|
  • Bitcoin 144.391
  • Dólar 4,8243
  • Euro 5,1596
Londrina

Últimas Notícias

m de leitura Atualizado em 28/02/2022, 19:35

Rússia intensifica ataques na Ucrânia, e observadores acusam uso de bombas de fragmentação (4)

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

PATRÍCIA PAMPLONA E LUCAS ALONSO
AUTOR autor do artigo

menu flutuante

SÃO PAULO, SP, E BAURU, SP (FOLHAPRESS) - Depois de uma madrugada de mais explosões em diferentes partes da Ucrânia nesta segunda-feira (28), as atenções no quinto dia de guerra no Leste Europeu voltaram-se a Gomel, pequena cidade da Belarus que recebeu enviados dos presidentes Vladimir Putin e Volodimir Zelenski em uma mesa de negociação.

Moscou e Kiev concordaram no domingo em se sentar para negociar, e o governo da Ucrânia chegou a dizer que a ofensiva russa contra suas principais regiões diminuiu o ritmo. Mas os relatos de ações militares brutais em cidades como a capital Kiev e Kharkiv, as maiores da Ucrânia, continuam se acumulando.

Ao menos 11 pessoas morreram nesta segunda durante bombardeios em Kharkiv, segundo Oleh Sinehubov, chefe da Administração Estatal Regional. Ele, no entanto, reconhece que as mortes podem chegar a dezenas. Até domingo (27), eram 352 vítimas civis em todo o país, incluindo 14 crianças, de acordo com o Ministério do Interior.

Segundo Sinehubov, forças russas estão atacando áreas residenciais de Kharkiv, onde não há posições do Exército ucraniano ou infraestrutura estratégica. "Isso está acontecendo à luz do dia, quando as pessoas vão à farmácia, para fazer compras ou beber água. É um crime", disse.

Grupos de direitos humanos, como as ONGs Human Rights Watch (HRW) e Anistia Internacional, apontam que a Rússia está usando bombas de fragmentação nos ataques. Esse tipo de munição libera projéteis menores no ato da explosão, amplificando a área de dano e, por consequência, o risco de mortes e ferimentos.

Além disso, alguns desses projéteis podem atuar como pequenas bombas que, se não detonadas de imediato, tornam-se, na prática, uma espécie de mina terrestre —prolongando, portanto, o tempo de exposição aos riscos nas áreas atingidas.

"Este ataque ilustra claramente a natureza inerentemente indiscriminada das munições de fragmentação e deve ser inequivocamente condenado", disse Mark Hiznay, diretor associado da divisão de armas da HRW, em entrevista ao jornal americano Washington Post.

Em 2008, governos nacionais e entidades como a Organização das Nações Unidas e a Cruz Vermelha formaram uma coalizão que, entre outros protocolos, decidiu por proibir o uso, a produção, o transporte e o armazenamento das bombas de fragmentação.

De acordo com a última versão do relatório anual da coalizão, Rússia, Ucrânia e EUA, protagonistas do conflito vigente, estão entre os países que não aderiram às diretrizes contra as bombas de fragmentação. O Brasil também não é signatário e aparece no documento como um dos 16 produtores mundiais desse tipo de munição.

A guerra na Ucrânia segue, portanto, ativa. Nas negociações da Belarus, havia a possibilidade de que, a depender das condições do Kremlin, Zelenski acabasse assinando sua rendição. O que prevaleceu na rodada de negociações, porém, foi o resultado esperado: nenhum avanço claro. Representantes dos dois países concordaram em voltar às suas capitais para discutir pontos da conversa e devem marcar uma segunda rodada de reuniões, sem data anunciada.

O gabinete de Zelenski afirmava que o objetivo da conversa era buscar um cessar-fogo e a retirada das tropas russas. Inicialmente, o ucraniano rejeitou a iniciativa da negociação, alegando que só seria possível conversar na Belarus se os russos não tivessem usado a ditadura aliada como uma das bases para seu ataque —justamente contra Kiev, a menos de 200 km da fronteira sul belarussa.

Antes de a comitiva ucraniana chegar a Gomel, Zelenski publicou vídeo em que pedia aos militares russos que entregassem as armas. "Abandonem seus equipamentos. Não acreditem em seus comandantes, não acreditem em seus propagandistas. Salvem suas vidas", disse ele, falando em russo.

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, não disse o que a delegação de seu país exigiria. Nesta segunda, afirmou que Moscou está interessado em chegar a um acordo e lamentou que a negociação não tenha começado ainda no domingo. As intenções russas, porém, foram postas à mesa durante outro diálogo, desta vez entre Putin e o presidente francês, Emmanuel Macron.

Durante conversa entre os líderes na tarde desta segunda, Macron instou Putin a interromper os ataques contra civis, preservar a infraestrutura civil ucraniana e fornecer acesso seguro às principais entradas do país. A Presidência francesa disse que houve aceno positivo por parte do russo, mas, é claro, com condições.

De acordo com o Kremlin, Putin disse a Macron que um acordo só seria possível se os interesses de segurança russos —os mesmos que ele vem repetindo a cada conversa bilateral— sejam atendidos. Seriam eles: a desmilitarização da Ucrânia, o reconhecimento da Crimeia, península anexada em 2014, e o que Putin chama de "desnazificação" da Ucrânia —ele alega que o país tem ligações com grupos neonazistas.

O entendimento pode ficar ainda mais distante caso se cumpra o pedido de ingresso da Ucrânia na União Europeia (UE), formalizado por Zelenski também nesta segunda. A junção do país do Leste Europeu ao bloco, que conta com 27 países-membros, levaria à escalada da pressão exercida por Moscou, mas parece receber apoio de diversos governos.

Presidentes de oito países, entre eles Polônia, República Tcheca e as ex-repúblicas soviéticas Letônia, Lituânia e Estônia, assinaram carta pedindo que a UE conceda imediatamente à Ucrânia o status de país convidado para ingressar no bloco e, assim, agilize sua adesão. A Itália também se mostrou favorável ao assunto, e a presidente da Comissão Europeia —Executivo da UE—, Ursula von der Leyen, já se disse a favor da entrada da Ucrânia. "Eles são um de nós, e nós os queremos."

Evitar a aproximação da Ucrânia do Ocidente, em blocos como a Otan, a aliança militar ocidental, e a UE, é um dos principais objetivos de Putin desde que começou a cercar o vizinho, ainda no ano passado, com mais de 100 mil tropas concentradas na fronteira com o país.

O governo ucraniano afirmou, mais cedo, que Kiev apresentava um cenário mais tranquilo, diferente do visto nos últimos dias, quando a ofensiva russa cercou a cidade. Ainda assim, o Reino Unido diz que forças de Moscou permanecem 30 km ao norte e são contidas pelos ucranianos que defendem Hostomel.

Os combates também continuam em Chernihiv, no norte, onde um prédio residencial foi atingido por um míssil, o que causou um incêndio. Na região, o aeroporto de Jitomir também foi alvo durante a madrugada, segundo as forças de Kiev. O lançamento teria sido feito da Belarus, apesar de o país ter dito que não permitiria ataques a partir do seu território, em meio à expectativa da negociação entre as comitivas.

À imprensa ucraniana os militares do país atribuíram uma eventual queda no ritmo da ofensiva à própria resistência. "Todos os esforços russos para ocupar [Kiev] falharam", disseram as Forças Armadas. O discurso foi corroborado pelo Ministério da Defesa do Reino Unido, segundo o qual "falhas logísticas e a firme resistência ucraniana continuam a frustrar o avanço" de Moscou.

Por outro lado, o Ministério da Defesa da Rússia afirmou ter tomado as cidades de Berdianski e Enerhodar, além da planta nuclear de Zaporijchia, segundo a agência de notícias Interfax. As autoridades locais ucranianas relataram ainda combates em Mariupol, mas Kiev nega ter perdido o controle da usina nuclear.

Segue, também, a repressão em território russo às tentativas de protesto contra a ação militar na Ucrânia. Até o fim desta segunda no horário local (tarde em Brasília), cerca de 2.000 pessoas haviam sido presas em 67 cidades russas por participar de atos com essa bandeira, de acordo com a ONG de monitoramento da violência OVD-Info.

Além da conversa em Gomel, outro diálogo esperado desta segunda foi o organizado pelo presidente americano, Joe Biden, com aliados dos EUA para, segundo disse a Casa Branca, coordenar uma resposta unida. Participaram, entre outros, Justin Trudeau, premiê do Canadá; Ursula von der Leyen, da UE; o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, e o premiê britânico, Boris Johnson, e o italiano, Mario Draghi.

Ao menos pelo que divulgou a Casa Branca, o encontro virtual obteve menos medidas práticas e mais consensos que podem desembocar em novas ações em breve. "Os líderes reconheceram a bravura do povo ucraniano e discutiram os esforços coordenados para impor custos e consequências severas para responsabilizar a Rússia", diz comunicado. Medidas para assegurar a estabilidade econômica, em especial no que diz respeito aos preços de energia, também estiveram na agenda.

A conversa ocorreu às 11h15 em Washington (13h15 em Brasília), mesmo horário em que a Assembleia-Geral da ONU iniciou o debate sobre uma resolução para condenar a invasão russa.

Uma medida do tipo já foi vetada por Moscou no Conselho de Segurança. Assim, na prática, a resolução serviu apenas para que os países mostrassem seu descontentamento com a iniciativa de Vladimir Putin sem gerar ações imediatas. O Ocidente tem adotado diversas medidas para reagir a Moscou, com sanções que incluem a proibição do uso do espaço aéreo por aeronaves do país e a desconexão de bancos russos do sistema internacional de transferências financeiras.

As sanções já levaram a uma queda de 15% do rublo em relação ao dólar e ao euro na abertura do mercado em Moscou nesta segunda, e a moeda só não caiu mais porque o Banco Central russo interveio.

Neste domingo, o G7 também ameaçou a Rússia com novas medidas, e o secretário de Estado dos EUA, ​Antony Blinken, garantiu que o grupo das principais economias do mundo estava "totalmente alinhado" contra a invasão da Ucrânia. As críticas aumentaram após Putin colocar suas forças nucleares em alerta —o governo britânico, no entanto, não viu grandes mudanças na postura nuclear russa.