Monstros de Laerte, que faz 70 anos, nascem da seiva da direita de Jair Bolsonaro


GUILHERME GENESTRETI
GUILHERME GENESTRETI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os monstros se infiltram pelas frestas. Vêm com tentáculos pegajosos, bocarras cheias de dentes, alguns com línguas lascivas, outros com garras aquilinas, brotando de janelas, portas e ralos. Até mesmo a professora primária tem feições reptilianas.

O sinistro não falta na obra de Laerte, embora ela não tenha a explicação para a profusão de criaturas bizarras em seus traços. “Não sei. Também gosto de desenhar escadas”, diz, arregalando os olhos por trás dos óculos, e a a fala é logo interrompida pelo miau de Muriel, sua felina. “E gatos.”

Talvez seja por haver em todo monstro a tensão entre o grotesco e o sublime, equilíbrio que também marca a obra desta que é a decana dos cartunistas do jornal Folha de S.Paulo e que faz 70 anos nesta quinta, quatro meses após deixar o hospital onde esteve internada por complicações da Covid.

Mais de 1.500 de suas tirinhas estão reunidas em “Manual do Minotauro”, que chega às livrarias no mês que vem. A coletânea começa com trabalhos publicados em 2004. Foi por volta dali que Laerte deu uma virada, largou o humor mais escrachado e deixou à deriva os seus Piratas do Tietê, os bucaneiros que singram pelas artérias paulistanas, em troca de algo indagativo.

“Aquela coisa de resolver uma tira com uma piada legal, reconhecível, era algo que não me satisfazia mais como autora”, diz. Então, veio a morte de um de seus filhos, Diogo, num acidente de carro em 2005. “Tudo na minha vida se radicalizou. Não tinha jeito.”

Vieram outras rupturas. Às portas dos 60 anos, ela anunciou sua transição de gênero ao mesmo tempo em que um de seus personagens, Hugo, ensaiava passos sobre o salto alto de Muriel. Foi ainda nessa época que o amigo Glauco foi assassinado, em 2010, deixando bambo o trio de cartunistas que se completava com Angeli e que marcou as HQs brasileiras da década de 1980.

Enquanto leitores eram forçados a se despedir da anarquia edipiana de Geraldão, o marmanjo de Glauco que espiava a mãe no banho, e as tiras de Angeli aposentavam as ressacas da noite paulistana para ser habitadas por alter egos grisalhos falando com o reflexo no espelho, Laerte se tornou experimental.

Pelas mais de 400 páginas de “Manual do Minotauro” pululam tipos como uma tecelã canibal, uma noiva morta-viva, uma mulher-cavala, um homem-lua, um sapo à procura de ideologia, um aspone com um ramo de pitanga brotando da cabeça e uma prostituta minúscula que só sussurra “não foi culpa sua”. Há um crânio humano com cauda e pinças de escorpião, e um peixe com asas e perna de gente —o Inefável Sushi.

No meio desse “monstruário” há o Minotauro que dá nome à coletânea —na mitologia, nascido do cruzamento entre um touro e uma rainha; nas tiras de Laerte, um boizinho simpático, que usa terno.

São Latércio é um santo recalcitrante, beatificado à revelia. Carla Feliz é uma matrona que não tira do rosto um sorriso ameaçador. Já Dona Ruth constata que todas as suas ações são alegorias para a morte —acertar o relógio, podar a dama-da-noite etc.

A delicadeza em pessoa é um sujeito raquítico. No Festival da Pergunta Retórica, o mestre de cerimônias quer saber se “estão prontos para começar”. Páginas adiante, alguém contempla prédios, que são como dentes, e empaca —“essa metáfora sai ou não sai?”, alguém grita de fora dos quadrinhos, numa das muitas aparições metalinguísticas.

“Não sei se isso pode ser descrito como procedimento poético ou não, mas me interessa usar como material narrativo algo que questione os próprios fundamentos da tira de humor”, afirma Laerte.

O recorte temporal do livro também permite vislumbrar o termômetro político de um país que ia ficando mais radical, violento. Ou a chegada de outros monstros, como queira. São tipos comuns, homens sebosos, engravatados, os que dizem as maiores atrocidades naqueles quadrinhos. Uma antevisão do cidadão de bem?

“Isso sempre esteve aí. O que eu não previa é que esse pensamento seria parte da seiva que nutriria o fascismo, que é o que se está construindo no Brasil hoje”, diz Laerte, que foi comunista na juventude, participou de publicações sindicais e, no jornal Folha de S.Paulo, passou a publicar tiras diárias há 30 anos.

No início do ano, o coronavírus interrompeu esse fluxo. Por dez dias a desenhista esteve internada e, aos poucos, foi voltando ao batente enquanto recuperava parte das forças. “Nunca fui um exemplo de disciplina e furor para me exercitar, mas vai além disso”, conta. “Há um cansaço que não é só físico. Assim como a minha respiração ficou mais pesada, a energia criativa, intelectual, também ficou.”

Mas não arrefeceu o desejo de levar a cabo um livro vagamente autobiográfico, com 400 páginas rascunhadas e que deve sair pela editora Todavia. A ideia inicial, de fazer um retrospecto de várias décadas, hoje está mais modesta e centrada num ano especial, 1968. O mote permanece.

“Vai ser um cruzamento de sexo e política, esses eixos que são fundamentais na vida de uma pessoa, de um país, do mundo”, diz. Só que até lá Laerte terá de domar a autocrítica, seu monstro de estimação. “Sou um pouco cruel com o o que sai de mim, não só com as minhas obras, mas com a minha performance como amiga, como militante, como filha, irmã e pai que eu fui. Não sou ídolo de mim mesma.”

MANUAL DO MINOTAURO

Preço R$ 99,90 (416 págs.)

Editora Companhia das Letras

Autora Laerte

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