Sem dinheiro para o aluguel, famílias formam novas favelas em SP
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sexta-feira, 30 de abril de 2021
LUCAS VELOSO 
<p>SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Desde dezembro, a dona de casa Karine Alcântara Silveira, 41, vive com o filho Fernando, 15, em uma tenda de lona na favela Penha Brasil. A ocupação de moradia surgiu naquele mesmo mês na Vila Dionísia, distrito da Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo.
</p><p>Até então, o dinheiro que Karine recebia da Prefeitura de São Paulo pagava o aluguel em uma casa, mas o auxílio foi interrompido. "Disseram que acabou o prazo que tinham pra me dar, mas por eu ter o menino, acho que não era para ter cortado, né?".
</p><p>Assim, ela passou a contar só com o auxílio-doença de R$ 1.100 para cobrir parte dos tratamentos para uma deficiência intelectual do filho. "As coisas foram apertando", relata.
</p><p>Despejada, Karine buscou abrigo em uma favela próxima onde conhecia alguns moradores. Não encontrou nada, mas foi avisada de um movimento. "Me falaram que o pessoal estava vendo um terreno da Prefeitura, na rua de trás. Falaram que eu poderia ir para construir alguma coisa junto com outras famílias", lembra.
</p><p>A história de Karine se repete na capital e na Grande São Paulo. Afetados pela pandemia com a perda de renda e sem condição de pagar aluguel, restou a esses moradores procurar lugar em alguma favela ou se unir a um grupo para ocupar terrenos ociosos das cidades.
</p><p>Estimativas do Observatório das Remoções apontam para ao menos cinco novas ocupações que surgiram na região metropolitana durante a pandemia com essas características.
</p><p>"Temos notícias ainda de várias outras ocupações menores e bastante precárias em praças ou beiras de córregos, em que as famílias são expulsas de maneira muito rápida e passam a procurar outras áreas para morar", afirma Débora Ungaretti, pesquisadora do LabCidade, ligado à FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo).
</p><p>A situação começou a se agravar ano passado, quando moradores despejados passaram a inflar comunidades que já existiam como a favela da Pullman, na zona sul, e a Jardim Julieta, na zona norte. Com a interrupção do auxílio emergencial em dezembro e o aumento do preço dos alimentos, a situação tem levado cada vez mais gente para essas regiões.
</p><p>Nessas novas comunidades, as pessoas se aglomeram em pequenos cômodos, construídos com pedaços de madeira recolhidos no lixo ou em comércios, além de papelão e outros materiais usados para demarcar a moradia de cada um. Serviços de água e luz não costumam atender essas localidades. Para isso, contam com ajuda de vizinhos e familiares.
</p><p>Há cinco anos, a cabeleireira Roseli Souza, 49, está desempregada e vive com R$ 200 por mês --o que não banca um aluguel. Divide um barraco com as filhas, um filho com deficiência auditiva, quatro netos e o marido com dificuldade de locomoção por causa de uma hérnia de disco.
</p><p>Se dividido, o valor que a família recebe do governo pela quantidade de pessoas, cada um pode gastar cerca de R$ 0,74 por dia na casa.
</p><p>Ela também foi parar na Penha Brasil. "Vim para cá e agora querem nos tirar daqui. Desta terra que estava abandonada há 30 anos. Agora que chegamos o pastor se faz de vivo e presente?", questiona.
</p><p>O local ocupado pelas famílias está sob o nome do líder da Igreja Internacional da Graça de Deus, Romildo Ribeiro Soares, mais conhecido por seus seguidores como R.R. Soares, dono de empresas e veículos de comunicação.
</p><p>Apesar das críticas ao pastor, a cabeleireira diz que está vivendo "da graça de Deus", que toca no coração de um homem que leva mensalmente uma cesta básica para ela.
</p><p>Agora, os advogados da Igreja entraram na Justiça alegando que a ocupação ocorreu de forma criminosa. Roseli, por sua vez, afirma não ter opção. "Se acontecer, é pegar meus filhos e ir para debaixo da ponte ou caçar outro terreno porque não tenho condições."
</p><p>Procurada para responder às críticas dos moradores, a Igreja Internacional não respondeu até a publicação desta reportagem.
</p><p>Segundo a líder comunitária Ana Paula da Silva, 36, da favela da Penha, a maioria das famílias ali perdeu o auxílio-aluguel antes pago pela Prefeitura de São Paulo. "Aqui cresceu muito rápido, em apenas cinco meses. Foi o lugar em que as pessoas acharam para levantar seus barraquinhos", diz.
</p><p>Na ocupação Terra Prometida, no Jardim Vera Cruz (zona sul),, a situação das famílias da ocupação é de extrema pobreza, descreve Ana Claudia Hilario Barbosa, 40, liderança local.
</p><p>Felipe Carlos Carvalho, 29, da comuiudade Nova Canaã, na zona sul, também observou aumento das pessoas em busca de lugar para morar. "Só aqui onde eu moro tem três ocupações."
</p><p>Nas contas das lideranças, a Terra Prometida tem cerca de 4.000 famílias. Outra ocupação reúne cerca de 1.500, e a terceira 200.
</p><p>No bairro de Iguatemi, zona leste da capital, limite com o município de Mauá, duas ocupações surgiram nos últimos meses de acordo com moradores. Nos municípios vizinhos, na Grande São Paulo, também há novas ocupações, segundo o LabCidade, que cita São Bernardo do Campo e Diadema.
</p><p>Larissa Lacerda, pesquisadora do LabCidade, vê dificuldades em mapear a demanda e as novas ocupações por falta de dados. "Pesquisas como o Censo, realizado pelo IBGE e cancelado neste ano pelo governo federal, poderiam nos oferecer esses dados ou algo aproximado", opina.
</p><p>Ocupações podem ser formadas e removidas em um período muito curto, aponta, e às vezes nem mesmo os pesquisadores da área ficam sabendo.
</p><p>"Há uma população flutuante, posta em constante deslocamento em busca de uma nova solução, sempre provisória, de moradia. Grupos sociais que já eram submetidos a processos variados de precarização [como famílias lideradas por mulheres negras] se viram agora em condições ainda mais adversas", observa.
</p><p>Sua colega Débora Ungaretti enumera políticas públicas que poderiam ser adotadas para impedir o agravamento da situação habitacional: "Suspensão de despejos, reintegrações de posse, desapropriações de áreas ocupadas e outras formas de remoção com ou sem ordem judicial".
</p><p>Questionada, a Prefeitura de São Paulo não respondeu sobre o corte do auxílio aluguel, mas afirmou que tomou medidas como a suspensão da cobrança de parcelas de financiamento e aluguel de suas unidades habitacionais, numa ação que beneficiaria mais de 38 mil famílias.
</p><p>Disse ainda que entregou 29 mil unidades habitacionais desde 2017 , com mais 6.600 previstas para 2021, e que o trabalho de regularização fundiária beneficiou mais de 172,4 mil famílias, com ações de urbanização que permitem o direito à posse e à permanência dos moradores.</p>


