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m de leitura Atualizado em 03/03/2022, 17:18

Rússia vive onda de cancelamento na cultura após invasão à Ucrânia (1)

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quinta-feira, 03 de março de 2022


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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Rússia virou pária da indústria cultural depois que seu presidente, Vladimir Putin, atacou a Ucrânia e deu início à mais grave crise militar na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Em um artigo na Bloomberg, o economista Tyler Cowen chamou a onda de cancelamentos de um "novo macarthismo", em referência ao período da história americana em que uma série de artistas, intelectuais e políticos foram perseguidos e censurados por causa de uma suposta ligação com o comunismo.

Abaixo, veja uma lista de instituições e eventos que vetaram a presença russa até que Putin anuncie um cessar-fogo.

CINEMA E TV

Após a Academia de Cinema da Ucrânia ter criado uma petição virtual pedindo retaliação à Rússia, o festival de Glasgow, que começou no Reino Unido nesta quarta-feira, baniu dois filmes russos —"No Looking Back" e "The Execution".

O Festival de Estocolmo, que ocorre a partir de março, seguiu os mesmos passos e retirou de sua programação todos os filmes com financiamento estatal russo.

O Festival de Cannes, por sua vez, não vai aceitar a presença de delegações oficiais da Rússia ou de qualquer pessoa ligada ao governo de Putin no evento, previsto para maio.

O evento francês não especificou se o boicote atinge qualquer filme russo, no entanto. "Saudamos a coragem de todos aqueles que vivem na Rússia e estão correndo risco ao protestar contra a invasão na Ucrânia. Entre eles, há artistas e cineastas que nunca deixaram de lutar contra o regime atual e que não podem ser associados às ações inaceitáveis [de Putin]", disseram os organizadores em nota à imprensa.

O único festival que não acatou o pedido da academia ucraniana foi o de Locarno, programado para agosto na Suíça, com a justificativa de que o boicote fere a liberdade de expressão e do cinema.

No campo comercial, Disney, Sony e Warner, três dos maiores estúdios de Hollywood, afirmaram que não exibirão seus lançamentos no país até que o conflito seja interrompido.

Entre eles, estão a releitura de "Batman" com Robert Pattinson, "Morbius", sobre o vampiro anti-herói da Marvel interpretado por Jared Leto, e "Red - Crescer É uma Fera", da Pixar.

MÚSICA

Próximo de Putin e considerado o maior maestro russo, Valery Gergiev tem colecionado reveses desde o início da guerra.

Giergev teve suas apresentações com a Filarmônica de Viena canceladas no Carnegie Hall, uma das mais tradicionais casas de espetáculos de Nova York, assim como no La Escala, em Milão, na Itália.

Ele também foi demitido da Filarmônica de Munique, na Alemanha, onde tinha o cargo de maestro-chefe. O prefeito da cidade alemã, Dieter Reiter, disse que pediu que Gergiev se manifestasse sobre a guerra, mas, devido ao seu silêncio, não havia alternativa senão a demissão.

Em Nova York, o Carnegie Hall anunciou que não vai mais receber artistas que apoiam o presidente russo, assim como o Metropolitan. Este, aliás, cancelou as apresentações vindouras da soprano russa Anna Netrebko, cuja fama ajudou a construir ao longo dos últimos 20 anos. Segundo o jornal The New York Times, estrela da ópera não concordou com a intimação da casa de que distanciasse sua imagem do presidente Vladimir Putin, cuja reeleição ela apoiou.​

Na seara da música pop, a banda Green Day cancelou um show que faria em Moscou em maio.

ARTES

Embora a Bienal de Veneza não tenha proibido a exibição de nenhuma obra, os artistas russos Kirill Savchenkov e Alexandra Sukhareva decidiram retirar seus trabalhos do pavilhão russo, dizendo que "não há espaço para arte enquanto civis estiverem morrendo sob o fogo de mísseis".

Raimundas Malasauskas, curador do pavilhão nacional da Rússia, onde a dupla teria suas obras expostas, também renunciou sua participação da Bienal de Veneza. Com isso, a área ficará fechada durante o evento, que abre as portas em abril.

A participação da Ucrânia é incerta, já que curadores e artistas ucranianos também se retiraram da mostra e só voltarão atrás se a guerra for encerrada. "Não podemos continuar trabalhando no projeto do pavilhão porque nossas vidas estão em risco", disseram os curadores Maria Lanko, Lizaveta German e Borys Filonenko em nota à imprensa.​

LITERATURA

Em meio à escalada do conflito, o escritor Fiódor Dostoiévski acabou se tornando um alvo. Na Itália, a Universidade de Milão-Bicocca, uma das mais importantes da região, cancelou um curso sobre o autor e depois voltou atrás.

Enquanto isso, um teatro de Gênova desmarcou um festival de música e literatura russa dedicado ao autor de "Crime e Castigo". O motivo, segundo reportou a agência de notícias Ansa, é o fato de que o Consulado da Rússia em Gênova patrocina o evento.

Já o prefeito de Florença, Dario Nardella, disse ter recebido pedidos para derrubar uma estátua de Dostoiévski na cidade. "Essa é a guerra louca de um ditador e seu governo, não de um povo contra outro. Ao invés de apagar séculos de cultura russa, pensemos em como parar Putin rapidamente", declarou ele à mesma agência de notícias. "Parece que chegamos a um nível de histeria contra cidadãos russos que não têm nenhuma culpa de ter nascido na Rússia."

STREAMING

A Netflix interrompeu produções originais russas e a compra de filmes e séries do país devido à guerra com a Ucrânia, iniciada dia 24 de fevereiro, segundo a revista Variety. Com isso, a gigante do streaming se junta a outras empresas que aderiram às sanções econômicas ao país.

O streamer tinha quatro originais russos em andamento, incluindo uma série de suspense policial dirigida por Dasha Zhuk, que estava filmando e foi suspensa. A série de 1990 foi a segunda série original da Netflix filmada na Rússia, depois de "Anna K", que terminou no ano passado.

O Spotify afirmou nesta quarta (2) que fechou seu escritório na Rússia indefinidamente em resposta ao que chamou de "ataque sem motivo à Ucrânia" por parte da Rússia.

A plataforma ainda disse ter revisado milhares de conteúdos desde o início da guerra e restringiu a apresentação de programas pertencentes e operados pela mídia estatal russa.

No início da semana, chegou inclusive a remover todos os programas das emissoras RT e Sputnik, pertencentes ao governo, de suas plataformas na União Europeia, Estados Unidos e outros mercados ao redor do mundo —exceto a Rússia.