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m de leitura Atualizado em 23/03/2022, 17:05

Real desvalorizado, interesses estrangeiros, juros e commodities explicam queda do dólar

PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de março de 2022

CLAYTON CASTELANI
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O dólar encostou na casa dos R$ 4,85 nesta quarta-feira (23), mantendo uma tendência de queda observada desde o início do ano. A desvalorização da taxa de câmbio resulta do alinhamento de condições conjunturais favoráveis à entrada da moeda americana no país.

Ações baratas na Bolsa de Valores e juros altos atraem investidores estrangeiros para aplicações em renda fixa e variável.

A valorização de matérias-primas produzidas no Brasil, principalmente o petróleo, também faz o país despontar entre as alternativas para investidores interessados no setor de commodities.

O Brasil pode suprir parte da demanda por algumas das commodities exportadas pela Rússia, que enfrenta sanções por ter invadido a Ucrânia.

Entenda em três pontos como surgiu esse cenário favorável à queda do dólar:

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1 - REAL E BOLSA PERDEM VALOR DURANTE A PANDEMIA

Em março de 2020, o início da pandemia de Covid-19 marcou a disparada do dólar a partir de um patamar de R$ 4,50, para onde não retornou mais até o momento.

Em momentos de incerteza, investidores buscam abrigo nos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, considerados mais seguros. Países de economia emergente, como o Brasil, são vistos como arriscados e, por isso, os primeiros a sofrer com a saída de dólares rumo a economias mais sólidas.

O dólar se manteve acima dos R$ 5 até junho do ano passado, quando pela primeira vez na pandemia caiu à casa dos R$ 4,90. O recuo foi resultado da elevação da taxa básica de juros (Selic) pelo Banco Central, com o objetivo de tentar frear a inflação.

Quando o BC eleva a Selic, eleva a taxa de juros paga pelo Brasil em Títulos do Tesouro, o que atrai mais estrangeiros para o país, valorizando o real.

Esse período de dólar mais barato, no entanto, durou pouco. A turbulência política no país, com as manifestações de caráter golpista promovidas por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL) em 7 de setembro, fez o mercado reagir. O dólar saltou de R$ 5,17 para R$ 5,32 entre véspera e o pós-feriado do Dia da Independência do Brasil. A Bolsa de Valores aprofundou um movimento de queda.

Nos meses seguintes, o governo se empenhou em obter recursos para ampliar o valor mensal do Auxílio Brasil. O programa de distribuição de renda substituiu o Bolsa Família, criado durante a gestão do ex-presidente Lula, principal rival de Bolsonaro na disputa pelo Planalto em 2022.

Para cobrir a nova despesa, o governo burlou a regra do teto de gastos. A medida foi avaliada pelo mercado como uma ameaça à responsabilidade fiscal do país.

2 - INVESTIDORES GLOBAIS BUSCAM ATIVOS BARATOS

Ao final de 2021, a inflação global assumiu o primeiro lugar no ranking de preocupações de investidores. O Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos) estava a ponto de aumentar os juros de referência do país, que estavam zerados desde o começo da pandemia.

O encarecimento do crédito é a principal ação da autoridade monetária para conter a maior inflação registrada no país em 40 anos.

Antecipando-se à alta dos juros, investidores internacionais passaram a vender ações muito valorizadas durante a pandemia devido às políticas de estímulos adotadas durante a crise sanitária pelo Fed e outros bancos centrais de países desenvolvidos. Eles passaram a enxergar um cenário de desvalorização do mercado acionário devido à redução de liquidez provocada pelo aperto monetário.

Os juros americanos começaram a subir em março deste ano. A elevação de 0,25 ponto percentual, colocando a taxa de referência em um intervalo entre 0,25% e 0,50% ao ano, ainda representa pouco perto da inflação anual, que passa dos 7%.

Enquanto os juros não sobem o suficiente para tornar a renda fixa americana mais atraente, investidores globais passaram a procurar por ativos desvalorizados e com potencial de crescimento. Esse é o caso da Bolsa e da moeda brasileira, excessivamente depreciados nos últimos meses devido aos riscos internos e também pelos temores gerados pela pandemia.

Especialistas do mercado financeiro definem se as ações de uma empresa negociadas na Bolsa estão caras ou baratas por meio da relação entre o preço desses ativos e o lucro projetado pela companhia.

É com base nesse fundamento que analistas afirmam que há espaço para o crescimento da Bolsa e, consequentemente, para a queda do dólar à casa dos R$ 4,50, patamar anterior à pandemia.

3 - JUROS E COMMODITIES ATRAEM INVESTIDORES

A Bolsa de Valores brasileira tem dois segmentos com grande potencial para atrair investidores estrangeiros: commodities e finanças.

Petróleo e o minério de ferro formam o carro-chefe entre as matérias-primas exportadas pelo país, sendo a petrolífera Petrobras e a mineradora Vale as companhias com maior peso no Ibovespa, o índice de referência da Bolsa.

Essas commodities estão se valorizando há meses devido à expectativa de retomada das atividades econômicas conforme o avanço da vacinação reduz as chances de interrupções severas das cadeias de abastecimento.

Especialmente no caso do petróleo, a decisão dos países membros da Opep (cartel dos principais produtores de petróleo e derivados) de não acelerar o aumento da produção já vinha provocando altas nos preços desde o segundo semestre do ano passado. Mas foi a guerra na Ucrânia que fez o preço da commodity disparar ao maior nível desde 2008.

Depois de um período de forte oscilação, houve crescimento das ações das exportadoras brasileiras. A valorização das commodities passou a ser um fator importante para a queda do dólar. Essas mercadorias são negociadas em dólar e, naturalmente, representam uma porta de entrada para a moeda estrangeira.

A alta do petróleo, porém, também está tornando a renda fixa ainda mais atraente.

Ao comunicar a elevação da taxa básica de juros (Selic) para 11,75% ao ano, na semana passada, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) também sinalizou a possibilidade de elevações ainda mais agressivas dos juros em um cenário de alta do barril do petróleo Brent. O preço atualmente ronda os US$ 120 (R$ 590).

Analistas apontam que, diante dessa colocação do Copom, a taxa Selic deverá fechar 2022 acima dos 13%.

O Brasil possui hoje um dos diferenciais de juros mais vantajosos do mundo. É assim que investidores classificam a relação entre a taxa de crédito e a expectativa de inflação, estimada por analistas consultados pelo Banco Central em 6,59% para este ano.

É uma condição que favorece o carry trade, que é como o mercado chama a prática de tomar crédito barato em países com juros baixos e aplicar em mercados com maior possibilidade de retorno.

Juros altos, por sua vez, têm potencial para valorizar ações dos grandes bancos brasileiros. Mais um fator que favorece a entrada de dólares na Bolsa brasileira.