SP-Arte abre o baú de Fernando Zarif, das capas dos Titãs a curativos usados


MARINA LOURENÇO
MARINA LOURENÇO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Tudo era caos. O ateliê, o apartamento, os passeios, a personalidade, as ambições e todo o resto de Fernando Zarif sempre exalaram uma energia anárquica. Suas obras são não só reflexo dessa veia excêntrica, como também rastros de um mundo que ele próprio tentava evitar, desafiando qualquer tipo de status quo.

É o que mostra o livro “Fernando Zarif - Múltipla Unidade”, que será lançado no dia 23 deste mês, na SP-Arte, e traz à tona poemas, desenhos, assemblages, rabiscos, cartas e desabafos do artista que nunca foram exibidos ao público.

Dono de uma identidade multifacetada, Zarif talvez rejeitasse a publicação —se estivesse vivo—, já que seus holofotes preferidos eram aqueles sempre desligados e fora do seu campo de visão. Embora tenha se debruçado sobre teatro, música, rádio, artes plásticas e literatura, o artista renegava o próprio sucesso.

Marcado pelo estilo ready-made e por uma erudição disruptiva, o paulistano, que morreu aos 50 anos, em 2010, de falência múltipla dos órgãos, é conhecido principalmente por obras produzidas a partir de fósforos, agulhas, cigarros, próteses, fios de cabelo e outras miudezas.

Zarif também escrevia, desenhava, esculpia, pintava, fotografava, performava e compunha. Fez as capas dos discos "Tudo ao Mesmo Tempo Agora" e "Titanomaquia", dos Titãs, e expôs em mostras de Paris, São Paulo e Rio de Janeiro.

Grande parte de suas produções, no entanto, nunca foi nem sequer exibida, ou só veio à tona depois de sua morte. É o caso da maioria dos trabalhos reproduzidos em “Múltipla Unidade”, organizado pela escritora Noemi Jaffe. A publicação é o segundo livro dedicado ao artista, que em 2014 foi homenageado com "Zarif - Uma Obra a Contrapelo”, organizado por José Resende.

“Ele nunca mostrou muito suas obras para a família. Na verdade, ele não gostava de expor”, diz Adriana Zarif, cunhada do artista e uma das responsáveis pelo Projeto Fernando Zarif, que há dez anos faz a catalogação dos milhares de obras do paulistano e promove eventos em sua celebração.

Além do lançamento do livro, ela também coordena outra ação que homenageará Zarif neste mês, uma exposição-projeção sediada em sete empenas cegas de prédios do Minhocão, no centro de São Paulo.

Nela, serão reproduzidos vídeos gravados por amigos e admiradores do artista lendo trechos de “Múltipla Unidade”. Entre os convidados, estão Barbara Gancia, Bia Lessa, Branco Mello, Cacá Ribeiro, Carolina Ferraz, Erika Palomino, Fernanda Torres, Lenora de Barros, Liana Padilha, Malu Mader, Marina Lima, Paulus Magnus, Sergio Mekler e Tony Bellotto.

Os vídeos, que também estarão disponíveis pelas plataformas digitais do projeto e da galeria Luciana Brito, são declamações construídas a partir de textos de Zarif, que tinha o hábito de escrever em cadernos, pedaços de papel e até folhas de guardanapo.

“Quando ele morreu, ficamos impressionados com a quantidade de obras dele que nunca foram exibidas. Eram mais de 3.000, espalhadas pelo seu ateliê, apartamento, fazenda e até por Paris”, diz a cunhada de Zarif. “Cada obra que chegava era uma descoberta nova e os amigos dele pediam para que não deixássemos tudo isso cair no esquecimento."

Mas a fama do artista não se restringe à negação de seu próprio trabalho ou à avidez de sua postura, caminhando também por uma personalidade explosiva, de pavio curto. Não é à toa que seu jeito irreverente, rebelde e radical causou várias brigas com galeristas e cancelamentos de mostras.

“Ele era realmente briguento. Queria tudo feito à moda dele, era meio mimado”, diz a jornalista Erika Palomino, uma de suas melhores amigas. “Mas ele era também muito exigente com tudo, até com ele mesmo. Agia sempre sob uma velocidade intensa, como se tudo perdesse a graça repentinamente.”

Palomino explica que o modus operandi de Zarif era puro reflexo das suas obras, errático. Quando se arrependia de alguma produção, ele ateava fogo, rasgava ou a jogava no lixo. E, quando o arrependimento não batia, escondia a obra da vez.

“Ele foi um iconoclasta. Um multimídia, nos primórdios dessa expressão”, diz a jornalista. “Embora vivamos em um mundo de binarismos, ele sempre foi bagunceiro, fora da caixa, um provocador fazendo zigue-zague num aspecto arte-vida.”

O forte desinteresse de Zarif pela fama é algo que inevitavelmente cutuca as homenagens póstumas que ele recebe. Palomino conta que quando esteve na inauguração do espaço do Projeto Fernando Zarif, em 2018, imaginou o que ele faria se estivesse ali. “Ou teria levantado e saído discretamente ou teria gritado um ‘foda-se’”, diz. “Mas é claro que jamais faríamos uma coisa que ele odiasse, tudo é sempre pensado com muito carinho e cuidado.”

Segundo ela, dar às pessoas a chance de conhecer as obras de Zarif, sobretudo em meio ao contexto político do Brasil de hoje, é uma necessidade urgente que serve como estímulo a reflexões disruptivas.

Dividido por temas como religiosidade, cartas e jogos de palavras, “Múltipla Unidade” traz não só obras inéditas do paulistano, como também algumas que foram expostas no ano anterior à sua morte. Mais de 50 quilos de desenho estão reunidos no livro, ao lado de poemas, reflexões e assemblages grotescas, como curativos usados e flores mortas.

Depois de viver meses se debruçando sobre os conteúdos que selecionaria para o livro, Noemi Jaffe diz ver nas produções de Zarif uma ebulição encorajadora. “Eu espero que esse livro seja bem recebido, porque é muito importante para o momento que a gente está vivendo”, diz ela. “O Fernando era o oposto de tudo que estamos vendo. O oposto desse medo e desse ataque às artes. A obra dele se tornou uma urgência compulsiva e prolífica.”

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SP-ARTE

Quando De 20 a 24 de outubro de 2021

Onde  ARCA (av. Manuel Bandeira, 360, Vila Leopoldina, São Paulo)

Preço R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada)

Agendamento de visitas https://www.sp-arte.com/

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