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m de leitura Atualizado em 21/01/2022, 14:02

Indígenas e grileiros lutam por terra em filme que ecoa era Bolsonaro em Sundance

PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

FABIANO MAISONNAVE
AUTOR autor do artigo

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CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - As imagens do satélite sobre Rondônia acompanham o desmatamento devorando a floresta em ritmo alucinante, até esbarrar numa barreira verde. Ali, resistem os uru-eu-wau-waus. "The Territory", ou o território, começa no espaço, mas é no chão que o documentário registra a luta de um povo indígena sitiado e as motivações de quem os invade.

O filme está na seleção deste ano do Festival Sundance, o maior do cinema independente dos Estados Unidos, e é dirigido pelo americano Alex Pritz, de 31 anos, em coprodução com os uru-eu-wau-waus. Estreia neste sábado e será reexibido na segunda. A edição deste ano é online, mas só pode ser vista pelo público americano. O documentário ainda não tem previsão de estreia no Brasil.

Feito com sentido de urgência, o documentário é um testemunho em tempo real do avanço sobre terras indígenas já homologadas, estimulado pelas declarações e pela omissão do presidente Jair Bolsonaro, do PL, opositor das demarcações e aliado incondicional do agronegócio.

Por telefone, Pritz afirma que contatou o fotógrafo brasileiro Gabriel Uchida em 2018, quando Bolsonaro estava prestes a ser eleito, com a ideia de mostrar o desmantelamento das políticas socioambientais no horizonte.

Radicado em Rondônia, Uchida, que seria um dos produtores do documentário, apresentou Pritz à indigenista Ivaneide Cardozo, a Neidinha --mãe de Txai Suruí, jovem de 24 anos que fez história ao discursar, em inglês, na abertura da COP26, em Glasgow . Neidinha, por sua vez, convenceu o diretor a conhecer os uru-eu-wau-waus, com quem trabalha há 40 anos.

"Assim como nos Estados Unidos, tem havido genocídios contra povos indígenas na Amazônia. É um processo mais lento, mais difícil de definir, por causa das distâncias. Mas, pelas lentes da história, o que estamos vendo é um genocídio", afirma Pritz.

Os uru-eu-wau-waus perderam dois terços de sua população logo após o contato com os brancos, no início dos anos 1980, em razão de doenças e conflitos. A situação começou a melhorar após a homologação do território, em 1991, segundo o ISA, Instituto Socioambiental. Hoje, contam cerca de 200 pessoas.

Para contar a história, o filme acompanha o jovem uru-eu-wau-wau Bitaté, a indigenista Neidinha e invasores que têm desmatado a floresta na esperança de ter a grilagem legalizada.

As filmagens foram marcadas por uma tragédia. Em abril do ano retrasado, o professor e guardião da floresta Ari Uru-Eu-Wau-Wau foi assassinado numa estrada da região. Quase dois anos depois, o crime continua sem solução.

"A sua morte mudou tudo. Deveríamos continuar? Os riscos são muito grandes? Qual o custo emocional de fazer esse filme para nós, para a comunidade? Pausamos por um longo tempo até conversarmos com Bitaté e Neidinha", lembra Pritz.

Mesmo com a situação conflagrada, o diretor se esforçou para entender o ponto de vista dos invasores. O documentário traz depoimentos e imagens raras do momento em que os grileiros derrubam e incendeiam a floresta invadida.

Para driblar a retórica contra jornalistas e ONGs, o americano passou por uma sabatina. "Um dos líderes começou a gravar com o celular e pediu a lista de todas as fontes de financiamento para o filme. 'Se eu ouvir nomes de quem eu não gosto, você está fora'", conta o cineasta. Ele passou.

"Foi um longo processo para construir confiança. Eles veem parte do seu trabalho como fora da lei, mas acham que as pessoas estão apenas focadas nesses atos ilegais. Acham que o que os seus pais faziam era progresso, era criar algo a partir do nada. E de repente foram transformados em criminosos, mas não se veem assim", afirma o diretor.

O documentário escancara a ausência do Estado sob Bolsonaro. A Funai, a Fundação Nacional do Índio, só aparece em dois áudios, um deles exigindo que se comprovasse a invasão antes de agir. "A Funai era mais uma ideia do que uma realidade tangível", afirma Pritz.

Em tempos de Covid-19, boa parte das filmagens foi feita pelos próprios indígenas, que também participaram da edição. Falando por WhatsApp de uma das aldeias, um dos cinegrafistas disse que gravou as imagens ao mesmo tempo em que participava de ações de monitoramento do território. Por questão de segurança, pediu o anonimato.

"Nesse documentário que a gente vem fazendo, além de mostrar o nosso trabalho, a gente busca também ter acesso aos cidadãos não indígenas, para eles verem como a gente protege a nossa terra, qual é a importância de proteger. A gente valoriza muito as nossas raízes, os mais velhos, que lutaram por essa terra", afirmou. "Estamos seguindo a mesma luta."