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m de leitura Atualizado em 08/03/2022, 18:18

Putin já perdeu a guerra no TikTok, mas na Ucrânia a história é outra

PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de março de 2022

IGOR GIELOW
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na guerra que o Ocidente vê no TikTok e no Twitter, as forças de Vladimir Putin já perderam para os defensores da Ucrânia. Há uma avalanche de vídeos com provas das altas perdas infligidas aos invasores russos, para não falar em exemplos manicurados de bravura dos soldados de Kiev.

A realidade, contudo, tem diversos matizes. A guerra que Putin já perdeu é a da comunicação, já que sua agressão tem poucos apoiadores fora de círculos ultraconservadores europeus ou em nichos da esquerda brasileira que vivem na década de 1970 e acreditam na luta contra o imperialismo ianque.

O Kremlin optou para tentar vencer por força não só Kiev, mas também a opinião pública interna. Baixou uma censura dura de tempos de guerra, prometendo até 15 anos de prisão para quem espalhar o que considera fake news sobre o conflito —a tal operação militar especial, no jargão permitido.

Até há canais, principalmente no Telegram, com alguma informação sobre as ações russas. Mas há, de fato, poucos dados, o que faz sentido se a força invasora quer esconder tanto sua tática quanto suas baixas. Vídeos meticulosamente editados surgem aqui e ali nas redes do Ministério da Defesa.

Como são, por óbvio, propagandísticos, acabam descartados. O resultado, amplificado pela cobertura dos principais meios ocidentais, com forte viés anti-Kremlin, e pelo talento comunicativo do presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, é a ideia de que os russos estão perdendo as batalhas no solo.

Não é bem assim. A essa altura, é evidente que a resistência dos ucranianos é brava e, alimentada por um fluxo por ora não interrompido de mísseis antitanque e antiaéreos ocidentais, consegue segurar a periferia de grandes cidades, particularmente Kiev.

A capital é o ponto focal da campanha, e o avanço russo nunca a ameaçou diretamente. O plano parece ser o cerco pelo noroeste e pelo nordeste, com uma ameaça de bombardeamento duro, ao estilo ocorrido na segunda maior cidade ucraniana, Kharkiv.

Só que isso tem um custo humano enorme, e talvez Putin esteja deixando a pressão se tornar máxima à espera de uma rendição de Zelenski. Ou não, e estará disposto a dar de ombros quando a carnificina vier —uma operação demorada, que implica o emprego de cerca de metade da força russa no vizinho.

Dois avanços em teatros secundários da guerra costumam ser menos explorados. No Donbass, o leste ucraniano no cerne da disputa desde 2014, as forças separatistas com apoio russo ganharam bastante terreno desde o ataque inicial de 24 de fevereiro.

E no sul, a batalha para tomar a cidade portuária de Mariupol parece estar pendendo para o lado russo. Claro, uma coisa é conquistar, outra é manter, como os protestos diários na tomada de Kherson mostram.

Mas, do ponto de vista militar, se levarem Mariupol, o corredor por terra entre a região russa de Rostov e a Crimeia estará estabelecido, provavelmente estendido com um eventual cerco a Odessa, o maior porto ucraniano, mais a oeste.

Especialistas dizem que a resistência ao sul é mais fraca devido à concentração de tropas ucranianas em Kiev. É uma hipótese que ajuda a enfraquecer a narrativa da resistência implacável: ela existe, mas cada ucraniano morto ou avião do país derrubado não é substituído.

Obviamente, nada disso diminui a avaliação crítica a ser feita do desempenho russo, que na primeira semana da guerra experimentou muitas baixas, e a análise de questões táticas. Mas suas reservas de pessoal e equipamento são maiores.

Isso é visível na ação da aviação tática de Moscou, que era bem discreta até o fim de semana, quando de repente as redes foram inundadas de vídeos de modelos avançados como o bombardeiro tático Su-34 sendo derrubados por mísseis portáteis ou baterias antigas soviéticas ucranianas.

O vídeo de um helicóptero de ataque da família Mi-24 russo sendo abatido também ajudou a consolidar a ideia de que a guerra aérea está perdida para Putin. Antes do conflito, contudo, o Kremlin contava com dez vezes mais caças e aviões de ataque do que Kiev.

A insistência de Zelenski em que a Otan arrisque uma Terceira Guerra Mundial tentando criar uma zona de exclusão aérea sobre seu país e os pedidos para que a Polônia lhe ceda caças MiG-29 urgentemente insinuam que a realidade pesa contra Kiev.

A Turquia também está sendo instada a fornecer mais drones de ataque Bayraktar-TB2, que têm causado destruição de colunas blindadas russas, mas têm os olhos da mistura de aliada e rival Moscou sobre si.

Ninguém sabe qual era o plano de Putin, mas analistas ocidentais e russos assumem que ele previa uma rendição rápida de Kiev. Assim, as táticas precisam ser readequadas no decorrer da campanha, o que, somado aos problemas reportados com suprimentos, causam a lentidão do avanço dos invasores.

A questão é que ele segue avançando, apesar das imagens que se repetem aqui e ali de tratores de fazendeiros ucranianos puxando tanques russos sem gasolina —brilhante jogada de propaganda, aliás.

Nada disso, é claro, tem a ver com o futuro do conflito, no caso de Putin vencê-lo militarmente. Até porque uma eventual derrota ou retirada poderá significar o fim de seu governo. Essa é uma linha bastante diferente de avaliação, que passa pela dificuldade atual em mensurar o grau do apoio russo ao presidente.

Pesquisas dos institutos estatais VTsiOM e FOM indicam que a ação foi correta para 60% dos ouvidos. "Muitos russos não devem estar interessados em saber se a lei [da censura] se aplica a respostas a um pesquisador", notou no Twitter Sam Greene, diretor do Instituto da Rússia do King's College londrino.

Não há ainda pesquisas do independente Centro Levada, considerado um "agente estrangeiro" pelo Kremlin. A observação anedótica, com os relatos de pessoas deixando o país e os mais de 10 mil manifestantes antiguerra detidos pela polícia, mostra um quadro mais complexo.

Mas há também inúmeras histórias de clivagem geracional em curso, com jovens criticando o apoio dado aos pais, consumidores das TVs estatais russas, onde a "operação militar especial para proteger o Donbass, desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia" ocorre a todo vapor.