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m de leitura Atualizado em 19/03/2022, 07:30

Terapeutas e terapias invadem livros, cinema, streaming e chegam até à novela das 21h

PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de março de 2022

PEDRO MARTINS
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "E fora do story, você está bem?" A pergunta que tomou os perfis dos brasileiros no Instagram nos últimos meses era só um meme. Mas, como toda brincadeira, ela tem um fundo de verdade.

É que por trás do meme há um questionamento que tem preocupado muita gente e, agora, se espalha até pela indústria cultural, com uma onda de livros, filmes, seriados e até uma novela da Globo que estão povoados por terapeutas e sessões de terapia.

O mais recente é a obra "Kim Jiyoung, Nascida em 1982", da sul-coreana Cho Nam-Joo, que chega às livrarias do país na próxima semana depois de vender 1 milhão de cópias em quase 20 países, o que o consagrou como o livro da Coreia do Sul mais vendido do mundo nos últimos cinco anos e o fez conquistar astros de grupos de k-pop como o BTS.

A narrativa acompanha Jiyoung, uma jovem de Seul na casa dos 20 anos que acaba de pedir demissão da agência de marketing em que trabalhava para cuidar da filha recém-nascida. De repente, ela passa a incorporar a mãe, a avó e outras mulheres de sua vida, imitando suas vozes e cacoetes.

É então que, preocupado, seu marido marca uma consulta com um psiquiatra. O médico primeiro suspeita que Jiyoung sofre de transtorno dissociativo. Depois, de uma depressão pós-parto que teria progredido para uma depressão materna. Por fim, sem conseguir fechar um diagnóstico, ele chega à conclusão de que, embora psiquiatra nenhum diria o mesmo, a paciente sofre é do machismo que estrutura a Coreia do Sul.

Talvez ele esteja certo. Jiyoung vive numa sociedade em que, até os anos 1990, era comum que as mulheres sofressem represálias quando descobriam que o feto que carregavam era do sexo feminino e eram estimuladas a abortar, motivo pelo qual a moça não conheceu a irmã mais nova.

A autora usa extensa bibliografia, espalhada por notas de rodapé, para descrever uma sociedade que obriga Jiyoung a dar seu almoço para o irmão quando a geladeira não está cheia, a trabalhar para pagar os estudos do rapaz e, quando adulta, a ignorar o machismo na universidade e no seu ambiente de trabalho.

Isso só começa a mudar, diz a autora, a partir do momento em que a discussão se espalha, principalmente pela cultura.

"Até pouco tempo atrás, acreditávamos que devíamos enfrentar a depressão pós-parto, a menopausa, sem questionar o sofrimento, já que é natural e melhora com o tempo. Hoje, as mulheres se encorajam a serem questionadoras e a serem mais saudáveis."

Prova disso é que jornadas de busca pela superação como a de Jiyoung também são vistas em outras histórias.

É o caso de "Talvez Você Deva Conversar com Alguém", da terapeuta americana Lori Gottlieb, que está sendo adaptado para um seriado. No livro, que acumula 163 mil cópias vendidas no Brasil desde o início da pandemia, quando foi lançado, a autora narra, na forma de contos de ficção, sessões de terapia inspiradas por seus pacientes, como a de uma jovem recém-casada que descobre um câncer sem cura.

"Imersão", do psiquiatra gaúcho Diogo Lara, tem uma proposta parecida. Ele acompanha uma endocrinologista que descobre ter sido traída enquanto estava grávida e decide ir para um seminário terapêutico intensivo num castelo que fica na Escócia.

Embora tenha sido publicado quase dois anos antes da chegada da Covid, a maior parte dos 18 mil exemplares que o livro vendeu foi comprada na pandemia, de acordo com a HarperCollins.

De olho na tendência, a editora vai republicar nos próximos meses os romances do psiquiatra americano Irvin D. Yalom. "O Carrasco do Amor", um dos principais deles, acompanha o processo terapêutico de dez personagens, como uma mulher de 70 anos que se apaixona pelo terapeuta e uma jovem obesa que não consegue estabelecer relações com ninguém.

Nos cinemas, entre os lançamentos, há "Matrix: Resurrections", em que o protagonista, vivido por Keanu Reeves, recorre à ajuda de seu terapeuta, interpretado por Neil Patrick Harris, para elaborar os traumas que viveu preso ao simulacro.

É o que também fazem, com ainda mais frequência, os personagens da novela "Um Lugar ao Sol", da Globo, que chega ao fim nas próximas semanas. Pelo consultório da psicanalista Ana Virgínia, interpretada por Regina Braga, passam jovens, adultos, casais e famílias em busca de ajuda.

Todos eles são "analfabetos emocionais", diz Lícia Manzo, a autora do folhetim, parafraseando o diretor sueco Ingmar Bergman, diretor de clássicos como "Cenas de um Casamento". Ao criar a personagem, seu objetivo era alertar que "todos, mesmo que em diferente medida, padecemos desse mal que é a falta de vocabulário para explorar nossa vida íntima".

Parece ter dado certo. A chegada da terapeuta, disseram muitos espectadores nas redes sociais, ajudou a salvar a trama, que registrou a pior audiência de uma novela das nove na história da Globo.

"O jogo amoroso é um jogo democrático. Tem que ser bom para os dois. A mulher foi acostumada a ceder, mas agora os tempos são outros", dizia a terapeuta, numa de suas muitas sessões. Os espectadores, encantados, afirmavam no Twitter que, ao assistir à novela, era como se também estivessem na terapia.

"Recebi muitas mensagens de amigos dizendo que tinham pego carona com Ana Virgínia e começado a fazer terapia. Ela trouxe um exemplo de que um terapeuta não é um curandeiro e de que você não precisa ir para a igreja para expurgar seus demônios. Foi educativo", diz Braga, que se inspirou em sua terapeuta e leu "Cartas a um Jovem Terapeuta", de Contardo Calligaris, colunista do jornal Folha de S.Paulo morto no ano passado, para se preparar para o papel.

A terapia não é um elemento inédito na ficção. Braga lembra que, na Globo, já havia aparecido em produções como "Dancin' Days", que Gilberto Braga escreveu no fim dos anos 1970, e lá fora em "Os Sopranos", de 1999. Mas ela nunca apareceu com tanta frequência nem com tanta relevância dentro das narrativas.

Nos anos 2000, era tão rara que uma das poucas histórias sobre terapeutas, o seriado israelense "Be'tipul", fez tanto sucesso que ganhou dezenas de adaptações mundo afora, inclusive no Brasil, com Selton Mello, em "Sessão de Terapia".

Na avaliação da diretora editorial da HarperCollins, Raquel Cozer, o interesse dos escritores em mandar seus personagens para a terapia surge a partir da preocupação com o bem-estar. No Brasil, ela cresceu 74% nos últimos dois anos, segundo a McKinsey & Company, uma consultoria empresarial. É o país que registrou o maior aumento entre os seis que participaram da pesquisa.

O relatório avaliou elementos como nutrição, sono e aparência, mas as conclusões podem se estender ao entretenimento, diz Cozer. É o que faz a HarperCollins ao apostar em livros atravessados por discussões sobre saúde mental, inclusive os de não ficção, como "Não Aguento Não Aguentar Mais", que reflete por que o burnout ameaça definir a vida dos millennials.

São histórias diferentes de "Sopranos", já que o protagonista do seriado não vai à terapia em busca de conforto, mas para discutir pautas como sua obsessão pelos patos que invadiram a sua piscina. "Em 'Sopranos', temos o exemplo perfeito do que é a terapia, sobre coisas muito pequenas que dizem muito sobre nossas vidas. É o melhor que já vi, mas, quando a terapia está no centro da história, é difícil fazer do mesmo jeito", diz a editora.

Outro elemento por trás da tendência é o entristecimento das pessoas, diz o psicanalista Lucas Liedke, que discute saúde mental na internet. Sua visão é amparada pelo Relatório Mundial da Felicidade, da ONU. Em 2020, o Brasil caiu 12 posições no ranking. Em 2021, o país recuperou duas posições, mas continua distante do melhor patamar, registrado em 2013, quando chegou a ocupar a 24ª posição.

"Além de retratar a sociedade, essas obras ajudam a desconstruir a ideia da terapia como algo elitista, que em parte é verdade, mas em parte não só é mentira como é até preconceito, porque muita gente pensa que terapia é só para quem está sofrendo muito ou para quem tem muito dinheiro e tempo", diz Liedke.

Crítico a quem se preocupa com a saúde mental sem refletir sobre a precarização da vida, o psicanalista salienta que "a terapia não vai resolver os problemas do mundo, como a pobreza, o racismo, o machismo, mas pode ajudar quem sofre disso a enfrentar o problema da melhor maneira". "Se cuidamos do nosso corpo, por que não deveríamos cuidar da cabeça? A gente merece fazer terapia."