Litoral de SP, que chegou à beira do colapso, sofre com promessas de hospitais inacabados


KLAUS RICHMOND E MARCELO TOLEDO
KLAUS RICHMOND E MARCELO TOLEDO

<p>SANTOS, SP, E RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) - A estrutura de três pavimentos ainda em concreto puro, cercada por madeiras escanteadas e coberta por mato alto é o atual retrato do hospital municipal de Peruíbe (a 135 km de São Paulo).

</p><p>O canteiro de obras a céu aberto, contudo, não representa o único hospital inacabado no litoral paulista que, até o início de abril, viveu um lockdown pelo risco de colapso no sistema de saúde devido ao agravamento da Covid-19 na região. Bertioga, mais ao norte do litoral, tem cenário similar.

</p><p>Em comum, o fato de que ambas cidades não receberam o aporte prometido pelo governo estadual para a conclusão das estruturas. A primeira parte do convênio assinado para as construções aconteceu ainda em 2014, com o valor de R$ 4 milhões cada. Desde então, não houve avanços e as obras sofreram com abandono.

</p><p>"O maior sonho da população de Peruíbe é contar com um hospital na cidade. É considerado um projeto prioritário, mas o município não consegue fazer isso sozinho, precisa desse recurso", disse à Folha o prefeito Luiz Maurício (PSDB).

</p><p>Ele disse entender que a pandemia adiou projetos, mas que acredita e confia "tanto no estado, quanto no governador, que esse recurso será liberado em breve".

</p><p>Durante a campanha eleitoral, em 2018, o governador João Doria (PSDB) gravou um vídeo afirmando que cumpriria "um compromisso com Bertioga".

</p><p>"Eleito governador, junto com o prefeito Caio Matheus [PSDB], vou concluir as obras e ações que a cidade e região tanto precisam. Vamos finalizar as obras de ampliação do hospital de Bertioga", disse, à época, o político. O mesmo aconteceu com Peruíbe: "Vamos, sim, terminar as obras do hospital municipal".

</p><p>Desde então, as prefeituras encaminharam uma série de ofícios solicitando a liberação da verba para a conclusão da ampliação, mas jamais foram atendidas.

</p><p>Após seguidos apelos pelo esquecimento das obras, em 19 de julho de 2019, depois de cinco anos de paralisação, o então secretário estadual de Saúde, José Henrique Germann Ferreira, em visita à Praia Grande, afirmou que o governo liberaria R$ 36,6 milhões em investimentos para retomar as obras, além de reformar o Hospital Guilherme Álvaro, em Santos.

</p><p>Da verba, R$ 18,1 milhões seriam destinados a Peruíbe, enquanto Bertioga teria R$ 11,1 milhões, com previsão de conclusão em 15 meses. Os outros R$ 7,4 milhões seriam destinados à reforma e ampliação do hospital em Santos.

</p><p>Caso cumprido, o tempo seria suficiente para que ambos os projetos já tivessem sido concluídos e pudessem oferecer, juntos, 120 leitos -58 em Peruíbe e 72 em Bertioga-, importantes num momento crítico de pandemia como o enfrentado no país.

</p><p>Atualmente, dos 14 leitos de enfermaria destinados à Covid-19, Peruíbe possuía neste domingo (2) duas pessoas internadas, além de 25 moradores em hospitais de outras cidades. Desde o início da pandemia, já são 152 óbitos na cidade.

</p><p>Assim como a vizinha Mongaguá, a cidade de 69 mil habitantes não conta com leitos de UTI e encaminha pacientes em estado grave para outras localidades.

</p><p>Recentemente, em Mongaguá, o pai do prefeito Márcio Melo Gomes (Republicanos) precisou ser internado no Hospital Regional Jorge Rossmann, em Itanhaém, enquanto o irmão foi para a Santa Casa de Misericórdia de Santos, em leito particular. Ambos morreram de Covid-19.

</p><p>O hospital em Peruíbe conta com quase 4,5 mil m² de área construída. Em Bertioga, já há um hospital em funcionamento, construído em 2000, mas que necessita de ampliação devido ao fato de receber moradores de Guarujá e São Sebastião.

</p><p>"Sucessivamente temos pedido junto ao governo estadual, em audiências públicas e seguidos ofícios. Dá uma angústia imensa porque também atendemos acidentados da Rio-Santos, da Mogi-Bertioga. Precisamos de ajuda", afirma Luiz Carlos Rachid, secretário da Saúde de Bertioga.

</p><p>Atualmente, o município soma 22 leitos de enfermaria e dez de UTI para Covid-19, com 40% de ocupação dos leitos de UTI. Até a última semana, foram 118 mortes na pandemia.

</p><p>Questionada sobre o assunto, a Secretaria da Saúde de São Paulo informou que "a pandemia impôs a necessidade de utilizar recursos de forma racional, direcionando esforços e estruturas para assistência e reprogramando investimentos de maior porte".

</p><p>Por meio de nota, citou investir no fortalecimento do sistema de saúde do litoral, com verbas estaduais e, também, federais. "Dos recursos totais, provenientes de fontes estadual e federal, foram destinados R$ 120,6 milhões para São Vicente, R$ 21,6 milhões para Peruíbe e R$ 20,4 milhões para Bertioga."

</p><p>Sobre as obras no Hospital Guilherme Álvaro, explicou que estão em curso para melhorias no complexo hospitalar.

</p><p>Os problemas enfrentados em hospitais não estão resumidos ao litoral e também não se limitam à estrutura física. Em Bauru, no interior paulista, o problema é outro: um hospital está pronto, mas não totalmente ocupado, o que tem causado atritos entre Doria e a prefeita Suéllen Rosim (Patriota).

</p><p>Em abril, quando a prefeitura assinou convênio para abrir dez leitos de UTI no hospital de campanha no HC, políticos presentes afirmaram que há a necessidade de o local funcionar em definitivo na cidade.

</p><p>"Depois que a pandemia melhorar, vamos seguir lutando para que o HC seja aberto em definitivo pelo governo estadual, para atender a mais especialidades, onde a fila de espera também é alta", disse, no dia, Suéllen.

</p><p>O hospital de campanha começou a funcionar no quarto e quinto andares, com 40 leitos clínicos. Agora, os 10 primeiros leitos de UTI no prédio estão no oitavo andar.

</p><p>Em uma postagem em redes sociais, a prefeita voltou a tocar no assunto, ao dizer que o HC tem andares que podem receber mais leitos. "Enquanto o estado não cumpre o seu papel, adaptamos o nosso pronto-socorro para enfrentar a situação [...] O estado pode mudar essa situação, tem prometido desde o começo do ano e até agora nada. Bauru implora por leitos que foram prometidos."

</p><p>Segundo o governo do estado, o HC só existe graças aos investimentos estaduais e a Prefeitura de Bauru participou da ativação de leitos de UTI após determinação da Justiça.

</p><p>"O hospital opera hoje com 40 leitos de enfermaria, com ocupação de 78%, e dez de UTI que estão ocupados no momento [sexta, 30]. Além deste serviço, o estado mantém em Bauru os hospitais Estadual e de Base, Maternidade Santa Isabel e Instituto Lauro de Souza Lima", diz trecho de nota da Secretaria da Saúde.

</p><p>Ainda segundo o estado, a prefeita não está fazendo sua parte com infraestrutura e tem histórico de atitudes negacionistas, tanto "que o município segue registrando aumento nas estatísticas". Suéllen, por sua vez, tem afirmado não ser negacionista, e, sim, realista.</p>

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