Quem é Giorgio Morandi, que passou a vida toda pintando potes e garrafas


CAROLINA MORAES
CAROLINA MORAES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pouco muda nas obras de Giorgio Morandi. De um quadro para o outro, seus conjuntos de garrafas ou itens domésticos, nunca orgânicos, são repetidos com diferenças pequenas, às vezes milimétricas no espaço, com uma paleta reduzida.

Nessa gama restrita de naturezas-mortas, há um legado extenso que o Centro Cultural Banco do Brasil, o CCBB, em São Paulo, resgata em mostra que abre nesta quarta-feira, com aquarelas, pinturas, desenhos e gravuras do artista.

"O Legado de Morandi" acontece em paralelo à 34ª edição da Bienal de São Paulo, que também traz obras do italiano. É um retorno do artista ao Brasil mais de 60 anos depois de ganhar o grande prêmio de pintura do evento, em 1957.

"Nós queríamos mostrar como Morandi foi, e ainda é, importante para a discussão artística", diz Alberto Salvadori, que divide a organização da mostra com o também italiano Gianfranco Maraniello. "E temos alguns artistas, dos anos 1960 até hoje, que tiveram uma relação conceitual forte e íntima com ele."

Essa é a primeira, e mais direta, herança do pintor discutida na exposição --das 57 obras, 23 são de artistas contemporâneos que apresentam proximidades com o trabalho do italiano, morto aos 73 anos em 1964.

Interrompem o silêncio aterrador de suas pinturas, por exemplo, colagens da britânica Rachel Whiteread, uma composição geométrica do alemão Josef Albers ou a representação de guloseimas do americano Wayne Thiebaud. E estão lá as aproximações pictóricas, inclusive de forma, como num grande milk-shake de Thiebaud que trava um diálogo com o também vertical e estático vaso floral de Morandi.

Todas as obras desses artistas apresentados na mostra derivam de projetos que eles realizaram no Museo Morandi, em Bolonha, na Itália, cidade natal do pintor. Foram de lá que todas as peças do italiano e dos outros artistas vieram, conta Salvadori.

Numa segunda herança que Morandi carrega, ver seus quadros também é um passeio por outros artistas, de diferentes períodos, que o influenciaram --e isso vai de uma tradição italiana, com Giotto e Piero della Francesca, exemplifica Salvadori, até os centrais Cézanne e Picasso.

"Mas o que era importante para nós é que, quando você entra numa exposição sobre o Morandi, você sente que a relação com o tempo não é mais o tópico a que você precisa estar conectado", diz um dos curadores.

"Ele não é um artista do século passado, não é um impressionista, não é um cubista ou expressionista. Morandi é Morandi, um dos artistas mais clássicos que você pode ver. E isso significa também que, para nós, você está na frente de um dos artistas mais contemporâneos que se pode ver. O que é clássico está no próprio tempo."

O embaralhamento cronológico e as aproximações com outros artistas, de certa forma, estão refletidos também na sala em que Morandi é apresentado nesta edição da Bienal de São Paulo, que gira em torno do catálogo da exposição de Constantin Brancusi de 1926, em Nova York.

A ideia, ali, é que uma rede de discussões, com contatos e ruídos, costurem obras produzidas em períodos e contextos distintos. A repetição dos trabalhos do italiano está, por exemplo, nas cerâmicas da romena Anna-Bella Papp sempre com o mesmo formato, ou na recorrência de iconografias no trabalho do cipriota Christoforos Savva.

Mesmo que Morandi seja esse artista da repetição por excelência, o percurso da mostra ilumina alterações de suas obras, ainda que sutis, que se relacionam com o que o artista vivia na época.

Quando ele deixa Bolonha em 1943 em função da Segunda Guerra Mundial, uma série de paisagens produzidas na cidade de Grizzana vai alterando como ele se relaciona e representa a natureza --mas, mesmo nessas paisagens, a figura humana permanece absolutamente ausente.

Na última década de sua vida, sua pintura também vai caminhando para uma atmosfera cada vez mais rarefeita.

Amarram essas fases, no entanto, uma atitude modesta de quem fez do ateliê seu universo e da produção artística a única prioridade. "Morandi dizia o tempo todo 'eu não quero nada além de trabalhar, não quero viajar, só quero trabalhar'", lembra Alberto Salvadori, sobre esse artista que foi celebrado em São Paulo, mas que nunca esteve aqui.

O ateliê de Morandi, aliás, está numa grande reprodução de fotografias feitas pelo também italiano Luigi Ghirri no térreo do centro cultural. "Conforme você começa a ter uma relação com ele e com suas pinturas, acredito que você pode descobrir muito sobre si mesmo. De uma forma simples, e com uma paleta de cores simples, você pode encontrar o que você precisa", afirma o curador.

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O LEGADO DE MORANDI

Quando: Qua. a sex., das 9h às 18h. Até 22/11

Onde: Centro Cultural Banco do Brasil - r. Álvares Penteado, 112, Centro, São Paulo

Preço: Gratuito, com agendamento

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