Profissionais de saúde encontram o amor no combate à Covid-19


PATRÍCIA PASQUINI
PATRÍCIA PASQUINI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em "O Amor nos Tempos do Cólera", o escritor Gabriel García Márquez (1927-2014) retrata o romance entre Florentino e Fermina durante o século 19 num cenário devastador causado pela doença que matou milhares de pessoas e espalhou o medo e a tristeza.

Em pleno século 21, há um paralelismo com a Covid-19. Nas duas situações há a presença da espera, da dor e da morte. Nos tempos atuais, em meio ao luto e caos, a pandemia também deu tom a histórias de amor.

Em homenagem ao Dia dos Namorados (12), a Folha de S.Paulo conta histórias de profissionais de saúde que se conheceram e se apaixonaram durante o atendimento a casos de Covid-19.

Até três meses atrás, a enfermeira Bianca de Castro Rezende, 28, estava solteira e decidiu permanecer assim após um relacionamento que lhe trouxe dissabores.

O técnico de enfermagem Rene Botti de Oliveira, 32, tinha namorada. Os dois se conheceram nos plantões do Hospital Sancta Maggiore, na Mooca (zona leste).

Bianca assumiu um andar da instituição e encontrava com Rene esporadicamente nos plantões extra.

Inicialmente, as conversas se concentravam nas questões profissionais e na situação dos pacientes. Para facilitar a comunicação corporativa, trocaram telefones. Eventualmente, como colegas de trabalho, saíam para almoçar perto do hospital. Tornaram-se amigos.

"Desde o começo já tinha aquele lance de olhar. Às vezes, eu o pegava me observando no trabalho e ele disfarçava. Na época, uma amiga dizia que, se ele não namorasse, aconteceria alguma coisa entre nós", relata Rezende.

"Eu passava pela Bianca enquanto ela fazia a evolução dos pacientes e ela me olhava por cima dos óculos, mas não falava nada. Aquela olhada por cima do óculos me balançou. Eu me apaixonei de primeira", conta Oliveira.

O estopim para a continuidade do flerte foi uma foto que Bianca postou no status do WhatsApp. Ao comentar a imagem, Rene sugeriu que qualquer dia saíssem juntos. Durante duas semanas, ambos permaneceram em silêncio. Encontravam-se no trabalho, mas não acontecia nada além de um cumprimento.

"Eu não dava muita bola porque achava que ele ainda estava com a moça, mas fazia mais de um mês que o Rene havia separado. Soube da separação dele por amigas e começamos a trocar mensagens", conta Rezende.

Bianca não sabia, mas a estratégia de Rene para a conquista envolvia uma aproximação aos poucos, até porque havia a preocupação de ambos com o ambiente de trabalho.

"Às vezes, achava que ela era muita areia para o meu caminhãozinho. Um dia, quando vi aqueles olhinhos, não aguentei e a beijei", diz Oliveira.

O beijo roubado ocorreu no momento em que os dois saíram do trabalho, coincidentemente no mesmo instante.

"Ele me puxou e me deu um beijo. Rene saiu rindo e eu fiquei atordoada porque não estava esperando. Pensei em levar o beijo como algo casual. Eu não queria namorar porque havia saído de um relacionamento muito ruim e ele também havia dito que queria ficar solteiro e curtir."

Um dia após o beijo, Rene a acompanhou até perto de sua casa. A aproximação, com o tempo, foi inevitável. O casal no início optou por apenas ficar, mas a convivência aumentou e a relação superficial virou namoro sério, que já dura três meses.

"O que ela tem de mais bonito é o coração. É uma bondade extrema que a torna sensacional."

Além do amor que sentem um pelo outro, Bianca e Rene têm muitas afinidades e são melhores amigos.

O casal trocou alianças de compromisso e apresentou as famílias. Bianca e Rene decidiram morar juntos e no dia 5 buscarão a chave do novo apartamento, na Vila Antonieta (zona leste). O casamento, ainda sem data, será numa praia.

Para Adriane Branco, psicóloga especialista em Sexualidade Humana pela USP e pesquisadora do Centro de Estudos e Pesquisas em Comportamento e Sexualidade, principalmente na área da saúde, onde a convivência é longa em plantões de 12 e 24 horas, as pessoas começaram a olhar mais umas para as outras, encontrar pontos em comum e se darem a oportunidade de viver uma relação afetiva.

"Antes da pandemia não havia tanto essa preocupação de transformar um encontro num relacionamento. As pessoas estão se dando a oportunidade de se conhecerem melhor e de não permanecerem em relações superficiais", diz Branco.

"A pandemia fez com que as pessoas entendessem que vivemos em sociedade e como seres humanos precisamos uns dos outros. É no relacionamento afetivo que mais vivenciamos o afeto e a entrega, e nós nos doamos um ao outro. Isso auxiliou bastante no resgate do amor. A necessidade de ter alguém e de estar próximo foi percebida", afirma.

Em maio de 2020, as férias da enfermeira Mariana Amaral Cavalieri, 41, foram interrompidas no quinto dia. Funcionária do Complexo Hospitalar dos Estivadores, gerenciado pelo Instituto Social Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Mariana aceitou a proposta da OSS (Organização Social de Saúde) para assumir a coordenação assistencial do Hospital de Campanha Vitória, em Santos (72 km de SP), gerenciado pela mesma instituição. "Eu retornei e fui montar o hospital."

Por causa da pandemia, o médico Thiago Siervo Camargo Neves, 35, havia retornado ao Brasil após uma temporada de quatro anos nos Estados Unidos para cursar mestrado e doutorado.

De volta a São Paulo, conseguiu emprego numa empresa que havia sido contratada pelo instituto para fornecer os médicos exclusivamente para as áreas de atendimento Covid-19.

"Ele veio a princípio para os plantões no Estivadores. Ele estava lá desde abril, mas eu nunca o tinha visto. Nós nos encontramos quando começamos a montar o hospital de campanha, onde ele assumiu como coordenador médico. Nós dois, como coordenadores, tivemos que fazer muitas coisas juntos", conta Cavalieri.

Após uma semana em dúvida sobre o estado civil de Thiago e troca de olhares, veio a certeza de que ele estava solteiro. Como ele não tinha onde ficar em Santos, Mariana ofereceu seu apartamento para que se hospedasse.

"Ele não foi embora nunca mais. A gente não tem uma data oficial de quando começou o relacionamento. Contamos o dia em que ficamos juntos a primeira vez. Comemoramos um ano juntos no dia 23 de maio", relata.

"Continuo me apaixonando por ele todos os dias. O Thiago foi uma surpresa na minha vida. Foi algo que aconteceu muito do nada. Eu não estava esperando. Os primeiros meses foram decisivos para ficarmos juntos de verdade. O fato de um entender a profissão do outro, de conversar, trocar e rir muito das coisas faz eu me apaixonar por ele de forma diferente. Cada dia descobrimos uma novidade. Acho também que o diálogo é fundamental", diz Cavalieri.

"Quando o casal trabalha junto é necessário aprender a viver a relação. É preciso separar o que é trabalho da vida pessoal e saber conversar sobre os dois temas. A parte boa é você ter a oportunidade de ficar perto de quem ama", explica Branco.

"O profissional de saúde tem a responsabilidade de cuidar do outro. O significado do amor está correlacionado a isso. Quando você ama alguém, se propõe a cuidar deste alguém", completa a psicóloga.

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