Prévia da inflação é a maior para novembro desde 2002 e vai a 10,73% em 12 meses (2)


LEONARDO VIECELI
LEONARDO VIECELI

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Com a pressão da gasolina mais cara, a prévia da inflação oficial no Brasil avançou 1,17% em novembro. É a maior variação para o mês desde 2002, informou nesta quinta-feira (25) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O dado integra o IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15). Em outubro, o indicador havia registrado uma taxa ainda maior, de 1,20%.

A variação de novembro ficou um pouco acima das projeções do mercado financeiro. Analistas consultados pela agência Bloomberg esperavam avanço de 1,13% na mediana.

Com o resultado de novembro, a prévia da inflação alcançou 10,73% no acumulado de 12 meses. Trata-se da maior marca para esse intervalo desde fevereiro de 2016 (10,84%). Até outubro de 2021, o acumulado estava em 10,34%.

O índice oficial de inflação do país é o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), também calculado pelo IBGE.

O IPCA-15, pelo fato de ser divulgado antes, sinaliza uma tendência para os preços. Por isso, é conhecido como uma prévia.

Em 12 meses, o IPCA-15 é mais do que o dobro do teto da meta de inflação perseguida pelo BC (Banco Central) para o IPCA. O teto da meta em 2021 é de 5,25%. O centro é de 3,75%.

Na visão de economistas, os dados de novembro jogam mais pressão sobre o Copom (Comitê de Política Monetária do BC), que passou a elevar a taxa básica de juros, a Selic, para tentar conter a inflação.

A próxima reunião do colegiado está agendada para os dias 7 e 8 de dezembro. Trata-se do último encontro do Copom em 2021.

Atualmente, a Selic está em 7,75% ao ano. Para 2022, já há economistas que enxergam a taxa perto de 12%.

"A situação é grave. Vai exigir uma atuação mais forte do BC, porque a inflação não vai morrer sozinha. Temos riscos de novos repasses para os preços nos próximos meses", aponta o economista Reginaldo Nogueira, diretor-geral do Ibmec-SP e Brasília. "O resultado da prévia da inflação coloca mais pressão sobre o Copom."

Em novembro, todos os nove grupos de produtos e serviços pesquisados pelo IBGE tiveram alta de preços, segundo o IPCA-15. A maior variação (2,89%) e o principal impacto no índice (0,61 ponto percentual) vieram dos transportes.

Nesse grupo, houve a influência da gasolina, que teve alta de 6,62%. O combustível registrou o maior impacto individual no IPCA-15 (0,40 ponto percentual).

Neste ano, a gasolina acumula um aumento de 44,83%. Em 12 meses, a alta é ainda maior, de 48%.

Outro destaque em novembro foi o transporte por aplicativo, que subiu 16,23%, após avançar 11,60% em outubro.

Por outro lado, houve redução nos preços das passagens aéreas (-6,34%), após fortes altas em setembro (28,76%) e outubro (34,35%).

Depois dos transportes, os grupos que mais impactaram o IPCA-15 foram habitação (1,06%), saúde e cuidados pessoais (0,80%). Os pesos no índice de novembro foram de 0,17 ponto percentual e 0,10 ponto percentual, respectivamente.

Em habitação, a maior contribuição veio do gás de botijão (4,34%). Os preços do item subiram pelo 18° mês consecutivo, acumulando 51,05% de alta no período iniciado em junho de 2020.

A energia elétrica (0,93%), por sua vez, teve variação menor do que em outubro (3,91%). Contribuiu com 0,05 ponto percentual no índice deste mês.

Desde setembro, o país convive com a bandeira tarifária de escassez hídrica, que acrescenta R$ 14,20 na conta de luz a cada 100 kWh (quilowatt-hora) de consumo.

Já o grupo de saúde e cuidados pessoais foi influenciado pelos itens de higiene pessoal (1,65%) e produtos farmacêuticos (1,13%).

"O IPCA-15 confirma uma percepção muito negativa para a inflação no Brasil. A gente olha não só o forte impacto da gasolina, vê uma inflação em quase todos os itens", afirma a economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte.

"As apostas para o BC devem ser de aumento no ritmo de ajuste da Selic na reunião do começo de dezembro. A gente tem um cenário para 2022 muito ruim."

A escalada inflacionária tomou forma ao longo da pandemia. Após paralisar cadeias produtivas globais, a Covid-19 gerou gargalos no abastecimento de insumos em setores diversos.

O reflexo da escassez de matérias-primas foi a subida de preços no mercado internacional.

No Brasil, essa pressão de custos foi intensificada pela desvalorização do real ante o dólar. Em meio a tensões na área política e incertezas fiscais, a moeda brasileira ficou fragilizada na comparação com a americana.

A taxa de câmbio é um dos critérios usados pela Petrobras para definir os preços dos combustíveis em suas refinarias. Logo, ao subir, o dólar impacta itens como óleo diesel e gasolina no Brasil.

Não bastasse a alta dos combustíveis, que encarece o transporte de mercadorias e passageiros, o país também foi afetado neste ano pela crise hídrica.

A falta de chuva forçou o acionamento de usinas térmicas, com custos mais altos para geração de energia elétrica. O resultado é a conta de luz mais alta nos lares brasileiros.

A seca ainda prejudicou o plantio e a colheita de diferentes culturas no país, pressionando o preço final dos alimentos até nas gôndolas dos supermercados.

Analistas do mercado vêm elevando as projeções para o IPCA. A estimativa mais recente que aparece no boletim Focus, divulgada pelo BC na segunda-feira (22), indica avanço de 10,12% ao final de 2021.

A projeção chegou a dois dígitos após o mercado enxergar riscos fiscais maiores para o Brasil.

A ameaça para o rumo das contas públicas ficou mais nítida no final de outubro, depois de o governo federal colocar em xeque o teto de gastos para pagar emendas parlamentares e também elevar o valor e o número de beneficiários do Auxílio Brasil, o substituto do Bolsa Família.

A incerteza fiscal é considerada um fator que pode afastar investidores do país, reforçando a desvalorização do real frente ao dólar.

O economista Fabio Astrauskas, sócio-diretor da Siegen Consultoria, lembra que os aumentos dos preços neste ano também representam uma ameaça para a inflação de 2022.

Esse risco existe porque contratos diversos são reajustados pela inflação de períodos anteriores.

"Há uma inércia inflacionária. Ou seja, a inflação passada alimenta a futura", diz. "Isso torna mais difícil o combate ao aumento dos preços", completa.

Conforme os dados do IPCA-15, 7 das 11 capitais e regiões metropolitanas contempladas pela pesquisa tiveram inflação prévia de dois dígitos no acumulado até novembro.

Curitiba (PR) registra a maior alta: 13,69%. Brasília (DF) está na outra ponta da lista, com a menor inflação acumulada, de 9,77%. Em São Paulo (SP), a variação foi de 9,82%, a segunda mais baixa, embora siga próxima dos 10%.

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