'Maid' vale por revelar Margaret Qualley como uma atriz promissora


TETÉ RIBEIRO
TETÉ RIBEIRO

FOLHAPRESS - Você provavelmente conhece uma menina como Alex. Elas estão por toda parte, em vários países do mundo. Com 20 e poucos anos, já tem um -ou vários- filhos, não frequentou faculdade, se tem marido ou namorado, não pode contar com ele para cuidar da criança e só consegue trabalho como faxineira.

No caso da protagonista da série "Maid", da Netflix, baseada no romance autobiográfico "Maid: Hard Work, Low Pay, and a Mother's Will to Survive", lançado em 2019 pela escritora Stephanie Land e elogiado por Barack Obama, fazer faxina é a saída que ela encontra depois de fugir no meio da noite com a filha de dois anos do trailer em que morava com o namorado alcoólatra e violento.

Alex foi criada por uma mãe solteira que também fugiu com ela de um pai alcoólatra e violento -e, curiosamente, é interpretada por Andie MacDowell, mãe de Margaret Qualley na vida real. Com cabelos grisalhos e sem nenhum botox no rosto, MacDowell perdeu o ar aristocrático que tinha e faz com a personagem Paula Langley, a mãe de Alex, uma interpretação diferente de tudo o que tinha feito até aqui. Paula é uma artista bipolar e riponga, que vive pulando de relacionamento para relacionamento, todos de alguma forma abusivos, mas que ela não enxerga, ou prefere não enxergar, como tais.

Ela é mais um problema na vida de Alex, que, por temperamento ou falta de opção, é uma menina séria e responsável, que faz tudo o que está ao seu alcance para garantir um mínimo de estabilidade e sensação de segurança para Maddy, sua filha de dois anos. Seu único alívio é o diário que ela escreve a mão, em que faz comentários sobre as casas que frequenta, analisa as vidas de seus moradores e conta as histórias que, no dia a dia, não tem para quem contar.

Sem o apelo de adolescente problemática que exibia no papel de Jill Garvey, na série "The Leftovers", no ar entre 2014 e 2017, ou o figurino sexy que usou como Pussycat, sua personagem no filme "Era uma Vez.... em Hollywood", de 2019, dirigido por Quentin Tarantino, a ex-modelo Margaret Qualley só tem sua capacidade como atriz para mostrar em "Maid". Como Alex, uma menina maltratada pelas circunstâncias, ela não tem nenhuma muleta visual para ancorar sua interpretação.

A personagem usa roupas de segunda mão que pega no acervo do abrigo para vítimas de violência doméstica em que vai parar depois que foge do marido, muitas vezes cobertas pelo jaleco azul da empresa Value Maids, que a contrata como faxineira. Seu cabelo, despenteado, parece ter sido lavado com sabão, sem condicionador, e passa a maior parte do tempo largado, ou preso em um coque improvisado enquanto passa aspirador nas casas em que faz limpeza.

Não fosse uma certa tendência para exagerar nas expressões faciais, dava para concluir que Margaret Qualley já é uma atriz melhor do que sua mãe jamais foi. Mas ela é jovem, tem 26 anos, estreou em 2013 no filme "Palo Alto", de Gia Coppola -baseado no romance de James Franco. Tem tempo, portanto, para ajustar esses detalhes. E o que ela mostra nesse papel são duas qualidades raras -garra e graça.

O Brasil não é nem mencionado na série "Maid", com dez episódios de mais ou menos uma hora cada um. Mas é inevitável notar como a tragédia pessoal da protagonista, em vez de parecer uma sequência terrível de acontecimentos desafortunados, como de fato são, traz à luz a evidente disparidade de acesso a redes de apoio que uma mulher na situação dela tem nos Estados Unidos e aqui.

Ficar completamente sem dinheiro, como acontece com Alex e sua filha, Maddy, quando as duas fogem do pai da criança, Sean, papel de Nick Robinson, de "Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros", é horroroso e assustador em qualquer lugar do mundo.

Mas, na cidadezinha fictícia em que se passa a história, perto de Seattle, no estado de Washington, a personagem vive seu drama pessoal em uma situação que pode parecer um privilégio, se comparada a histórias semelhantes de sobreviventes brasileiras do mesmo tipo de sofrimento.

O abrigo para vítimas de violência doméstica em que ela passa algumas semanas tem um quarto limpo e arrumado só para ela e sua filha. As roupas usadas que eles oferecem para ambas estão em ótimo estado.

Elas recebem três refeições por dia entregues em sua porta, em uma bandeja. Maddy ganha brinquedos e frequenta a creche do abrigo, sem custo, enquanto Alex trabalha, ganhando por hora. É uma solução temporária, ela não pode ficar morando lá para sempre, mas não vai parar na rua nem precisa pedir dinheiro no farol.

Denise, interpretada por BJ Harrison, a gerente do abrigo, uma mulher mais velha que também foi vítima de violência doméstica, acolhe quem chega ao lugar e ensina a essas mulheres, invariavelmente aflitas e sem esperança, que há um caminho das pedras. Ela sabe como conseguir auxílios do governo para pagar por moradia, comida, roupas et cetera. Também ajuda a arrumar trabalho e ainda comanda um grupo de apoio, uma espécie de terapia, em que as mulheres que estão no abrigo falam sobre seus problemas e ouvem conselhos e elogios umas das outras. E esse caminho das pedras é exatamente o abismo que existe entre a sociedade americana e a brasileira.

MAID

Onde Disponível na Netflix

Classificação 16 anos

Elenco Margaret Qualley, Nick Robinson, Andie MacDowell

Produção EUA, 2021

Criadora Molly Smith Metzler

Avaliação Bom

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