na aflição dos funcionários, foram ao chão.

"Me disseram que quando os fiscais da prefeitura fazem fotos das mesas e cadeiras na calçada, automaticamente estou sendo multado", diz o comerciante.

Abrigar o Samba da Treze em sua hamburgueria é a oportunidade para alavancar o faturamento.

"Estou com medo de colocar o samba novamente na sexta [18 de março]. Já tenho dívidas [em decorrência] da pandemia", reclama Newerkla Junior.

Os problemas começaram com a retomada de eventos em meio ao arrefecimento da pandemia. A prefeitura diz que recebeu reclamações da população que vive na região a respeito de bloqueio de calçadas, de interrupção do tráfego na rua e de barulho, que atrapalha missas e casamentos na Paróquia Nossa Senhora Achiropita.

Em nota à Folha, a Prefeitura de São Paulo disse que "o Samba da Treze está impedido de ocorrer em via pública e segue sendo realizado em um estabelecimento comercial, na Rua Conselheiro Carrão, e parte da rua é tomada pelo grande número de pessoas".

A gestão Ricardo Nunes (MDB) diz que, neste ano, o canal de comunicação 156 recebeu sete protocolos abertos na rua Treze de Maio e 31 na Conselheiro Carrão relacionados à lei do PSIU e perturbação de sossego. Ainda segundo a prefeitura, houve outros 48 nas duas ruas no ano passado, 33 em 2020 e 34 em 2019.

Carla Borges, produtora do Samba da Treze, diz que a roda está há 14 anos de forma consecutiva no bairro, mas passou a ser "perseguida" em 2018 depois que o padre Antonio Bogaz assumiu a igreja Nossa Senhora Achiropita. "Chegamos a fazer evento com 5.000 pessoas na rua Treze de Maio e nunca teve um problema", afirma ela.

A produtora diz que o padre se uniu com Luciano Farias, presidente do Conseg (Conselho Comunitário de Segurança) Bela Vista/Liberdade/República até 2019, e Cristina Oka, da associação Viva a 13 de Maio, que reúne donos de cantinas na região, contra a roda de músicos.

"A intenção deles é tirar a gente dali, são amigos dos cantineiros, gente que tem um poder no bairro", diz Borges.

Procurados pela Folha, Oka não quis conceder entrevista, e uma assessora do padre disse que ele está em viagem e transmitiria o recado. Bogaz não respondeu até a publicação deste texto.

Um show na noite do dia 1º de junho de 2018 desencadeou o processo de despejo do Samba da Treze em frente ao bar do Gilson. Com um trecho da Treze de Maio interditado entre as vias São Vicente e Conselheiro Carrão pela CET, a roda reuniu 5.000 pessoas, de acordo com o Conseg.

Acionada, a subprefeitura da Sé multou a organização em R$ 21.325,80 pela utilização de mil metros quadrados de vias públicas sem a autorização, conforme consta em um termo de reunião assinado pelo representante do Conseg, por uma capitã da PM e por um promotor. O documento diz ainda que havia reclamações em razão do fechamento da rua, afetando o trânsito e o comércio local.

Farias diz que se desligou do Conseg em 2019 por discordar da forma de trabalho. "Eu até tomava cerveja com eles [no samba] e batia papo", diz ele. "O Luciano nunca tomou atitudes [contra o samba]. Quem tomou foi o conselho de segurança, que recebeu inúmeras reclamações e teve que encaminhá-las para que autoridades analisassem o que estava certo, o que estava errado e encaminhasse providências. Na época, quem assinava isso era a minha pessoa, e ela [Carla] personificou essa situação."

Desde então, há uma tentativa de negociação do vereador Toninho Vespoli (PSOL) com a Subprefeitura da Sé. Porém, na última quinta, houve um desentendimento.

Nas redes sociais, Vespoli diz que não conseguiu permanecer na reunião porque houve desrespeito à tradicional roda de samba. "Está declarada guerra e, nessa disputa pela ocupação desse espaço, o que é popular deve vencer", escreveu ele.

A subprefeitura afirma que o vereador e os organizadores do samba deixaram o local, se recusaram a pedir autorização necessária para qualquer evento na cidade, declararam guerra e "impediram, assim, qualquer análise técnica e a discussão de qualquer alternativa".