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m de leitura Atualizado em 30/03/2022, 21:29

Ministro interino e cotado para cargo, nº 2 do MEC também esteve com pastores (1)

PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 30 de março de 2022

NATHALIA GARCIA E PAULO SALDAÑA
AUTOR autor do artigo

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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Com a exoneração do pastor Milton Ribeiro do MEC (Ministério da Educação), a pasta fica sob a responsabilidade de Victor Godoy Veiga, então secretário-executivo, até que o presidente Jair Bolsonaro (PL) decida o substituto.

Ele foi nomeado interino na edição desta quarta (30) do Diário Oficial da União.

O número 2 do MEC na gestão de Ribeiro é também o principal cotado para permanecer em definitivo à frente do ministério, mas o presidente ainda não tomou sua decisão.

Milton Ribeiro deixou o cargo nesta segunda-feira (28) sob acusações de privilegiar pastores suspeitos de negociar liberações de verbas da pasta em troca de vantagem indevida. A queda do ministro ocorreu uma semana após o jornal Folha de S.Paulo revelar áudio em que o próprio Ribeiro fala em priorizar os amigos de um dos pastores e que isso seria um pedido de Bolsonaro.

Pessoa de confiança de Ribeiro, Victor Godoy já esteve com os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura em eventos no MEC. Isso ocorreu em 13 de janeiro de 2021, quando o ex-ministro recebeu prefeitos e os pastores em agenda classificada como "alinhamento político".

Em fevereiro de 2021, sentou-se ao lado do ministro e de Bolsonaro em encontro com os religiosos e 23 prefeitos. Também compôs a mesa lado a lado com Arilton e Gilmar em outro evento com prefeitos e os pastores em 15 abril do ano passado.

Há relatos de negociação de liberações neste dia 15 de abril em um hotel usado pelos pastores e também um restaurante de Brasília.

Victor Godoy foi ainda o responsável por preparar e encaminhar à CGU (Controladoria-Geral da União) ofício com denúncia da atuação dos pastores que Milton Ribeiro diz ter recebido e despachado em agosto passado. Mas o ministro manteve forte interlocução com os pastores depois disso.

O MEC não apresentou detalhes sobre o teor da denúncia. A Folha de S.Paulo questionou a pasta sobre a presença de Victor Godoy em encontros com os pastores mas não recebeu resposta.

Em uma publicação em rede social, Victor Godoy agradeceu pela indicação ao cargo e afirmou que irá atuar com "rigor para incrementar os mecanismos de transparência e integridade na aplicação dos recursos educacionais, inclusive, colaborando com os órgãos de investigação e controle".

Servidores do MEC e parlamentares envolvidos com a pasta apostam na manutenção de Godoy Veiga. Internamente, funcionários temem que mais uma troca de todo comando possa intensificar uma paralisia na pasta.

Segundo relatos, Bolsonaro estaria disposto a mantê-lo no cargo e avaliar a reação de sua base de apoio. Como o presidente deve anunciar mudanças ministeriais na quinta-feira (31), há a expectativa de que a decisão sobre o MEC saia também neste dia.

Há cobiça de integrantes do centrão pelo cargo, mas lideranças desse bloco de parlamentares que apoia Bolsonaro avaliam já estarem atendidos com o comando do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação). Ligado ao MEC, o fundo é que gerencia as verbas federais de transferências para municípios —sobre as quais os pastores atuavam.

O presidente do FNDE, Marcelo Lopes da Ponte, era chefe de gabinete de Ciro Nogueira (PP-PI), atual ministro da Casa Civil e proeminência do centrão. O órgão ainda tem diretores indicados pelo PL, partido do presidente, e outras legendas do bloco.

A Folha de S.Paulo mostrou que, sob Ribeiro e com o centrão no FNDE, o órgão virou uma espécie de balcão político. Dados oficiais mostram uma explosão de aprovações de obras, ausência de critérios técnicos, burla no sistema e priorização de pagamentos a aliados.

Assim como ocorreu após outras trocas no MEC, reapareceu entre os cotados o nome de Anderson Ribeiro Correia, reitor do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica). Um grupo de militares e evangélicos defende sua nomeação. Correia já presidiu a Capes neste governo e, a interlocutores, não descarta aceitar o convite caso ele se efetive.

O governo Bolsonaro já teve três ministros da Educação, com Ricardo Vélez Rodríguez, Abraham Weintraub e Milton Ribeiro. Nenhum tinha experiência prévia com formulação de políticas públicas na área de educação e tiveram gestões criticadas por educadores e especialistas.

O mesmo ocorre agora com o ministro interino. Godoy Veiga não tinha experiência técnica com políticas de educação pública até chegar ao MEC, em julho de 2020, convidado por Ribeiro.

Antes disso, Godoy Veiga atuou como auditor federal de Finanças e Controle da CGU, onde trabalhou durante 16 anos.

Na CGU, também esteve à frente da coordenação-geral de Auditoria da Área Fazendária, da coordenação-geral de Auditoria das Áreas de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e da diretoria de Auditoria da Área Social.

No início de 2019, passou a dirigir a área de Acordos de Leniência da Secretaria de Combate à Corrupção da CGU e fazia parte do setor que auditava o MEC —único contato prévio com a pasta e com o tema.

Godoy Veiga tem graduação em Engenharia de Redes de Comunicação de Dados pela UnB (Universidade de Brasília) e pós-graduação em Globalização, Justiça e Segurança Humana, segundo dados divulgados pelo governo.

A nomeação de Godoy Veiga foi a primeira mudança na equipe da pasta promovida por Ribeiro logo após a sua chegada, em julho de 2020. O auditor substituiu Antonio Paulo Vogel, servidor federal de carreira que havia chegado ao posto com o ex-ministro Weintraub.

Como secretário-executivo, Godoy sempre foi tido como homem de confiança do agora ex-ministro Milton Ribeiro. Com a ajuda dele, Ribeiro atuou nos bastidores a favor de uma faculdade presbiteriana, mesmo ramo evangélico do então ministro, denunciada por fraude no Enade 2019.

O secretário-executivo da pasta teria dado um recado em nome de Ribeiro a lideranças do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) de que haveria demissões caso chegassem à Polícia Federal indícios de fraude em um centro universitário ligada a pastores aliados.

Na época, a informação sobre a atuação de Ribeiro e de Godoy Veiga foi confirmada à Folha de S.Paulo por três pessoas do alto escalão envolvidas com o tema.