Realities de confinamento driblam pandemia, mas outros formatos tropeçam


EDUARDO MOURA
EDUARDO MOURA

BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - Esta segunda onda da pandemia revelou um novo tipo de apego, quase obsessivo, do brasileiro com os reality shows. Com novelas canceladas, programas como o BBB ganharam mais espaço na TV e nas redes sociais.

Ao longo do reality, saíram listas detalhadas de quantos banhos cada participante tinha tomado ou de quanto tempo eles demoraram até que fizessem seu primeiro cocô na casa em Curicica, no Rio de Janeiro, onde é filmado o BBB.

Segundo o Kantar Ibope, os programas mais comentados —do mundo— no Twitter em 2020 foram BBB e A Fazenda.

Segundo a mesma pesquisa, entre abril de 2019 e abril de 2020, os realities ganharam 62% de tempo a mais nas TVs abertas e já vinham crescendo desde antes da pandemia.

O BBB 20, o primeiro a contar com influencers, começou antes do coronavírus tomar conta do país. Depois que vieram as restrições de circulação, as novelas tiveram suas gravações interrompidas. Enquanto isso, o BBB ganhou quatro episódios a mais. Na Record, A Fazenda aconteceu sem grandes modificações e encerrou sua última edição com a terceira maior audiência desde a estreia do formato.

E parece que a tendência veio para ficar. Amauri Soares, diretor da Globo, confirma que 2021 será o ano com maior número de realities no canal.

"A gente tentou entrar com ações [de marketing] no Big Brother, mas não conseguimos porque as cotas de anunciantes já estavam todas lotadas tudo", conta Marcelo Aquilino, sobre o sucesso comercial do programa durante a pandemia.

Fazer uma novela na Globo demanda uma equipe muito grande. Dependendo do tipo de cena, chegam a estar no set mais de cem pessoas, incluindo elenco, figurantes e equipe.

Num ritmo industrial, tudo acontece ao mesmo tempo. Enquanto o time de arte finaliza o cenário, a fotografia faz a luz, os atores passam o texto, os figurantes são orientados —tudo em passo acelerado.

Num mesmo estúdio podem ser montados diversos cenários, que costumam ser desmontados e substituídos de um dia para o outro —o que demanda mais pessoas na logística.

Não é à toa que essas produções cheias de gente aglomerada —e muitas vezes em lugares fechados— tenham sido paralisadas pela pandemia.

A produtividade dos trabalhadores das novelas é medida pelo número de páginas do roteiro que tiveram suas cenas gravadas. Um funcionário do setor de dramaturgia conta que antes da pandemia, quando uma novela estava no ar, era comum que gravassem 11 páginas por dia. Com o retorno das gravações, repleto de exigências de segurança, gravam só quatro por dia.

"Amor de Mãe", que chega ao fim agora, depois de ter sido encurtada, será substituída por uma nova reprise.

Num reality de confinamento, as equipes costumam ser menores. Enquanto as gravações das novelas podem ser na cidade cenográfica em estúdio ou até em locações externas —como a nova "Pantanal" deve exigir—, o BBB tem uma logística bem mais simples.

A Globo afirma, em nota, que "reality shows e novelas têm processos e dinâmicas de produção muito diferentes entre si". "Itens do protocolo de segurança, somados ao tamanho de equipe, número de frentes de gravação, tempo de realização —uma novela dura oito meses frente aos dois ou três meses de um reality— exigem logísticas distintas que impactam as gravações."

A Endemol Shine, que trouxe para o Brasil formatos como Masterchef e o próprio BBB, afirma, em nota, que, nos realities, conseguiram se adaptar para realizar as fases de pré e pós-produção de forma remota.

"Realizamos todas as audições de realities musicais, fases de seleção para talent shows de gastronomia e entrevistas com participantes de realities de relacionamento totalmente de forma remota."

Mas não são todos os reality shows que conseguem driblar a pandemia. As gravações da competição musical Canta Comigo, da Record, por exemplo, tiveram de ser interrompidas assim que as restrições de circulação se intensificaram em São Paulo, em março.

Rosa Taques, produtora executiva frelancer que trabalhou no programa e agora trabalha em um outro, de confinamento, conta que a rotina antes da fase vermelha incluía testagens da equipe, uso de EPIs e distanciamento. Mas, com o aumento das restrições, a equipe de mais de cem pessoas teve de interromper o trabalho.

"Independente de ser de confinamento ou não, é um desafio fazer reality durante a pandemia. Não são só os participantes que fazem o programa, tem a equipe de conteúdo, equipe de arte, de casting e por aí vai", afirma.

O crescimento dos realities tem muito a ver com outros dois fenômenos recentes —o streaming e as redes sociais.

Hoje em dia, não tem tanto motivo para um espectador ter de esperar o horário decidido pela emissora para assistir a um programa —esse consumidor, principalmente o mais jovem, já está acostumado a assistir o que quer na hora que quer.

Por isso, ganham espaço nessa nova lógica de consumo os programas ao vivo —cujo fascínio do espectador está ligado ao seu ineditismo. Assim como assistir a uma reprise de jogo de futebol, ver uma eliminação do BBB gravada não tem o mesmo sabor do ao vivo.

"Tudo que é ao vivo não teve essa queda de audiência como outros programas", diz Marcelo Aquilino, da SunsetDDB.

E com mais pessoas em casa e logadas nas redes sociais, a experiência de assistir a um reality não limita à grade da TV aberto e continua o dia inteiro nas redes sociais.

"A atenção sobre o BBB e A Fazenda em 2020 foram bem impressionantes. Muita gente que execrava reality de confinamento hoje está entregue às rotinas desses formatos", diz Nícolas Vargas, produtor freelancer, que trabalhou em formatos como A Fazenda e Dancing Brasil.

Esse olhar mais atento do espectador, cada mais mais crítico e barulhento nas redes sociais, acabou moldando o formato desse tipo de programa —mudança que parece ter sido intensificada com a crise sanitária. Agora, nem mesmo as dinâmicas de merchandising, mais enxutas, estão livres de serem palco de polêmica nesses programas. "Os cuidados com a pandemia ajudaram os realities a enxugarem excessos e isso acabou tornando o jogo mais visceral", diz Vargas.

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