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m de leitura Atualizado em 03/03/2022, 12:16

Separatistas ameaçam Mariupol às vésperas de negociação entre Rússia e Ucrânia

PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de março de 2022

PATRICIA PAMPLONA
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Enquanto a expectativa gira em torno do segundo diálogo entre russos e ucranianos, nesta quinta (3), separatistas pró-Moscou em Mariupol ameaçam a estratégica cidade portuária com novos bombardeios.

"Precisamos esperar alguns dias até que a situação seja resolvida. A operação especial mostrou que ataques direcionados são possíveis", disse o porta-voz separatista Eduard Basurin, segundo a agência Interfax. "Civis não serão prejudicados, mas o inimigo na cidade será desmoralizado e se renderá."

O uso do termo "operação militar especial", um eufemismo para "guerra", virou obrigatório para a mídia russa, agora proibida de mencionar as palavras "invasão" ou "agressão", além, claro, de "guerra".

A cidade está cercada por tropas russas, afirmou nesta quinta o assessor do Ministério do Interior, Anton Heraschenko. Em mensagem via Telegram, o prefeito Vadim Boichenko disse que os militares de Moscou querem impor um bloqueio como foi feito com Leningrado, hoje São Petersburgo, cercada por nazistas na Segunda Guerra Mundial.

"Destruíram todas as pontes, destruíram os trens para impedir que nossas mulheres, crianças e idosos saiam. Nos impedem de nos abastecermos." Mais cedo, Boichenko já havia relatado que a cidade está sem luz, água e aquecimento. ​

Moscou tem constantemente bombardeado infraestruturas importantes da cidade, denunciou o Legislativo de Mariupol em comunicado nesta quinta-feira, que também fez alusão à cidade soviética. "Eles estão interrompendo o fornecimento de alimentos, bloqueando-nos, como na antiga Leningrado", diz o texto. "Estamos sendo destruídos como nação. Isso é genocídio do povo ucraniano."

O líder separatista, Denis Pushilin, também relata que a provisão de alimentos e medicamentos está crítica, segundo a Interfax, mas responsabiliza forças ucranianas pela dificuldade em implantar corredores sanitários. "A situação é extremamente difícil. Nossas tentativas de organizar corredores humanitários para civis deixarem [a cidade] se deparam com ações nacionalistas, que estão impedindo os civis de saírem", disse Pushilin.

"Civis estão proibidos de se locomover pelo território de Mariupol sob ameaça do uso de armas", acrescentou. "Nossas unidades veem que os nacionalistas estão apenas usando a população civil como escudo"

Apesar dos bombardeios constantes e das tropas russas que cercam a cidade, o Ministério da Defesa britânico, em seu último boletim, afirmou que Mariupol segue sob controle ucraniano.

Os russos também já tomaram Kherson, ​outro ponto estratégico na costa, situação já admitida pelo prefeito Igor Kolikhaiev, que, no Facebook, escreveu que as tropas de Putin assumiram o controle do prédio da administração central. A pasta britânica, porém, diz que a situação militar lá não está clara.

O controle das duas cidades, somadas ao domínio estendido dos separatistas pró-Rússia nas áreas históricas do Donbass, estabeleceria uma ponte terrestre ligando a Crimeia ao leste russo da Ucrânia.

A ofensiva de Moscou segue também em duas outras cidades importantes. Na capital Kiev, há relatos de bombardeios durante a noite, e o Ministério da Defesa russo disse ter atingido um centro de TV e rádio.

Já próximo a Kharkiv, segunda maior cidade do país que esteve sob forte bombardeio nos últimos dois dias, a Rússia afirma ter tomado Balaklia, a 90 km dali. Também na região, seis adultos e duas crianças morreram após um ataque a um prédio residencial de Izium. Uma igreja ortodoxa em Kharkiv foi danificada, mas não houve vítimas. Também houve bombardeios em Chernihiv.

Apesar da situação tensa, o Ministério da Defesa britânico mantém seu relatório de que as tropas russas fizeram pouco progresso nos últimos três dias na capital e que o comboio segue a 30 km de Kiev.

Com ameaças a cidades estratégicas, os negociadores ucranianos partem para a segunda rodada de negociações com os russos. Um representante de Moscou disse nesta quarta (2) que espera chegar a um cessar-fogo —avanço em relação à última reunião, quando o Kremlin não divulgou sua agenda.

Enquanto isso, a situação humanitária se agrava. Um conselheiro de Volodimir Zelenski fez um apelo às organizações internacionais, citando a OSCE (Organização para Segurança e Cooperação na Europa).

"As cidades onde as tropas russas estão estacionadas imediatamente se tornam lugares de saques, roubos e assassinatos", escreveu Mikhailo Podoliak. "Precisamos de corredores humanitários –comida, remédios, ambulância, retirada. Precisamos de ajuda ativa, incluindo da OSCE. Chega de falar."

Em seu mais recente levantamento, a Acnur, agência da ONU para refugiados, divulgou que, em uma semana de conflito, um milhão de pessoas já deixaram a Ucrânia. "Para muitos outros milhões, dentro da Ucrânia, é hora de armas silenciarem, para que a assistência humanitária que salva vidas possa ser providenciada", escreveu no Twitter o chefe da agência, Filippo Grandi.