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m de leitura Atualizado em 10/03/2022, 13:58

PT critica governos de Alckmin em documento para campanha de Haddad

PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de março de 2022

CATIA SEABRA E VICTORIA AZEVEDO
AUTOR autor do artigo

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RIO DE JANEIRO, RJ, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Documento da Fundação Perseu Abramo, vinculada ao PT, traz duras críticas aos governos tucanos em São Paulo, citando o ex-governador Geraldo Alckmin, potencial vice da chapa do petista Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência.

Redigido em fevereiro com objetivo de subsidiar o plano de governo do PT para São Paulo, o texto fala em exclusão de pobres, privatização, redução de investimentos e arrocho salarial ao se referir a um modelo que foi conduzido por Alckmin durante 12 anos e três meses.

O diagnóstico afirma que a adoção sistemática das políticas neoliberais, particularmente em São Paulo, ampliou as desigualdades, a concentração de renda, riqueza e propriedade, além de sucatear os serviços públicos.

O PSDB comanda São Paulo desde 1995 (mas, na prática, como parte do PMDB, desde 1982).

Segundo o documento do PT, quando não omisso, o PSDB "tem sido tíbio no enfrentamento da fome e da miséria e jamais colocou como opção o enfrentamento das desigualdades sociais".

O texto diz ainda que, apesar de o PSDB ter sido criado como um partido social-democrata, "não honrou essa opção político-ideológica". "Desfigurando-se e assumindo uma postura conservadora em direção ao neoliberalismo, tanto no plano nacional como aqui em São Paulo", continua.

Em entrevista a jornalistas em janeiro, Lula defendeu a aliança com Alckmin e afirmou que o PSDB do governador e pré-candidato à Presidência João Doria não é o mesmo que abrigou figuras importantes da sigla, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o senador José Serra e o ex-governador Mario Covas.

"Espero que o Alckmin esteja junto, sendo vice ou não sendo vice, porque me parece que ele se definiu em fazer uma oposição não apenas ao Bolsonaro, mas ao 'dorismo' aqui em São Paulo", afirmou Lula naquele momento.

Lula também tem afirmado publicamente que seu vice-presidente em um eventual governo não será decorativo e deverá desempenhar papéis significativos.

Segundo interlocutores, o petista já afirmou que, com o ex-tucano de vice, poderia dormir tranquilo: Alckmin, que foi quatro vezes governador, teria experiência e estatura política. E não transformaria a vice em um centro de conspiração e sabotagem para desestabilizar o governo.

Pré-candidato do PT ao Governo de São Paulo, o ex-prefeito Fernando Haddad participou de debates que antecederam a elaboração do documento da fundação, mas não de sua redação.

Sua mulher, Ana Estela Haddad foi uma das coordenadoras do grupo encarregado da elaboração do texto, assim como a ex-ministra Eleonora Menicucci e o ex-reitor da UFSCar e ex-deputado federal pelo PT-SP Newton Lima.

"Os desafios que se antepõem para governar São Paulo, em uma perspectiva progressista e transformadora, são enormes, pois os governos tucanos, com as marcas neoliberais, consolidaram as políticas públicas com viés conservador, reforçando a exclusão dos pobres, da população negra e das mulheres", diz o texto.

Recém-saído do PSDB e prestes a se filiar ao PSB para ocupar a vice de Lula graças a uma articulação encampada por Haddad, Alckmin governou São Paulo por dois períodos: de março de 2001 a março de 2006, e de janeiro de 2011 a abril de 2018.

Na análise da Fundação Perseu Abramo, a mesma que subsidia a elaboração do plano de governo de Lula, Alckmin é nominalmente citado quando os temas são renúncia fiscal e privatização.

"A renúncia fiscal adotada pelo governo estadual precisa ser avaliada nesse contexto: entre 2008 e 2014, a renúncia de receita atingiu R$ 497 bilhões; no último governo Alckmin (2015-2018), ela foi de R$ 159,4 bilhões; e no governo Doria, foi estimada em R$ 188 bilhões", afirma o documento.

Após listar privatizações ocorridas durante o governo Mário Covas, de quem o ex-tucano foi vice, o documento afirma que, no período de 2001 a 2004, houve uma diminuição no processo de privatizações, "sendo digna de nota as alienações de participação societária do estado na Sabesp [Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo] em 2002 e 2004, durante o governo Alckmin".

Sem citar o nome do ex-governador, o texto afirma que, "de 1999 a 2004, as despesas com pessoal cairam significativamente, em decorrencia da politica de 'arrocho salarial' prevista nas metas do programa de ajuste fiscal".

O documento ressalta ainda que, durante o bienio de 2005 e 2006, as despesas com pessoal cresceram, "sob pressao dos servidores e as vesperas das eleições presidenciais". O texto não explicita o fato de Alckmin ter sido candidato à Presidência em 2006.

Ainda sobre funcionalismo, o texto afirma que, no período de 2011/2020, "o aumento real das despesas com salarios do pessoal da ativa foi de apenas 0,6%".

"A política de cortes dos gastos públicos também pode ser observada nas demais despesas de custeio, que apresentaram uma redução real de 19,4% de 2011 a 2020, fato explicável pela redução do papel do Estado e pela transferência de responsabilidades para os municípios", acrescenta.

Fruto dos debates de cinco grupos de trabalho, o documento de 89 páginas é de autoria do recém-criado Núcleo Estadual de Acompanhamento de Políticas Públicas do Estado de São Paulo, sendo uma iniciativa do presidente da Fundação Perseu Abramo, o ex-ministro Aloizio Mercadante.

O texto ainda será apresentado a dirigentes petistas e parlamentares do PT para ser debatido.

Segundo membros do partido ouvidos pela reportagem, não é possível desprezar o documento da fundação, mas ele não será o único a dar base ao eventual plano de governo de Haddad --a própria bancada da legenda na Assembleia Legislativa está elaborando um diagnóstico do estado que será apresentado a Haddad.

Na elaboração do programa, ressaltam, também serão ouvidos membros dos partidos que formarão aliança com o PT no estado.

Coordenador-geral do NEPP-SP, o ex-prefeito de Piracicaba e ex-deputado José Machado afirma que o PT em São Paulo sempre foi crítico à gestão tucana e seria hipocrisia negar isso no âmbito dos trabalhos.

"Não estou autorizado a falar em nome do núcleo sobre a presença do ex-governador Alckmin na condição de vice da chapa do ex-presidente Lula. Essa é uma questão que transcende o meu papel. Emito minha opinião pessoal apenas: considero fundamental a presença de Alckmin como vice de Lula, pois é uma solução benéfica ao interesse do nosso país", diz.

Machado ressalva, porém, que isso não impede que em São Paulo, caso vença, o PT realize mudanças.

"O texto sinaliza sobre a necessidade de adoção por um hipotético governo do PT de políticas públicas em SP que vão, certamente, em múltiplos aspectos, no sentido contrário do que se tem feito no estado", diz.

O texto também não poupa o governo de Dilma Rousseff (PT). Ele afirma que para muitas pessoas, "esta década será lembrada apenas como a década da crise". "De positivo, de afirmativo, tivemos o quê? Talvez isso ajude a explicar a sobreposição das crises atuais", segue o documento.

Procurados, Alckmin e PSDB não responderam até a publicação desta reportagem.