São Paulo - O governo da Índia reforçou a ofensiva contra jornalistas críticos e políticos da oposição, em meio à intensificação de protestos de agricultores. Na semana passada, a polícia indiana abriu um inquérito para identificar criadores e disseminadores de um "kit protesto" compartilhado no Twitter na quarta (3) pela ativista Greta Thunberg. O kit orientava como subir hashtags e organizar manifestações a favor dos agricultores.

Os agricultores fazem protestos desde novembro contra a reforma das leis agrícolas
Os agricultores fazem protestos desde novembro contra a reforma das leis agrícolas | Foto: Narinder Nanu/AFP/6-2-2021

Nos últimos dias, o governo já havia acusado jornalistas críticos de crimes como sedição e promoção da inimizade entre grupos por sua cobertura dos protestos. No Dia da República, 26 de janeiro, os protestos dos agricultores se tornaram violentos quando manifestantes avançaram com tratores sobre as barreiras da polícia.

Um grupo entrou no histórico Forte Vermelho e hasteou uma bandeira Sikh, grupo religioso a qual pertence a maioria dos agricultores nos protestos, que vem do norte da Índia. Um agricultor morreu. Alguns jornalistas escreveram ou tuitaram que ele foi vítima de um tiro da polícia, a partir de fotos e depoimentos de pessoas no local. As autoridades afirmam que ele morreu quando seu trator capotou.

O crime de sedição, segundo a legislação indiana, consiste em "suscitar ódio ou desprezo, por palavras faladas ou escritas, ou sinais, para gerar hostilidade e deslealdade ao governo indiano" e prevê multa e reclusão de três anos até prisão perpétua.

Os agricultores começaram a protestar em novembro contra a reforma das leis agrícolas. Segundo eles, a mudança privilegiará as grandes corporações e vai esmagar os pequenos produtores. O primeiro-ministro Narendra Modi afirma que ela é necessária para aumentar a eficiência. Os protestos preocupam o governo, porque os agricultores na Índia são muito numerosos e formam um poderoso bloco de pressão política.

Além de processar jornalistas, o governo vem cortando a internet em locais onde os manifestantes se reúnem, para "evitar mais episódios de violência", segundo as autoridades indianas.

A repressão também abrange as redes sociais. A polícia de Nova Délhi afirmou ter identificado 300 contas no Twitter que estariam publicando conteúdo de ódio relacionado aos protestos. "Essas contas estão sendo usadas por organizações e indivíduos que têm interesses escusos, querem disseminar animosidade contra o governo", disse Praveer Ranjan, comissário de polícia.

O governo americano, não mais liderado por Donald Trump, que se alinhava a Modi no populismo de direita, apoiou os protestos pacíficos dos agricultores e pediu respeito à liberdade de expressão. Em resposta, o governo indiano comparou o protesto dos agricultores no Dia da República à invasão do Capitólio por extremistas de direita.

Depois de a polícia anunciar investigação dos autores do "kit protesto" e de várias contas nas redes sociais, a ativista Greta Thunberg postou no Twitter: "Eu #apoioosagricultores e seus protestos pacíficos. Ódio, ameaças e violações de direitos humanos nunca irão mudar isso".

A hostilidade contra jornalistas vem crescendo. A organização Repórteres sem Fronteiras publicou um alerta pedindo proteção policial para a jornalista Neha Dixit, vencedora do Prêmio Internacional de Liberdade de Imprensa em 2019. Ela teve a casa invadida e recebeu ameaças de morte.

No ranking de Liberdade de imprensa, a Índia está em 142º posição, de 180 países. A reportagem entrou em contato com o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Índia, mas não obteve resposta.

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