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m de leitura Atualizado em 23/02/2022, 13:13

Objeto que extinguiu dinossauros chegou na primavera, revela estudo

PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

REINALDO JOSÉ LOPES
AUTOR autor do artigo

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SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - O objeto celeste que atingiu a Terra há 66 milhões de anos, pondo fim à Era dos Dinossauros, chegou ao nosso planeta na primavera do hemisfério Norte, revela um novo estudo. O momento do impacto provavelmente ampliou ainda mais seu efeito destrutivo sobre espécies e ecossistemas, afetando-os numa fase delicada de seu desenvolvimento.

A constatação, que vem de um cuidadoso trabalho de detetive coordenado por cientistas europeus, acaba de sair na revista científica Nature, uma das mais importantes do mundo. "Somos os primeiros a demonstrar de forma conclusiva que o impacto ocorreu na primavera, embora trabalhos publicados desde 1990 já tivessem tentado fazer essa estimativa", contou à Folha de S.Paulo a paleontóloga holandesa Melanie During, doutoranda na Universidade de Uppsala, na Suécia. During coordenou o novo estudo, assinado também por cientistas de outras instituições europeias.

O bólido que causou a extinção em massa formou a cratera de Chicxulub, na península de Yucatán (México). As rochas da região foram marcadas pelos tsunamis que o impacto provocou, mas o problema é que não há fósseis de animais mortos diretamente pela pancada nessas camadas -ou, pelo menos, tais fósseis não foram encontrados até agora. "Isso faz com que um estudo como o nosso não seja possível com esse material", explica During.

Portanto, o jeito foi analisar camadas de rocha correspondentes à época do impacto que ficam no estado americano da Dakota do Norte, a quase 3.000 km do Yucatán. A distância pode parecer despropositada, mas já se sabia que o sítio fossilífero de Tanis, descoberto na região, abrigava um tesouro: peixes cujas guelras continham esférulas de impacto, ou seja, minúsculas esferas produzidas quando o meteorito se chocou contra a Terra.

Portanto, os azarados peixes poderiam servir como cápsulas do tempo, já que carregavam marcas geológicas do momento da colisão (para ser exato, de 15 minutos a 30 minutos depois do desastre, calculam os cientistas). During conta que ficou sabendo de tudo isso em 2017, ao ouvir uma palestra do professor emérito Jan Smit, da Universidade Livre de Amsterdam, sobre o sítio da Dakota do Norte. "E sim, a palestra também aconteceu na primavera daquele ano", brinca.

Conversando com Smit e seu orientador da época, Jeroen van der Lubbe, ela conseguiu viajar para os EUA no mesmo ano e deu início ao estudo dos peixes, aparentados aos esturjões de hoje (os mesmos cujas ovas são o famoso caviar). Os bichos foram rapidamente soterrados quando um fenômeno chamado "seiche" (basicamente um tsunami num corpo d'água confinado, com ondas oscilantes) atingiu a região logo após o impacto.

"Coletei os ossos da mandíbula dos peixes-espátulas e as espinhas das nadadeiras peitorais dos esturjões. Escolhi esses ossos porque descobri que eles crescem de forma muito semelhante à das árvores, acrescentando uma nova camada a cada ano. Portanto, estávamos curiosos para saber se seria possível reconstruir a estação do ano na qual eles morreram", conta ela.

Na mosca: a análise da estrutura microscópica das linhas de crescimento dos ossos mostrou que os peixes morreram justamente no momento em que uma nova linha de crescimento estava começando a se formar. Isso coincide com a primavera do hemisfério Norte, momento no qual a disponibilidade de alimento volta a aumentar depois da fase de vacas magras do inverno.

Outro indício importante é a composição química dos ossos. Os peixes provavelmente se alimentavam de pequenos crustáceos, e isso se reflete numa mudança periódica na presença de um isótopo (variante) do elemento químico carbono em seus ossos, a qual está relacionada com a dieta. E essa variação acompanha os ciclos de crescimento, conforme o esperado.

"Eles conseguiram casar muito bem diversas técnicas diferentes, de forma relativamente simples", diz o paleontólogo brasileiro Rafael Delcourt, pesquisador de pós-doutorado na USP de Ribeirão Preto que comentou o estudo a pedido da Folha.

Outra boa sacada, segundo ele, foi estudar fósseis de peixes que ainda têm parentes vivos na região e cuja biologia é bem conhecida. "Isso dá uma certa previsibilidade para entender como eles cresciam, usavam recursos e depositavam minerais no seu esqueleto."

During e seus colegas argumentam que o impacto primaveril teria sido especialmente duro para as espécies do hemisfério Norte porque a estação teria coincidido com a época da reprodução, na qual todos os recursos são dedicados à geração dos filhotes e ao cuidado com eles. Assim, muitas espécies terrestres, além de lidar com os efeitos imediatos da catástrofe, ainda perderiam a geração seguinte, mesmo se conseguissem sobreviver.

Já no hemisfério Sul, onde era outono, alguns animais poderiam já ter se preparado para hibernar, ficando mais protegidos em tocas (caso dos mamíferos primitivos da época). De fato, há alguns indícios de que o hemisfério Sul se recuperou primeiro da tragédia. "A maioria das pesquisas sobre o tema foram feitas no hemisfério Norte. Acho que o trabalho é um estímulo para entendermos melhor o fenômeno no hemisfério Sul, e dá muitas ideias que podem ser aplicadas, inclusive em fósseis brasileiros", afirma Delcourt.