Não adianta esperar misericórdia do vírus, diz diretor-geral do Sírio-Libanês


CLÁUDIA COLLUCCI
CLÁUDIA COLLUCCI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mesmo com queda na internação por Covid-19 nos últimos dias, o Hospital Sírio-Libanês (SP) segue com a ocupação máxima dos leitos de UTI e com uma fila de mais de 130 pacientes em terapias intensivas de outros hospitais aguardando a transferência.

Para o cirurgião Paulo Chapchap, 66, diretor-geral do Sírio, independentemente da vacina, o uso de máscara continua sendo o componente mais importante de qualquer medida preventiva e as autoridades brasileiras deveriam torná-la obrigatória, com policiais e guardas nas ruas chamando a atenção de pessoas que ainda não a utilizam.

“Não adianta esperar misericórdia do vírus. Não tem. Nós é que temos que ter misericórdia um dos outros e nos comportar adequadamente para não causar dezenas de milhares de mortes agora em abril”, afirma ele, que também lidera o grupo Todos pela Saúde.

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Pergunta - Hospitais como Sírio e o Einstein registram queda de internação por Covid. Isso já se reflete na ocupação das UTIs?

Paulo Chapchap - Não. Ainda estamos com uma ocupação alta das UTIs, embora tenhamos aumentado muito o número de leitos disponíveis. Temos indicadores antecedentes de que a ocupação dos leitos não críticos vão continuar diminuindo. O número de pacientes com síndromes gripais que testam positivo no pronto-atendimento está caindo continuadamente. A gente chegou a atender 120 pacientes com síndrome gripal e mais de 85% testavam positivos para a Covid. Agora esse número está em 50%.

E o sr. atribui isso a quê? Às medidas de restrição ou ao impacto da vacinação nos grupos prioritários?

PC - Acho que é um misto das duas coisas. Qualquer evento de risco para a infecção [grandes aglomerações, por exemplo] começa a se manifestar de duas a três semanas depois nas internações. Para que os números caiam, precisamos de medidas de distanciamento e comportamento adequado mais restritivas.

Quando vocês [imprensa] colocam que a situação é crítica e ascendente, as pessoas ficam com medo de não encontrar vaga no hospital. Teve uma segunda-feira aqui que a gente não tinha nenhuma vaga para leito Covid e 21 pacientes estavam esperando no pronto-atendimento pela internação. Quando a gente noticia isso, só um insano não se comportaria de forma mais adequada. O reflexo a gente vê de duas a três semanas depois.

Vocês trabalham com modelos preditivos. O que podemos esperar para as próximas semanas?

PC - Se continuar esse comportamento de diminuição no pronto-atendimento, acho que teremos uma folga. Entretanto, a nossa preocupação é que as pessoas, quando ficam sabendo que diminuiu a pressão, voltam a ter um comportamento inadequado. E eu não sei qual foi o comportamento nessas semanas de feriados prolongados.

A transmissão em eventos de grande contágio já está fartamente documentada, mas têm outras situações, como a reunião de duas a três famílias que não moram juntas e que se reúnem para um jantar dentro de casa, num ambiente pouco ventilado.

Não é um evento que você contamina 70 ao mesmo tempo, também é um evento de disseminação. Se nesses feriados prolongados as pessoas se reuniram com outras que não moram na mesma casa, devemos ter uma outra inflexão ruim da curva para cima em duas a três semanas. Vamos saber disso a partir do dia 20.

Como vocês estão se preparando para essa hipótese?

PC - Nós não estamos desmobilizando as equipes em unidades Covid e continuamos contendo algumas das outras unidades do hospital. Fiquei muito mal impressionado com aquela festa em Santa Catarina, como se não houvesse amanhã. Imagino que isso possa ter acontecido em outros locais.

Uma coisa que está bem documentada é que ter uma infecção anterior não te protege de outra. Já começam a aparecer evidências de que pode até ser pior. O que vai fazer a diferença é distanciamento com uma vacinação ampla, como a gente vê em outros países.

A questão é que está cada vez mais difícil manter as pessoas em isolamento

PC - Precisamos mudar um pouco o nosso discurso. A gente coloca que todo o isolamento é igual, e não é. Ao ar livre, é diferente, a chance de contaminação é muito pequena, a não ser que ocorra grande aglomeração. Se você fica com sua pequena família, você tem liberdade de viajar, de ir à praia. A gente precisa tratar a população com mais maturidade, sem tentar apavorar, fazer um projeto educativo.

Máscara é o componente mais importante de qualquer medida. As autoridades brasileiras precisam tornar o uso de máscaras mandatório. Não adianta esperar misericórdia do vírus. Não tem. Nós é que temos que ter misericórdia um dos outros e nos comportar adequadamente para não causar dezenas de milhares de mortes agora em abril.

Às vezes, as pessoas falam: ‘ah!, mas eu já me comportei um ano!’ Como se tivessem feito uma poupança que permitisse uma proteção adicional. Mas basta um ato de mau comportamento para ele se contaminar.

Qual a ocupação hoje das UTIs no Sírio?

PC - Estamos com ocupação próxima a 100%, em torno de 95% na UTI Covid, mas com lista de espera em outros hospitais. Em Brasília são mais de 70 casos que pediram transferência e que a gente não está conseguindo trazer. Em São Paulo, em torno de 60. São pacientes que estão em terapias intensivas em outros hospitais e pediram transferência para cá.

Há um movimento em curso pedindo lockdown nas próximas semanas. Ainda é necessário?

PC - Lockdown é uma medida extrema. Quando a prevalência está altíssima, como estava há duas, três semanas, aí você tem que ser mais rigoroso. Em algumas localidades do Brasil, onde os hospitais estão com lotação máxima e há risco de falta de insumos, de as pessoas morrer em casa com falta de ar, como aconteceu em Manaus, aí tem fazer lockdown.

Em São Paulo, com o comportamento atual, não tem sentido porque caiu a ocupação, inclusive em algumas UTIs públicas. É só usar as outras medidas restritivas inteligentes, como as blitze em festas clandestinas. A nossa polícia, a nossa guarda civil metropolitana tinha que estar nas ruas dizendo: ‘põe a máscara’. Isso é fundamental. É muito mais inteligente do que, numa situação como a atual, fazer lockdown.

A questão é que como exigir isso da população em um país em que o próprio presidente insiste em não usar máscara

PC - Bom, se a gente for falar sobre isso eu vou ali tomar um remedinho e depois a gente fala de novo... O problema é que tem uma parte significativa da população, inclusive muito instruída, que copia o presidente para mostrar apoio. A gente subestima a influência que ele tem na população. E ele tem muita.

Por quê?

PC - Porque isso acontece até com médicos. Quando o paciente vai a diferentes médicos que dão diferentes opiniões, ele adota aquela que é mais confortável. Quando você tem um presidente que uma parcela da população considera um mito, 30% vão copiar o que ele faz.

Mas existe o resto da população que não acha ele um mito mas já está cansado do enfrentamento da pandemia e que também não viveu o luto da perda de um ente querido. Aí escolhe a conduta que é mais confortável. E a mais confortável é não fazer isolamento social e não usar máscara.

Isso se aplica também à questão do tratamento precoce que o presidente insiste em defender a despeito das evidências?

PC - Quem indica esses remédios provoca uma falsa sensação de segurança nas pessoas. Elas podem pensar que estão seguras que não vão pegar. Aí não usam máscara, fazem aglomeração.

Na minha opinião, preconizar o tratamento precoce nessa altura da pandemia é criminoso. Essas pessoas tinham que visitar pelo menos um hospital, uma UTI e conversar com as famílias dos pacientes internados. É o mínimo que eu esperaria das nossas lideranças. Pergunta para as famílias o que os pacientes em estava tomando [antes de piorar]. Muitos pacientes que estão internados hoje em UTIs, com pouca chance de sobreviver, estavam usando o tal kit de tratamento precoce.

É a mesma recomendação que o sr. daria à diretoria do CFM?

PC - Sem dúvida nenhuma. O CFM ainda é pior, a liderança do CFM tem informação médica, científica a ponto de saber ler um trabalho científico. Não existe justificativa para a ignorância.

O plenário do STF deve analisar nesta quarta (7) a questão do veto a cultos religiosos. O que sr. pensa sobre isso?

PC - Cultos, missas são exatamente os eventos de grande contágio. Ninguém está querendo impedir que as pessoas exerçam a sua religiosidade, mas sim que o façam em ambientes adequados. Com uso de máscara, distanciamento físico, ao ar livre, em grandes praças e parques, eu não vejo problema. Dentro das igrejas, sim, temos um grande problema.

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PAULO CHAPCHAP, 66

Médico formado pela Faculdade de Medicina da USP, doutor em clínica cirúrgica. Foi pesquisador e professor visitante em transplante de fígado da Universidade de Pittsburgh e é coordenador do grupo de transplante de fígado do Hospital Sírio-Libanês. Atualmente é diretor-geral da instituição

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