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m de leitura Atualizado em 08/03/2022, 20:31

Mulheres enfrentam autocobrança e insegurança em processos seletivos

PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de março de 2022

ISABELA LOBATO E VITORIA PEREIRA
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP, E BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - Por autocobrança, insegurança e falta de representatividade feminina nas empresas, profissionais afirmam se sentir desmotivadas a participar de processos seletivos e até recusam vagas. Isso pode acontecer mesmo quando elas preenchem a maior parte das exigências, segundo uma pesquisa do LinkedIn.

Depois de observar esse cenário, a administradora de empresas Jhenyffer Coutinho, 29, decidiu fundar a Se Candidate, Mulher em 2020. Desde então, a startup ajuda mulheres a se prepararem para processos de seleção —em 2021, também passou a dar consultoria a companhias que querem tornar suas vagas mais atraentes ao público feminino.

No trabalho da Se Candidate, Mulher, Jhenyffer pôde confirmar dados que uma pesquisa do LinkedIn de 2018 já apontavam: um dos maiores entraves na busca por emprego é a autocobrança de perfeição por parte das mulheres.

O levantamento analisou o comportamento dos mais de 610 milhões de usuários em mais de 200 países para entender as diferenças do uso da plataforma entre homens e mulheres. Uma das conclusões é que as mulheres só concorrem a oportunidades de trabalho quando preenchem 100% dos requisitos. Para homens, o índice é de 60%.

Depois de realizar mais de 2.000 mentorias gratuitamente, a empresa hoje tem uma metodologia própria para ajudar mulheres que enfrentam inseguranças na busca por recolocação no mercado de trabalho.

"Se uma vaga tem dez requisitos e a mulher não tiver ao menos nove, ela já acha que não vai conseguir", explica.

Segundo o levantamento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no último trimestre de 2021, o país tinha 13,9% de mulheres desempregadas, enquanto os homens são 9%.

Débora Araújo, 36, redatora publicitária, conta que passou por essa situação. Ela já chegou a recusar uma vaga por não sentir que preenchia todos os requisitos.

"Você acha que está contando uma mentira. Mesmo que dê para aprender [o requisito que está faltando] e não seja algo impossível, a sensação é de que você estivesse mentindo no seu currículo", diz Débora.

Muitas vezes, as exigências das vagas não correspondem com o que será cobrado do profissional na prática, e compõem um perfil quase inalcançável. Uma das dificuldades na hora da candidatura é justamente diferenciar o que é dispensável, já que nem tudo é realmente essencial.

Para ajudar as candidatas a entenderem suas dificuldades e aprenderem a valorizar características que já têm, a Se Candidate, Mulher oferece aulas sobre oratória e autoconhecimento, e também ensina como preparar um currículo e uma página no LinkedIn.

Para Luisa Medeiros, técnica em mecatrônica e estudante de engenharia mecânica na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), o currículo não justifica totalmente as escolhas das empresas.

"Às vezes eu vou ter todos os requisitos e não vai ser o suficiente. Às vezes eu não vou ter, e vou ser a melhor opção. Então, se eu me limitar pelas condições da vaga, não vou conseguir trabalhar."

Aos 21, Luisa já tinha seis anos de experiência na área quando se candidatou para uma vaga de projetista. Durante o processo seletivo, ouviu de um supervisor que ela era a única candidata mulher.

Ele perguntou se Luisa tinha certeza de que queria trabalhar na área, porque era "um trabalho muito pesado" —que ela já fazia havia seis anos.

Denise Bonifácio, mestre em recursos humanos pela Universidade de Liverpool e pesquisadora de igualdade de gênero na USP, afirma que o sistema trabalhista é marcado por vieses inconscientes e estereótipos de gênero.

Segundo a pesquisadora, desde cedo, as meninas são educadas para buscarem a perfeição e executarem trabalhos impecáveis, ao passo que aos meninos é incentivado que sejam corajosos e ousados. Esse estereótipo se reflete não só no comportamento dos candidatos, mas também na forma com que as empresas procuram e empregam pessoas.

Uma pesquisa conduzida pela Universidade Yale em 2012 com 127 participantes mostrou que o mesmo currículo, quando apresentado como de um homem, é considerado mais competente, mais contratável e recebe um salário mais alto quando em comparação com o mesmo currículo de uma mulher.

A estudante de sistemas de informação Iarin Araujo, 22, trabalha como designer de experiência do usuário e conta que, por ser uma área majoritariamente masculina, muitas vezes as profissionais de tecnologia se sentem inseguras.

Ela ainda fica tensa para se candidatar a uma vaga quando não tem o tempo de experiência necessário, por exemplo, porque já vivenciou situações de hostilidade por parte de recrutadores.

"Qualquer deslize ou qualquer coisa que a gente não souber, que tenha deixado alguma insegurança, já dá motivo para os nossos colegas de trabalho homens criticarem e falarem: ‘Está vendo? É porque é mulher.’ E isso acontece muito", conta.

Aline Teles, 31, analista de engenharia de software, também sente esse medo de passar algum constrangimento ou não ser levada a sério. Ela já se sentiu desmotivada ao se candidatar a processos seletivos da área de tecnologia, predominantemente masculina. Em algumas situações, fazer entrevistas apenas com homens ou integrar uma equipe composta em sua maioria por homens a deixou insegura.

O relatório anual de desigualdade de gênero do Fórum Econômico Mundial, de 2021, aponta que, no ritmo atual, o mundo levará 136 anos para alcançar a igualdade de gênero na sociedade, levando em conta o acesso à saúde, educação e a participação econômica e política das mulheres em comparação com os homens.

Em 2021, empresas começaram a buscar a Se Candidate, Mulher à procura de orientação sobre como tornar suas vagas mais atrativas para mulheres.

Além de atender mulheres, a consultoria passou a oferecer produtos para companhias como orientações que abordam comunicação institucional, linguagem e formatos utilizados na divulgação das vagas e elaboração dos requisitos exigidos.

A participação de mulheres no processo seletivo e nas campanhas de divulgação, por exemplo, pode ser decisiva na atração de candidatas qualificadas. "A melhor forma de fazer uma mulher desejar trabalhar na empresa é ela ver como [a empresa] é, por meio da visão de outra mulher", explica Jhenyffer.

Denise, da USP, acredita que a tendência de processos seletivos voltados para mulheres e da busca pela diversidade e igualdade nas empresas é um caminho sem volta.

Segundo a pesquisadora, grandes empresas são cada vez mais pressionadas a buscar ambientes de trabalho igualitários. Além disso, pesquisas mostram que a igualdade de gênero em cargos de liderança traz vantagens competitivas.

"É uma questão de sobrevivência", afirma Denise.