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m de leitura Atualizado em 11/03/2022, 13:13

Morre Orlando Brito, um dos maiores fotógrafos a retratar a ditadura militar no Brasil

PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de março de 2022

TUCA VIEIRA
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O fotógrafo Orlando Brito morreu aos 72 anos nesta sexta-feira. Ele estava internado no Hospital Regional de Taguatinga, na região metropolitana de Brasília. Um dos mais importantes ​fotojornalistas brasileiros, conhecido por sua longa trajetória cobrindo política na capital federal, ele não resistiu a complicações de uma infecção depois de uma cirurgia no intestino.

Nascido em Janaúba, no interior de Minas Gerais, Brito chegou a Brasília ainda criança, no "empoeirado Natal de 1956", quando se iniciava a construção da nova capital. Autodidata, iniciou sua carreira em 1964 como laboratorista da sucursal brasiliense do jornal carioca Última Hora e, em 1966, já cobria os primeiros anos do regime militar. Ao longo de sua prolífica carreira, atuou como fotógrafo ou editor de fotografia em publicações como O Globo, Jornal do Brasil, Veja e Caras. Nos últimos anos, ele se dedicou à sua própria agência de notícias, a ObritoNews.

Embora tenha realizado reportagens em diversas partes do país, foi em Brasília que sua verdadeira vocação se revelou. Ali, fotografando os círculos do poder, entre presidentes, políticos, militares e empresários, construiu uma obra única, capaz de contar a história do Brasil, desde o golpe de 1964 até hoje, por meio da política e de seus protagonistas. De Castello Branco a Bolsonaro, não há um só político brasileiro importante que tenha escapado ao seu olhar.

Brito circulou com desenvoltura tanto entre os generais do regime militar —que ele chamava de "revolução"— quanto entre os presidentes que vieram depois. Como todo profissional que cobre diretamente a política, teve de equilibrar o dever do ofício, os interesses dos veículos para os quais trabalhava e os limites impostos pelo governo de turno —uma equação especialmente delicada durante a ditadura, quando a liberdade de expressão era fortemente cerceada.

Suas principais imagens da política brasileira foram reunidas no livro "Poder, Glória e Solidão", lançado há 20 anos. Organizado de forma cronológica, com mais de 300 fotografias, a obra contém imagens históricas, inclusive algumas que não puderam ser publicadas à época.

Há generais de óculos escuros desfilando nas rampas desenhadas por Oscar Niemeyer, um melancólico presidente Figueiredo em seu cavalo, a silhueta inconfundível de Ulysses Guimarães, o palanque das Diretas Já, Sarney, Collor, FHC e Lula.

É um trabalho que documenta de forma ininterrupta a longa e dolorosa reconquista da democracia brasileira que, segundo dizia o próprio fotógrafo, está hoje novamente ameaçada.

Brito fez escola na fotografia política de Brasília, em que há uma tensão constante entre o que os políticos querem que seja mostrado e o que realmente está acontecendo. Nesse ambiente engessado, o fotógrafo age como uma cobra pronta para dar o bote. Está sempre em busca do inesperado, das brechas, dos vacilos, de momentos fugidios que frequentemente significam mais do que as poses oficiais.

Suas melhores imagens são resultado desse misto de paciência e agilidade, como na famosa fotografia conhecida como "Dança das Cadeiras", em que Figueiredo, Delfim Netto, Newton Cruz e Golbery do Couto e Silva se preparam para uma reunião.

quatro homens de pé, prestes a se sentar, em sala de escritório

Retratou o Brasil também fora dos palácios. Fotografou presidentes com o mesmo interesse que dedicou aos retirantes, manifestantes, indígenas e trabalhadores. Brito se dedicou ao fotojornalismo humanista, alinhado aos grandes mestres do século 20, como Henri Cartier-Bresson e Sebastião Salgado.

Fotografou festas populares e religiosas, sobretudo no Nordeste. Ali, diferentemente dos gabinetes de Brasília, pôde desenvolver legítimas relações de confiança e empatia com seus retratados. Essas imagens foram reunidas no livro "Corpo e Alma", de 2006.

Publicou ainda "Perfil do Poder" em 1981, "Senhoras e Senhores" em 1992, "Brasil: De Castello a Fernandos", em 1996, e "Iluminada Capital", em 2003. Viajou por mais de 60 países e foi o primeiro brasileiro a receber o World Press Photo, um dos mais importantes prêmios do fotojornalismo mundial, em 1979. Conquistou 11 vezes o prêmio Abril de Fotografia, sendo considerado hors-concours a partir de 1987. Em 1991, recebeu uma bolsa da Fundação Vitae para a realização de um projeto em que retratou pessoas famosas com mais de 80 anos. Suas fotos estão em diversas coleções públicas e privadas.

Tinha uma visão clara do papel de jornalista. "Fotógrafo vê a morte sem chorar, a vitória sem aplaudir, o perigo sem temer e a piada sem sorrir", dizia. Brito esteve muito próximo dos círculos de poder e tinha consciência desse acesso privilegiado. Passou boa parte da vida em meio a personalidades centrais de nossa história, mas nunca se esqueceu daquilo que chamava de "compromisso com as pessoas ausentes".

A morte do fotojornalista foi lamentada por políticos do país. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que Brito "registrou a história política do Brasil de nosso tempo". "Com talento e sensibilidade, transformou imagens em notícia. É uma grande perda para o jornalismo brasileiro", escreveu em uma rede social.

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), afirmou que Brito era um dos "ícones e referência do fotojornalismo brasileiro."

"Mineiro de Janaúba, Brito trabalhou em algumas das mais prestigiadas redações do país e colecionou prêmios nacionais e internacionais durante a sua brilhante carreira", disse. "Profissional com olhar único, registrou por décadas presidentes e personalidades da vida política do país. Externo meus sentimentos aos familiares, amigos, colegas de trabalho e admiradores do profissional."

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), também se manifestou sobre a morte do fotógrafo. "O fotojornalismo brasileiro está de luto, mas Orlando Brito será eterno nas suas fotos que testemunham a história do nosso país. Meus sentimentos à família e aos amigos", disse também em rede social.

O ministro João Roma (Cidadania) disse que, "além de um fotógrafo excelente, Brito era generoso e dedicado, um amigo simples e humilde." "Ele respirava fotografia, muitas premiadas no mundo inteiro. Separei aqui algumas imagens que recebia dele sempre que me via e fazia questão de carinhosamente registrar que estávamos perto", afirmou.