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m de leitura Atualizado em 17/01/2022, 16:47

Lula não precisa de muleta, e Alckmin é contradição a tudo o que PT fez, diz Rui Falcão

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

RANIER BRAGON
AUTOR autor do artigo

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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O deputado federal Rui Falcão, 78, principal nome dentro do PT a falar contra a articulação para que Geraldo Alckmin (sem partido) seja o vice na chapa de Lula, afirma que o ex-tucano representa uma contradição a tudo o que o partido fez e quer fazer.

"Lula não precisa de uma muleta eleitoral", diz o ex-presidente do PT, que ressalta não falar em nome do partido.

Falcão, que coordenou as campanhas de Lula em 1994 e de Dilma Rousseff em 2014, defende um programa emergencial de combate à fome, desemprego e inflação, com ampliação do investimento do estado.

E diz ver com bons olhos Lula defender a revogação de pontos da reforma trabalhista. "As prioridades não podem ser determinadas pela Faria Lima."

*

Pergunta - Qual programa o sr. defende que o PT adote?

Rui Falcão - As declarações do Lula e da Gleisi [Hoffmann, presidente do PT] sobre mudar a legislação trabalhista dão um bom tom para o programa porque colocam na ordem do dia a classe trabalhadora. A ideia do Lula de que ia colocar o povo no orçamento muda agora para colocar a classe trabalhadora no centro do programa de governo dele.

E aí vêm algumas prioridades. Primeiro, e emergencial, o combate à fome, miséria, desemprego, carestia. Depois, o crescimento econômico. É vital ter investimento público, retomar o papel do estado para que possa gerar demanda e oferta. Por exemplo, a indústria caiu 20% em 10 anos. E a indústria gera mais e melhores empregos. O BNDES, que foi reduzido a um terço do seu tamanho, é, seguramente, o banco público que pode estimular o investimento.

Essas prioridades não podem ser determinadas pela Faria Lima.

Então, essa declaração de colocar a reforma trabalhista no centro do programa, que já suscitou melindres da parte do ex-governador Alckmin [ele manifestou preocupação em conversa com o deputado Paulinho da Força], já dá um indício de que essa aliança não é conveniente.

Por que o sr. é contra Alckmin ser o vice de Lula?

RF - Primeiro porque temos um programa de reconstrução e transformação do país, como a Fundação Perseu Abramo [órgão de estudos do partido] vem trabalhando. Segundo, o Alckmin é a contradição a tudo isso que fizemos e pretendemos fazer. Terceiro, dá uma sinalização muito negativa para uma campanha que tem que ser aguerrida, mobilizada e com a construção de comitês de defesa da eleição do Lula que permaneçam depois como comitês de apoio do programa de transformação.

Além do retrospecto das políticas que realizou como governador de São Paulo, do apoio ao impeachment e de suas posições ultraconservadoras, a sua primeira manifestação envolvendo o programa foi se insurgir contra a reforma trabalhista. Da mesma maneira como reagiram os corifeus da Faria Lima e os economistas conservadores.

Há espaço para um governo do PT que não faça alianças ao centro e até com partidos de direita?

RF - Isso depende ainda das decisões do diretório ou do encontro nacional, mas, na minha opinião, nós temos que ter uma política de alianças centrada nos partidos do campo democrático e popular, que pode se expandir. Ter um programa que atraia eventualmente outros setores além da esquerda, mas não rebaixá-lo para ser aceito pelo centro e pela Faria Lima.

Em 2002, Lula teve como vice o empresário José Alencar, do PL. Por que não pode ter, hoje, Alckmin?

RF - Ninguém aferiu até hoje se a presença do Zé Alencar e a carta aos brasileiros [destinada a acalmar os mercados] foram as responsáveis pela vitória do Lula. O Fernando Henrique já vinha com oito anos de governo, desgastado, com crise em andamento.

Na época se dizia que o Lula não tinha experiência e não era confiável porque ia quebrar contratos. Hoje o Lula tem uma reputação real de estadista. Todas as pesquisas, inclusive as do Datafolha, consideram que ele foi o melhor presidente. Então, ele não precisa de uma muleta eleitoral, como seria a presença do Alckmin.

Isso não significa repelir alianças e apoio, inclusive de pessoas como ele. Foi importante, por exemplo, que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tenha dito que, depois de ter votado nulo ou em branco em 2018, esteja disposto a votar no Lula se o segundo turno for entre Lula e Bolsonaro. Isso não significa que vamos, para ter esse apoio, modular nosso programa.

Como ter governabilidade se a ideia é não modular o programa para atrair apoio fora da esquerda?

RF - Temos tido experiências recentes, como no Chile, Honduras, Peru e, potencialmente, na Colômbia, de que a população, diante da crise, que é brutal, quer solução urgente para os seus problemas. E as políticas neoliberais, que vêm sendo praticadas no Brasil, estão sendo superadas no mundo todo. Fala-se, "você quer emprego ou quer direito?". As pessoas querem as duas coisas.

Podemos também caminhar para propostas setoriais. Por exemplo, tem o economista Carlos Gadelha, e a Fiocruz está nisso, apresentando a ideia do complexo econômico industrial da saúde. Em 20 anos a importação de fármacos, insumos e vacinas cresceu de US$ 4 bilhões para US$ 16 bilhões, sem que tenha havido nenhum crescimento das exportações brasileiras na área. Tem emprego direto na área de saúde de 8 milhões, mas pode ampliar para 20 milhões.

Tem que dar sustentabilidade à produção da região Amazônica, sem derrubar floresta, sem mineração, sem invasão de terras indígenas. Agregar valor ao açaí, por exemplo, dá mais renda potencial do que produzir soja.

Então esse debate de ficar procurando uma saidinha para o teto de gastos, de fazer a reforma administrativa para reduzir a folha de pagamento, isso não é o que move a população.

O Nelson Barbosa [ministro do Planejamento e da Fazenda do governo Dilma] deu entrevista em que defende que o próximo governante reduza a folha de pagamento. É uma ideia dele, mas no Congresso derrotamos pelo menos temporariamente a ideia de fazer uma reforma que foca só reduzir folha salarial, número de pessoas.

RF - O Lula fez o oposto disso no governo. É impensável o Lula manter salário mínimo congelado. Os servidores estão há quatro anos sem aumento. A tabela do Imposto de Renda foi congelada. Dá para fazer isso pensando em superávit fiscal como parâmetro?

Não estamos falando da dona de casa que não pode gastar mais do que seu salário. A União não tem esse tipo de problema. A União, por um dado período, e para gerar emprego, distribuir renda, aumentar salários e promover o crescimento, pode conviver com déficit. Como convivem os EUA, a China e outros países.

O sr. já expôs ao Lula suas opiniões sobre a aliança com Alckmin?

RF - O Lula disse que quem vai decidir isso é o PT. São legítimas as opiniões que defendem a aliança com o Alckmin, como as contrárias. Na passagem do ano eu disse a ele: "Queria te avisar que assinei um abaixo-assinado [contra Alckmin na chapa], inclusive porque você falou que quem iria decidir seria o PT". Ele disse que tudo bem.

Nesse caso do Alckmin, vocês não são minoria dentro do partido?

RF - Eu vi uma manifestação do Luiz Marinho [ex-prefeito de São Bernardo do Campo e presidente do PT-SP] de tempos atrás, dizendo que era contra. A [deputada estadual] Bebel, que é presidente da Apeoesp, o sindicato dos professores, deu declaração dizendo que nessas condições não queria nem ser candidata. Depois sumiu. Pelo que tem saído, provavelmente a gente seja minoria, talvez.

Mas por que as pessoas procuraram minimizar as declarações do Alckmin?

RF - Porque sabem que esse tipo de declaração ajuda a mudar de lado. E se a gente priorizar esse debate de programa, dependendo do que ele falar, as resistências podem aumentar.

O sr. já disse que a campanha de 2022 não será um repeteco da de 2002. Por quê?

RF - A nossa disposição é fazer uma campanha com debate de ideia. Agora, a disposição da direita é outra. É um clima de confronto.

O Bolsonaro disse: "Só saio daqui morto". As pessoas temem que se repita o episódio do Capitólio [a invasão do Congresso norte-americano por trumpistas]. Não adianta você ir com paz e amor e o cara vir com fel, com sal e com tiro.

O sr. acha que algum nome da chamada terceira via tem alguma chance?

RF - O Bolsonaro não baixou ainda ao nível que permita alguém tomar o lugar dele. Há uma pulverização. Aquele que foi apontado como mais indicado para a chamada terceira via, o Sergio Moro, não consegue decolar.

É aquela história: trocar alguém da direita, como o Bolsonaro, por outro que não tem o mesmo vigor, impacto, é melhor ficar com o original do que com o carbono.

O sr. é a favor que o PT faça federações com outros partidos de esquerda?

RF - A federação tem questões práticas difíceis de serem resolvidas. Eu acho mais conveniente fazer um pacto eleitoral com esses partidos, de participação futura no governo.

Como presidente do PT de 2011 a 2017, o sr. faz alguma autocrítica?

RF - Na avaliação dos nossos governos, houve uma subestimação das possibilidades de alterar a correlação de forças, de achar que não podia fazer algo por não ter maioria no Congresso. Mas o que se realizou supera em muito as debilidades que tivemos.

E eu discordo dessa ideia de que a presidenta Dilma foi responsável pelo impeachment porque não dialogava. Isso é de uma pobreza intelectual muito grande. Uma injustiça brutal. É como se os torturados fossem responsáveis pela existência dos torturadores. Vamos fazer na campanha, na minha opinião, tanto a defesa do governo Lula como a defesa do governo Dilma.

O que o PT vai falar à sociedade sobre mensalão e petrolão?

RF - Primeiro tem toda a farsa da Lava Jato que desmoralizou totalmente a ideia de que o PT foi responsável pela criação de monstros nas empresas estatais.

O tema da corrupção aparece em quinto lugar no ranking de preocupação da população, inclusive porque a disposição do Bolsonaro de dizer que ia acabar com a corrupção soçobrou diante das denúncias contra a família, da tentativa de acobertar as rachadinhas, do cheque depositado na conta da dona Michelle, além dos episódios da CPI da Covid.

Então, não é um tema que nos preocupe. O PT foi o que mais criou instrumentos de combate à corrupção, inclusive alguns foram utilizados seletivamente contra nós, como ficou claro com as denúncias da Vaza Jato.

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Raio-X

Rui Goethe da Costa Falcão, 78

Jornalista e advogado, é deputado federal e membro da Executiva Nacional do PT. Foi presidente nacional do PT de 2011 a 2017. Coordenou as campanhas presidenciais de Lula em 1994 e de Dilma Rousseff em 2014. Foi secretário de Governo da gestão Marta Suplicy na Prefeitura de São Paulo (2001-2004)