'Los Lobos' retrata ilegais nos EUA longe do paraíso e também do inferno


INÁCIO ARAUJO
INÁCIO ARAUJO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O que há de estranho em "Los Lobos" é que nada de realmente excepcional acontece. Acompanhamos a saga de Lucia, uma mulher que vai aos Estados Unidos com os dois filhos, saindo do México. Ali, a vida está longe de ser um paraíso, mas também não é o inferno prometido pelas autoridades americanas aos imigrantes ilegais.

A situação em si é atroz, embora banal. A mãe trabalha durante o dia, deixando os filhos em casa com um gravador, um conjunto de regras a serem cumpridas (basicamente não podem sair da casa ou fazer sujeira) e um maço de papel para desenharem.

Desde então, o mundo de Max e Leo, os meninos, está restrito ao que veem pela janela. Não é muita coisa. O que vemos, de imediato, não é bem um mundo amigável. Vivem num pardieiro alugado por um chinês por US$ 500 mensais. Não é pouco. Lucia o torna razoavelmente habitável. O problema é que ele é habitado, durante o dia, por duas crianças sem nenhuma distração exceto a mitologia dos lobos heróis que defendem a própria casa, alguns sonhos e, sobretudo, a fantasia de conhecer a Disney.

Eles perceberão logo que existe um abismo entre suas fantasias e a realidade. Por vezes parece habitarem uma pequena Babel, pois não entendem as línguas que circulam por ali, além do espanhol --o chinês e o inglês. E também não têm ninguém para conversar em sua língua, em vista da proibição materna de saírem de casa.

Isso até o dia em que Max se arrisca a fazer uns amiguinhos na vizinhança. O pequeno irmão o segue pouco depois e a porta da casa se fecha os deixando para fora. São dessa ordem as pequenas aventuras que vivem, um quase nada para os adultos. Mas os espectadores percebem que cada um desses minúsculos contratempos representam um chute em suas mitologias pessoais. Como se o heroísmo dos lobos parecesse a eles a cada momento mais frágil.

Sua delicadeza experimenta um sobressalto quando os amiguinhos de Max invadem sua casa e um dinheiro desaparece. É um momento que interrompe o ritmo suave do filme e imprime a ele a marca de uma turbulência que, subterraneamente, nunca deixou de existir.

Lucia fica furiosa com o caso, claro, e depois dele tenta levar as crianças ao trabalho com ela. Nada feito. Ouve que aquilo não é uma creche; se fizer isso de novo, será despedida. É quando nos damos conta de que algo acontece que está acima das pequenas dores e alegrias que as personagens podem vivenciar.

E de que existe algo errado em tudo isso. Não há um só nativo para reclamar que imigrantes roubam seu trabalho, nenhum drama insuperável. Mas se trata ali de viver sem nenhuma proteção, submetido a leis que parecem remontar à Revolução Industrial. Viver sem perspectiva alguma que não seja a de chegar ao dia seguinte, ao mês seguinte.

O mérito principal de Samuel Kishi Leopo, autor de "Los Lobos", é transmitir o sentimento dessa vida sem se deixar levar pelo que de sentimental poderia acrescentar a ela. E de permitir que ela exista como "história qualquer", nem a melhor, nem a pior, mas, ainda assim, capaz de dar conta de um mundo (mais que um país) que se mostra a cada passo de seus personagens -são condições de trabalho que sem grande dificuldade podem gerar a barbárie (a cena de invasão da casa pelo bando de meninos), a indiferença (a notação rápida, um homem fuma uma substância alienante que corre através de uma lâmpada) ou mesmo a gratificação (quando Lucia leva os filhos a um parque de diversões).

Este último, aliás, é um exemplo do estranhamento que o filme produz. Não se trata de uma redenção, mas as personagens vivem esse momento como se o fosse. O futuro, naquele momento, parece não existir ou não importar.

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LOS LOBOS

Quando: Estreia nesta quinta (16) nos cinemas

Autor: Samuel Kishi Leopo

Elenco: Martha Reyes Arias, Maximiliano Nájar Márquez, Leonardo Nájar Márquez e Cici Lau

Produção: México, 2019

Link: para trailer no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=1F4pJuFSmko

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