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m de leitura Atualizado em 11/03/2022, 08:30

Quase 40% das famílias conseguem autonomia após sair de abrigos em São Paulo

PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de março de 2022

MARIANA ZYLBERKAN
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nos últimos dois anos, quase 40% das famílias sem-teto que deixaram as vagas de abrigos na capital paulista conquistaram a autonomia ao retomar a rotina de trabalho e se estabelecer em moradias fixas ou transitórias.

Segundo o Observatório da Vigilância Socioassistencial, entre 2020 e 2021, das 2.400 famílias que deixaram a rede de acolhimento da administração municipal, 945 foram classificadas como saídas qualificadas. Isso ocorre quando a mudança se dá para uma moradia autônoma ou transitória, para retornar à convivência familiar ou após conseguir um emprego.

Os números se referem aos 12 CAEs Família (Centros de Acolhida Especial) e a duas unidades do projeto Autonomia em Foco, que têm perfil de atendimento diferente e oferecem quartos individuais às famílias e casais abrigados, em vez de camas em beliches, como ocorre nos abrigos transitórios.

De acordo com o censo divulgado em janeiro pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), aumentou o número de pessoas que disseram viver nas calçadas com ao menos um parente.

Dos 31.884 moradores de rua, 8.927 pessoas (28%) afirmaram viver com ao menos um familiar. Em 2019, ano do último levantamento, havia 4.868 (20%).

O censo apontou também aumento de 230% do número de barracas de camping e de barracos de madeira instalados em vias públicas como moradias improvisadas. Segundo especialistas, moradias improvisadas são normalmente ocupadas por famílias ou pessoas que foram para as ruas recentemente e, por isso, buscam formas de manter a privacidade e aumentar a sensação de segurança.

"Desde o início da pandemia, a gente já observava não só um aumento da população de rua, mas também essa mudança de perfil. Já era possível identificar que grupos mais vulneráveis, como mulheres, famílias e idosos, tiveram que ir morar nas ruas", diz Juliana Reimberg, pesquisadora do CEM (Centro de Estudos da Metrópole), da USP.

A falta de políticas públicas que ultrapassem a oferta de abrigo e alimentação é criticada por especialistas por resumir o atendimento a moradores de rua a ações temporárias que resolvem o problema a curto prazo. "As formas de acolhimento têm seus limites e seus problemas", diz Aluizio Marino, pesquisador do Lab Cidade (Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade) ligado à FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo).

Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirmou que a taxa de autonomia se manteve praticamente inalterada ou registrou apenas oscilação por causa de fenômenos como pandemia e crise econômica.

A administração também afirmou que irá entregar mais de 30 serviços até o fim de 2024 aos moradores de rua por meio do programa Reencontro, como vagas de acolhimento, locação social e moradia transitória.

O garçom Anderson Domingos Dias, 49, conta que conseguiu sair de uma praça próxima à avenida Paulista, onde morou por cerca de três meses no ano passado, após receber ajuda de voluntários para voltar a exercer a profissão.

Ele lembra que foi viver nas ruas após uma separação traumática que levou ao fim do casamento de 15 anos. "Virei as costas, coloquei uma muda de roupas na mochila e saí", diz. Da Praia Grande, no litoral sul, onde morava, Dias seguiu para São Paulo.

Nos primeiros dias, ele dormiu em um abrigo no Jabaquara, na zona sul, mas logo desistiu. "Você dorme e não sabe se vai acordar", diz ele, referindo-se à sensação de falta de segurança.

Ele se instalou, então, na praça dos Cachorros, como ficou conhecida a praça Alexandre Gusmão, em frente ao parque Trianon-Masp. Foi lá que conheceu Rafael Setti, 28, voluntário da ONG Entrega por SP. "Pedi a eles uma bicicleta e um celular para trabalhar como entregador de comida", lembra.

Além da bicicleta e do telefone, Dias ganhou uma muda de roupa e um teste como garçom em um restaurante em Santo André, no ABC. "Liguei para um amigo e descobri que o restaurante estava com vaga aberta", afirma Setti.

Alguns dias depois, o garçom estava empregado. "Tem pessoas que querem sair das ruas a todo custo e só espera uma ajuda", diz o garçom, que hoje vive em uma casa alugada em Santos, no litoral.