'O Auto da Boa Mentira' tem humor titubeante que evita cancelamento
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quarta-feira, 28 de abril de 2021
CÁSSIO STARLING CARLOS 
<p>FOLHAPRESS - "Eu tenho uma simpatia muito grande pelos mentirosos. Não gosto do mentiroso que mente para prejudicar os outros. Gosto do mentiroso que mente por amor à arte." As declarações de Ariano Suassuna que aparecem no início de "O Auto da Boa Mentira" funcionam para isentar as histórias farsescas do filme de vínculos com as "fake news" e outras corrupções que nos infectam.
</p><p>"Boa mentira", em suassunês, é sinônimo de ficção ladina, não se opõe à verdade nem pretende substituir a evidência dos fatos. As observações e casos do dramaturgo e escritor alinhavam os quatro episódios do filme em torno de situações de engano, disfarce, farsa e simulação.
</p><p>A ostentação do patrocínio de Suassuna é um recurso com que se tenta reproduzir o sucesso da adaptação para a TV e o cinema de "O Auto da Compadecida".
</p><p>Mas os tempos são outros, a presença do público nas salas de cinema é mais que duvidoso e o lançamento do filme, em meio ao caos de fome, desemprego e mais de 3 mil mortes por dia, deve servir apenas de mídia para sua exibição na TV.
</p><p>Neste outro meio, o formato em episódios funcionará melhor. Porque na unidade de um filme, nem a boa costura das falas de Suassuna consegue dar fôlego a todas as histórias.
</p><p>Na primeira, intitulada "Fama", Leandro Hassum interpreta um tipo que se confunde com ele mesmo. A história de um cara sem graça que todo mundo acha que é um popular comediante introduz o jogo de enganos, de trocas ou de erros comuns aos episódios.
</p><p>Hassum é isca de popularidade. Portanto, seu episódio é o primeiro. Mas a atuação burocrática dele é aniquilada pela entrada serpenteante de Nanda Costa em cena. O que sobra é a ironia em torno da imagem de Hassun, a indagação se, no fundo, ele não seria um falso humorista, um comediante sem graça.
</p><p>O segundo episódio, "Vidente", tem mais sotaque suassuniano graças ao universo do circo, lugar de fascinação e de ilusionismo, e ao contraste de ingenuidade com caricatura que Renato Góes dá ao protagonista.
</p><p>A ideia de que mentira tem perna curta aparece em "Furão". O terceiro episódio visita a favela e o tráfico, mundos que o cinema brasileiro costuma associar a dramas sociais e a filmes politizados. Mas o deslocamento para o registro do humor é titubeante, evita o escracho para não correr nenhum risco de cancelamento e, por isso, funciona pela metade.
</p><p>"Disney", episódio mais distante do universo original de Suassuna, conclui "O Auto da Boa Mentira" mostrando que o desequilíbrio entre as partes reflete os diversos talentos envolvidos no projeto.
</p><p>Se Guel Arraes, na produção, e João Falcão, no roteiro, deixam suas marcas em diferentes episódios, a direção de José Eduardo Belmonte atualiza Suassuna, arrancando o autor dos limites do folclórico.
</p><p>A visão ácida do vácuo contemporâneo, explícita nos primeiros longas de Belmonte, ressurge na história de uma estagiária que vira "falsiane" para ganhar visibilidade em uma festa de Natal da firma.
</p><p>"Disney" não fica apenas na ilustração do elogio de Suassuna à mentira. Aqui, a farsa contradiz o falso, o fingimento da personagem desmascara a fajutice dos "fakes" e o epílogo transforma "O Auto da Boa Mentira" em filme verdadeiro.
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</p><p>O AUTO DA BOA MENTIRA
</p><p>Avaliação Regular
</p><p>Quando estreia em 29 de abril
</p><p>Onde nos cinemas
</p><p>Classificação 12 anos
</p><p>Elenco Leandro Hassum, Nanda Costa, Renato Góes, Jesuita Barbosa e Cacá Ottoni
</p><p>Produção Brasil, 2021
</p><p>Direção José Eduardo Belmont</p>


