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m de leitura Atualizado em 03/03/2022, 08:35

Rádio símbolo da democracia na Rússia fecha após censura sobre guerra na Ucrânia

PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de março de 2022

IGOR GIELOW
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Criada no ocaso da União Soviética, em 1990, a rádio Ekho Moskvi (Eco de Moscou) ultrapassou os anos como um símbolo da resistência democrática e da adaptação da sociedade civil russa à jornada que desaguou na guerra da Ucrânia. Não mais.

Seu conselho a dissolveu nesta quinta (3), dois dias depois de a agência reguladora de comunicações Roskomnadzor determinar que ela deveria sair do ar até que adequasse sua cobertura do conflito, retirando palavras como guerra e invasão da descrição do óbvio.

Segundo a censura, a Eco estava "deliberadamente espalhando informação falsa sobre a ação de militares russos" e fazendo "um chamado informativo para atividade extremista e violência". O conselho entendeu que não seria possível mudar a linha editorial.

Antes, ela só havia saído do ar em agosto de 1991, durante o malfadado golpe que a linha-dura comunista tentou dar em Mikhail Gorbatchov, falhando e apenas acelerando o processo de decomposição da União Soviética, finada em 25 de dezembro daquele ano.

A Eco não é o único meio sob ataque. Além de última TV independente do país, a Dojd (chuva), que está suspensa pelos mesmos motivos, toda a mídia, inclusive jornais e emissoras alinhadas ao Kremlin ou estatais, tem de seguir as diretrizes. "Operação militar especial" é o termo aprovado para a guerra, cujo objetivo é "proteger o Donbass", lar dos russos étnicos do leste ucraniano.

"Estamos apavorados", afirma Ivan, um jornalista que já colaborou com publicações como a Novaia Gazeta (novo jornal), outro ícone liberal que está sob fogo pela sua cobertura. Ele pediu para ter seu prenome trocado, como outros jornalistas que preferiram o anonimato até decidir o próximo passo.

"Parece-me que apenas protestos diários, como Alexei Navalni pediu, podem ser a saída. Mas temos de nos organizar, porque senão apenas viraremos novos Navalni, apodrecendo na cadeia", disse o repórter, em relação ao líder opositor que foi preso no ano passado que inspirou megaprotestos ao longo dos anos.

Apesar de adesão de figuras públicas ao movimento antiguerra, os protestos de rua contra a ação são esparsos. Segundo o monitor de violência policial OVD-Info, até esta manhã 7.631 pessoas já haviam sido detidas por participar de atos sem autorização prévia --e a grande manifestação "oficial", pedida pelo partido liberal Iabloko em Moscou, dificilmente será aprovada.

O clima entre jornalistas é tenso. Entre aqueles que trabalham em emissoras estatais, o silêncio é a regra nas Redações. Há especial preocupação com uma lei que está sendo cozida na Duma, a Câmara baixa do Parlamento, segundo a qual quem for pego "colaborando com outros países contra a Rússia" pode pegar de 15 a 20 anos de prisão.

Tal colaboração, avaliam, pode ser identificada no limite em uma inocente conversa acerca de suas condições de trabalho com colegas estrangeiros. As conversas têm migrado do Telegram, onipresente na Rússia, para aplicativos teoricamente menos expostos, como o Signal. Mas ninguém se sente seguro.

No caso da Eco de Moscou, o desfecho impressiona justamente pela capacidade da emissora de ultrapassar as dificuldades. Ela, assim como a Novaia Gazeta encabeçada pelo Nobel da Paz Dmitri Muratov, fazia parte de uma certa oposição intelectual consentida pelo governo de Vladimir Putin.

Não que o presidente gostasse dela, mas o Kremlin a tolerava como prova de sua maleabilidade ante a elite russa, que antes de tudo gosta de se ver como europeia e liberal nos costumes. O balanço era complexo: a proximidade com o poder fez do veterano editor-chefe da Eco, Alexei Venediktov, ser visto como um traidor pelas franjas mais radicais da oposição, como os apoiadores de Navalni.

Símbolo disso é que a rádio já era controlada há anos pelo braço de mídia da Gazprom, a gigante estatal de gás natural russa. Ainda assim, como diz Ivan, era vista como uma ilha de normalidade na mídia pró-Kremlin do país.

Assim, ela escapou de ser classificada como uma agente estrangeira, algo que sob uma lei de 2012 pode inviabilizar o funcionamento de meios de comunicação por um regime especial de fiscalização tributária visto como meramente uma censura prévia. No cerne da legislação, há a desconfiança de Putin de que o financiamento externo escamoteia a promoção de "revoluções coloridas" como as vistas contra o Kremlin em países ex-soviéticos.

Todo esse clima está envenenando o debate na classe média que ascendeu nos anos de Putin no poder. A cientista política russa Maria Sevtchenka, 43, que mora em Paris há cinco anos e trabalha para uma consultoria, conta que não consegue mais conversar com seus pais e irmãos ao telefone.

"Eles compraram a visão de Putin. Meu Deus, nós somos, como o sobrenome indica, de origem ucraniana. Temos parentes que moram em Kiev e Lviv, não sabemos se estão vivos ou mortos. Como vou me sentar à mesa com eles no fim do ano?", contou por mensagem, numa versão extremada dos dilemas que acompanham o debate político brasileiro há anos.

Após o início da guerra, apenas uma pesquisa de opinião foi publicada na Rússia. Sem falar do conflito, apontou que Putin viu sua aprovação crescer de 60% para 71% do começo do mês para cá.

Ela foi feita pela estatal FOM, e o resultado ao fim bate com a popularidade aferida já em janeiro do presidente pelo Levada, o mais respeitado centro independente de sondagens do país. Com efeito, ele ainda não publicou nenhum levantamento --classificado como agente estrangeiro, terá de medir cada pergunta que vier a fazer sobre o tema.

O fim da Eco de Moscou encerra toda uma era iniciada com o fim da Guerra Fria. O que está à frente, hoje, é insondável para os russos.