<p>SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em um momento em que o mundo se aproxima da marca de 150 milhões de casos confirmados de Covid-19 e mais de 3,1 milhões de mortes em menos de um ano e meio de pandemia, pode-se dizer que a resposta global ao novo coronavírus teve falhas.

</p><p>Mesmo com o advento das vacinas contra a doença que já matou 400 mil brasileiros, a vacinação tem se mantido em um ritmo acelerado somente em um punhado de países, que conseguiram reduzir drasticamente o número de internações e mortes. A a pandemia segue em crescimento em todo o mundo, puxada, principalmente, por países como a Índia -que bateu os recordes mundiais de casos registrados-- e Brasil.

</p><p>Para Anthony Fauci, o diretor do Instituto de Alergias e Doenças Infecciosas (Niaid) dos Estados Unidos e principal autoridade de saúde hoje no país, o mundo se saiu mal como um todo, mas os EUA se saíram muito pior.

</p><p>O problema, segundo ele, foi a falta de uma ação coordenada, dada a própria característica federativa do país. "O inimigo em comum era o vírus, mas estávamos lutando entre nós mesmos, porque tinha um governador que dizia 'acredito em tudo o que vocês disserem, vamos seguir as orientações [do CDC]' e outro que passava uma mensagem à população de que não podiam ceder à imposição de medidas sanitárias", disse Fauci.

</p><p>As mensagens confusas e os erros iniciais, principalmente de não centralização da testagem em massa no país, dificultaram ainda mais a condução adequada da pandemia. "Lutamos contra uma pandemia no momento mais dividido da história dos Estados Unidos. Eu nunca vivenciei isso nos meus 37 anos à frente da saúde pública."

</p><p>O principal conselheiro em saúde da Casa Branca falou no evento virtual Cúpula do Prêmio Nobel, que ocorreu de segunda (26) a quarta (28), organizado pela Fundação do Prêmio Nobel, pela Academia Nacional de Ciências norte-americana, pelo Instituto Potsdam para a Pesquisa do Impacto Climático e pelo Centro de Resiliência de Estocolmo/Instituto Beijer.

</p><p>Além de Fauci, uma centena de autoridades em ciência e saúde globais, líderes mundiais, laureados do prêmio Nobel e artistas participaram do encontro, dividido em painéis de entrevistas nos dois primeiros dias e sessões de discussão científica, com propostas de soluções coletivas para a mudança climática e a perda da biodiversidade, a redução da desigualdade e a tecnologia usada para sustentabilidade nas sociedades no terceiro dia.

</p><p>A pandemia da Covid se espalhou pelo mundo e por todo o território dos países, uma vez que os vírus não veem fronteiras, mas algumas regiões enfrentaram dificuldades especiais na contenção do Sars-CoV-2, como é o caso dos EUA e do Brasil, onde o vírus entrou, primeiro, pelas capitais e rapidamente se espalhou no interior do país.

</p><p>"Para o vírus, não há diferença entre Mississippi e Indiana, entre Maine e Vermont. Nós agimos como se pudéssemos combater o coronavírus independentemente, mas isso não faz sentido porque ele se espalha por todos os lados", afirmou Fauci.

</p><p>Nesse sentido, enfrentar um presidente que negou a importância da pandemia, fez pouco das medidas preventivas e atacou diversas vezes a China por ter sido o epicentro do Sars-CoV-2, como o ex-presidente Donald Trump, foi um agravante.

</p><p>Fauci afirma que é preciso sempre manter a integridade, mesmo que isso signifique falar "verdades inconvenientes". "Como autoridades em saúde, é preciso se ater à ciência e falar o que é preciso ser dito. Não podemos aconselhar apenas aquilo que os governantes querem ouvir", disse.

</p><p>De forma parecida no Brasil, os embates entre os ex-ministros da saúde Henrique Mandetta e Nelson Teich e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) quanto à estratégia correta de condução da Covid-19 no Brasil foram as causas para a saída do primeiro e demissão do segundo.

</p><p>Desde o início da pandemia, Bolsonaro se posicionou contra as medidas sanitárias, como uso de máscaras e isolamento social, mentiu sobre a eficácia dessas medidas e das vacinas, se colocou a favor do relaxamento de medidas restritivas de circulação das pessoas e ainda endossou o uso de medicamentos comprovadamente ineficazes no combate ao vírus, como a hidroxicloroquina.

</p><p>Em relação às vacinas, Bolsonaro mentiu ao dizer que a vacina pode transformar as pessoas em jacaré, causar morte, sequelas ou ainda que as farmacêuticas não se responsabilizam pelos efeitos e, por isso, as pessoas seriam cobaias dos estudos.

</p><p>Fauci lembra, no entanto, que as vacinas contra a Covid-19 não surgiram do nada em 2020: elas foram resultado de décadas de pesquisa científica, e sua produção em tempo recorde só foi possível por um alto investimento em pesquisa e no seu desenvolvimento.

</p><p>"A história por trás das vacinas contra a Covid-19 é de décadas de pesquisa biomédica, de dezenas de milhares de pessoas trabalhando dia e noite na estrutura imunogênica da proteína S do Sars-CoV-2 e como usá-la, como estabilizar essa proteína e como fazer com que ela leve a uma resposta imune. Isso não aconteceu em janeiro, isso vem acontecendo nos últimos 10, 15 anos."

</p><p>Uma das duas vencedoras do prêmio Nobel em Química de 2020, Jennifer Doudna (a outra laureada foi a francesa Emmanuelle Charpentier), também falou no evento sobre a técnica de edição genética Crispr e sua aplicação na pandemia.

</p><p>A descoberta da técnica descrita pela primeira vez há oito anos ocorreu graças ao estudo do sistema imune de bactérias, o que Doudna considera um paralelo perfeito ao momento que estamos vivendo. "É interessante pensar que o Crispr é um sistema imune bacteriano cuja função é detectar vírus no organismo e guardar informações sobre eles. É quase como uma célula de memória. Então podemos usar a técnica para identificar o Sars-CoV-2 no organismo de maneira muito mais rápida e sem a necessidade de amplificação do material genético pelo método de RT-PCR", disse.

</p><p>Além disso, a pesquisadora explica que a técnica tem sido estudada também para uso em pesquisas do meio ambiente, como melhorar o sequestro de carbono por plantas de produção agrícola, diminuindo assim a quantidade de gás CO2 na atmosfera. "Estamos dando um passo além agora para usar o Crispr no combate à mudança climática", afirmou.</p>

mockup