Municípios acusam Lira e relator de romperem acordo por reforma do IR (1)
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sexta-feira, 03 de setembro de 2021
FÁBIO PUPO 
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A CNM (Confederação Nacional dos Municípios) afirmou nesta sexta-feira (3) que a Câmara dos Deputados rompeu um acordo feito durante a discussão da reforma do Imposto de Renda. A entidade calcula uma perda anual de R$ 9,3 bilhões com o texto e declara profunda insatisfação e perplexidade com a proposta mas o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), rebate as declarações.
De acordo com a CNM, duas alterações que não estavam no acordo previamente firmado com a entidade ampliaram a perda dos municípios. São elas a redução da alíquota sobre dividendos de 20% para 15% e a permissão do desconto simplificado de 20% para pessoas de qualquer renda (na versão anterior, havia um teto de renda de R$ 40 mil por ano para obter o benefício).
Contrariando o acordo previamente firmado com o movimento municipalista, no sentido de evitar perdas para os entes federativos, o relator do PL, deputado Celso Sabino (PSDB-PA), e o presidente da Câmara cederam às pressões dos lobbies e permitiram que se aprovasse, com apoio dos partidos da base do governo e da oposição, um texto que produzirá perdas, afirma a CNM em nota assinada pelo presidente Paulo Ziulkoski.
A entidade afirma que o acordo previa limitar a perda do FPM (Fundo de Participação dos Municípios, que recebe recursos da União) a no máximo R$ 1 bilhão. Infelizmente, para nossa surpresa, esse acordo foi rasgado unilateralmente, afirma a CNM.
Diante do não-cumprimento do acordo político por parte de lideranças da Câmara, a CNM vai atuar para reverter no Senado Federal as perdas ocasionadas para os municípios e proteger a população brasileira dos potenciais prejuízos decorrentes do texto inicialmente aprovado, diz a nota.
Procurado, Lira rebateu as declarações e afirmou que as últimas mudanças no relatório não promovem o impacto declarado. De acordo com ele, o texto mantém um impacto neutro após o corte mais brando nas alíquotas cobradas das empresas.
O impacto que teria sobrado para estados e municípios seria basicamente o correspondente à correção da tabela da pessoa física algo que já vinha sendo aceito por grande parte dos estados. "Historicamente, esse ajuste de atualização [na tabela] ocorre e a União absorve sua perda, assim como estados e municípios as suas", afirmou Lira à reportagem.
"Compensar a atualização da tabela do Imposto de Renda [com outras medidas] significa perpetuar os ganhos inflacionários do Estado brasileiro em desfavor dos contribuintes", disse o presidente da Câmara.
Sabino respondeu com declarações na mesma linha e reforçou que União, estados e municípios terão impacto neutro com a reforma caso seja desconsiderada a atualização da tabela do Imposto de Renda para a Pessoa Física.
Os estados ainda não se pronunciaram oficialmente sobre a proposta aprovada, mas calculam que terão uma perda aproximada de quase R$ 10 bilhões com o texto. Essa perda representaria basicamente o reajuste da tabela do Imposto de Renda da pessoa jurídica, o que ao menos parte dos secretários estaduais vê como aceitável.
Em videoconferência nesta sexta-feira, o ministro Paulo Guedes (Economia) afirmou que a proposta beneficia pessoas físicas e empresas e argumentou que o governo não perderá arrecadação com a medida.
"Suponha que a gente errou o cálculo e vai ter uma perda de R$ 20 bilhões. Sabe quanto aumentou a arrecadação, um aumento imprevisto? R$ 200 bilhões. A arrecadação está crescendo 25% acima da inflação. Eu aumentei R$ 200 bilhões de arrecadação, qual o problema de eu devolver R$ 20 bilhões se a reforma não for neutra?", disse.
Anteriormente, o ministro já havia agradecido à Câmara pela aprovação e afirmado que ainda é possível fazer "aperfeiçoamentos" no texto. O Ministério da Economia estava preparando na noite de sexta uma resposta aos municípios para explicar os números.
O secretário especial de Tesouro e Orçamento do Ministério da Economia, Bruno Funchal, afirmou nesta sexta que o projeto vai gerar uma perda aproximada de R$ 20 bilhões para o governo federal mas que isso é viável porque há controle de despesas por parte do governo.
É resultado de um controle do tamanho do Estado, disse Funchal durante participação em evento virtual promovido pela empresa TradersClub. É uma forma de passar esse benefício do controle, reduzindo a carga que é muito elevada, afirmou.
Apesar disso, ele reconheceu que o país ainda está em processo de melhoria nas contas públicas e que as perdas com o projeto devem ter um limite. Tem que balancear, tem um limite nessa perda. Como a gente ainda está no processo de consolidação fiscal, não tem tanto espaço assim para trazer uma redução de carga, disse.
O projeto ainda precisa ser discutido no Senado e, segundo Funchal, vai caminhar na Casa. "Acho que tem consenso em relação a isso", disse. Já a reforma administrativa "talvez fique um pouco mais no terceiro plano".
Funchal afirmou que os principais problemas a serem enfrentados hoje são as adequações orçamentárias para o pagamento dos precatórios e para a expansão do Bolsa Família (que mudará de nome para Auxílio Brasil).
Segundo ele, incertezas do mercado em relação a esses pontos levaram a um crescimento nas taxas de juros negociadas por investidores desde julho. Temos o desafio de lidar com as expectativas e endereçar os principais problemas os precatórios e o Auxílio Brasil. Isso é o que está mais no pipeline [realizações esperadas], diz.
Hoje, a regra do teto de gastos (que impede crescimento real das despesas) dificulta o pagamento da conta de R$ 89 bilhões em 2022 com precatórios, que são as dívidas do Estado reconhecidas pela Justiça, somado com a expansão de despesas em outras frentes em ano eleitoral.
A discussão é feita depois que governo e Congresso deixaram de cortar despesas em outras frentes e o Executivo se disse surpreendido pela fatura vinda da Justiça para 2022, mesmo sob críticas de analistas que lembram que o governo tem mecanismos para mapear a chegada desses custos, como o próprio mapeamento de riscos fiscais do processo orçamentário.
O governo enviou uma PEC (proposta de emenda à Constituição) no mês passado para parcelar os precatórios em até dez anos a partir de 2022. Paralelamente, uma alternativa negociada com o Judiciário nas últimas semanas cria um limite anual de pagamento de sentenças judiciais e também uma fila para os pagamentos que se estenderá ao longo dos anos.


