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m de leitura Atualizado em 26/02/2022, 05:06

Rússia sob ameaça da Ucrânia é justificativa bélica de Putin, diz historiador inglês

PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de fevereiro de 2022

DIOGO BERCITO
AUTOR autor do artigo

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WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - ​Não há nada de muito novo na justificativa que o presidente russo Vladimir Putin usou nesta semana para invadir a Ucrânia. Em um mundo pautado por um sistema internacional e pela ideia de guerras justas, uma das maneiras mais eficientes de atacar um país é dizer que se sente ameaçado por ele.

"De jeito nenhum a Ucrânia representa uma ameaça para Putin, mas ele sabe que precisa apresentar a ideia de uma ameaça", diz o historiador britânico Jeremy Black, autor de "A Short Story of War" (uma breve história da guerra).

"Ele diz, portanto, que a entrada da Ucrânia na Otan seria uma ameaça para a Rússia." Na linguagem técnica, esse é o "casus belli" do russo. Sua justificativa bélica.

O problema, afirma Black, é que esse tipo de argumento é infeccioso. O "casus belli" de uma guerra vira o "casus belli" de outra", e regiões acabam imersas em um ciclo de conflitos de que não conseguem mais escapar. Por isso a invasão russa preocupa tanto o mundo, segundo o historiador. Há guerras em outras partes do globo. Mas o confronto em Kiev é o que tem mais potencial, agora, de se espalhar para o resto do mundo e minar a própria ordem internacional.

PERGUNTA - O senhor escreveu um livro sobre a história das guerras. Tendo isso em vista, surpreendeu-se quando o presidente russo Vladimir Putin tenha anunciado a invasão da Ucrânia?

JEREMY BLACK - O que Putin disse em seu discurso está alinhado à sua visão estratégica da cultura russa, e não às ideias modernas da soberania dos Estados nacionais. Para Putin, essas regiões da Ucrânia não são Estados nacionais e a democracia não tem validade moral. Para nós que vivemos em uma democracia —o Brasil, o Reino Unido— essa abordagem é anacrônica.

O que esperamos de um "casus belli" é que haja uma ameaça imediata à nossa integridade. De jeito nenhum a Ucrânia representa uma ameaça para Putin, mas ele sabe que precisa apresentar a ideia de uma ameaça.

Ele diz, portanto, que a entrada da Ucrânia na Otan seria uma ameaça para a Rússia. De maneira geral, o problema desse tipo de argumento é que ele é pernicioso para as relações internacionais. Em regiões onde há constantes conflitos, eles viram a norma e, assim, fica difícil limitar os embates. O "casus belli" de uma guerra vira o "casus belli" de outra.

P. - Putin justificou seu ataque como uma defesa da Rússia...

JB - Líderes frequentemente dizem que precisam declarar guerra para se proteger, quer seja no sentido territorial ou espiritual. Mas esse argumento faz com que a gente escorregue rapidamente para uma situação em que o conflito é a regra.

Imagine que Putin tenha sucesso e estabeleça um Estado-cliente na Ucrânia. Qualquer tentativa dos cidadãos ucranianos de criar um espaço civil para discutir a política local vai ser entendido como um ato de violência, como uma ameaça.

P. - Nos últimos dias, houve debate sobre se a Rússia tem uma razão "legítima" para declarar a guerra. Essa preocupação existia nas guerras que foram travadas séculos atrás?

JB - Havia uma necessidade de justificar uma guerra entre potências cristãs. Por exemplo, entre Espanha e Portugal. Era preciso apresentar uma razão para um conflito que mataria outros cristãos. No caso de guerras contra muçulmanos, por outro lado, havia um estado constante de animosidade —o conflito existia, não precisava ser criado.

No caso da Rússia, Putin está aparentemente se apresentando como uma expressão do destino do país, e essa é uma ideia perturbadora. Reduz uma sociedade complexa, em que o debate é possível, a um indivíduo apenas.

P. - Como o senhor compararia esse episódio com outras declarações de guerra no passado recente?

JB - Desde a fundação das Nações Unidas, em 1945, existe essa percepção de que é necessário justificar conflitos para que estejam de acordo com o estatuto. A maneira corriqueira de fazer isso é dizer que existe uma ameaça. No caso da invasão americana ao Afeganistão em 2001, os EUA acusaram o governo do Talibã de abrigar os responsáveis pelos ataques do 11 de Setembro. Isso acontecia também antes da ONU, aliás. Antes da Alemanha nazista invadir a Polônia, o Terceiro Reich buscou desculpas para usar de propaganda para seu próprio povo e para os países neutros.

É raro que alguém acorde e diga: estamos agindo corretamente ao declarar uma guerra sem haver nenhuma ameaça. Mesmo o Estado mais volátil do mundo, a Coreia do Norte, justifica seus disparos de mísseis como uma maneira de fazer seus interesses serem ouvidos pela comunidade internacional. Buscam desculpas. Eles não estão dizendo: só estamos disparando mísseis, mesmo.

P. - A invasão da Ucrânia tem atraído bastante atenção nestes dias. Mas há outros países em guerra há anos que não recebem nenhuma atenção. O que explica isso?

JB - A guerra mais grave no mundo até esta era a da Etiópia. Muitas pessoas foram mortas ali, mas o conflito tem sido ignorado. Também há violência de larga escala em Mianmar. As pessoas sabem disso, mas em geral fazem pouco caso.

A razão pela qual acredito que tanta gente se preocupa com a Ucrânia é porque a Rússia tem a capacidade de transformar um conflito regional em uma guerra de grande escala. Isso vale também para os Estados Unidos e para a China. Além disso, como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, a Rússia tem o poder de destruir a arquitetura das relações internacionais. Existe hoje um desafio fundamental à ordem global.