Para Stuhlberger, é preciso considerar a real possibilidade de uma terceira via


LUCAS BOMBANA
LUCAS BOMBANA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O cenário de incerteza política e seus efeitos sobre a economia até as eleições de 2022 preocupam investidores, que estão revendo as projeções de crescimento para o Brasil. No entanto, um dos principais nomes do mercado financeiro brasileiro, Luis Stuhlberger, gestor da Verde Asset, recomenda atenção com a melhora de alguns indicadores.

Ele avalia que, embora haja, de fato, motivos de sobra para cautela, os preços dos ativos brasileiros parecem não refletir, de maneira adequada, a melhora no cenário da dívida, a situação real dos precatórios sob a ótica das contas públicas e a possibilidade de que uma terceira via mude o jogo eleitoral --e a perspectiva econômica.

Segundo Stuhlberger, parte do mercado chegou a prever que a relação entre dívida e PIB (Produto Interno Bruto) chegaria a 100% durante a fase mais aguda da pandemia. No entanto, ela deve terminar o ano ao redor de 80%. Na sua avaliação, apesar de a alta da inflação ajudar nesse resultado, é preciso ter em mente que ele é positivo.

"Nossa situação fiscal não é tão ruim quanto os mercados estão dizendo hoje", afirmou Stuhlberger, durante evento online promovido nesta terça-feira (14) pela casa de análise de investimentos Eleven Financial Research.

Segundo o gestor, os precatórios, que concentram as preocupações dos analistas, trazem um impacto fiscal da ordem de R$ 40 bilhões, pelos cálculos do mercado, contra um ganho mais perto de R$ 1 trilhão provocado pela evolução recente na trajetória da dívida. "Não me parecem grandezas equivalentes", diz o gestor.

O fato de a dívida pública estar bem abaixo das projeções "simplesmente está sendo esquecido pelos mercados", disse Stuhlberger. O gestor também destacou as taxas de remuneração dos títulos públicos indexados à inflação de longo prazo, que estão ao redor de 5% ao ano no Brasil, em um mundo no qual os principais países desenvolvidos oferecem rentabilidade real negativa.

Em um exercício de possibilidades que podem vir a se materializar, e que hoje parecem ainda não compor o radar de principais apostas do mercado, o gestor da Verde entende que, a depender do desenrolar político no país nos próximos meses, não se pode descartar completamente um cenário em que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), se vendo com poucas chances de se reeleger, opte por uma candidatura a outro cargo eletivo.

Stuhlberger enfatizou que, nesse cenário hipotético, a eleição muda completamente de figura, com a abertura de uma grande janela para o surgimento de um candidato que possa representar a terceira via.

"O presidente [Bolsonaro], em vez de tentar capturar esses 40%, 50% indecisos, prefere continuar causando todo dia para pregar para convertidos", disse o gestor, acrescentando que essa visão é anterior à nota costurada pelo ex-presidente Michel Temer em que Bolsonaro recuou nos ataques ao Judiciário.

Para Stuhlberger, o debate eleitoral, que deveria ganhar força apenas em meados de 2022, foi antecipado pelas recentes sinalizações de caráter populista partindo do governo e que turvou a análise dos especialistas.

Também presente no evento, Carlos Woelz, sócio fundador da gestora de recursos Kapitalo Investimentos, demostrou certo desconforto com a brecha que ele entende que o BC (Banco Central) deixou em aberto quanto ao seu compromisso em relação ao controle da inflação.

Declarações nesta terça-feira (14) do presidente do BC, Roberto Campos Neto, de que não irá reagir ou alterar o plano de voo a cada dado de alta frequência de inflação que for divulgado, foram recebidas com alguma surpresa e representam uma mudança significativa nos rumos da política monetária, apontou o gestor da Kapitalo.

"O mercado pode interpretar isso [as declarações de Roberto Campos Neto] como uma maneira de [o BC] fugir um pouco da responsabilidade de combater a inflação", afirmou Woelz.

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