<p>BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - Não há dúvidas sobre quem vai ganhar as eleições para o Parlamento escocês nesta quinta (6), mas a pergunta crucial ainda está em aberto: a vitória da primeira-ministra Nicola Sturgeon será esmagadora o suficiente para que ela consiga cumprir sua principal promessa?

</p><p>Líder do Partido Nacional Escocês (SNP) desde 2014, Nicola, 42, ganhou projeção ainda maior nas eleições nacionais de 2019, quando ampliou o espaço do SNP no Parlamento britânico após defesa enfática de uma segunda consulta sobre a independência da Escócia.

</p><p>Na primeira, realizada há sete anos, a maioria dos escoceses votou pela permanência no Reino Unido. Mas dois anos depois o clima mudou, após o plebiscito que aprovou o brexit. Mais de 6 em cada 10 eleitores da Escócia queriam continuar integrando a União Europeia em 2016, e a "traição" britânica agravou um sentimento mais antigo --o de que o governo central privilegia a Inglaterra em detrimento das outras três nações que formam o Reino Unido (que inclui também Gales e Irlanda do Norte).

</p><p>Quando a reeleição de Boris Johnson enterrou de vez as esperanças de que o brexit fosse revisto, no final de 2019, a parcela dos escoceses pró-independência ultrapassou a dos contra e manteve-se acima de 50% durante todo o ano passado. Desde o último mês, ela recuou, e pesquisas recentes mostram um empate técnico: 47% contra X 45% a favor.

</p><p>Levantamentos também mostram uma preferência segura por Nicola entre os cerca de 4 milhões de escoceses com mais de 16 anos aptos a ir às urnas. Dados mais recentes indicam que ela pode levar 65 das 129 cadeiras do Parlamento --uma maioria estreita-- às quais se juntariam 8 dos Verdes e um número imprevisível --de 0 a 6, de acordo com as sondagens-- do recém-criado Alba.

</p><p>Somada, a potencial bancada pró-independência chegaria a 79 assentos no Parlamento, 61% do total. Maioria inegável, mas Nicola precisa de uma resposta forte das urnas para se contrapor à oposição reiterada do premiê britânico, Boris Johnson, à nova consulta popular.

</p><p>Além disso, a pandemia de Covid-19 atrapalhou a campanha corpo a corpo e elevou o risco de abstenções, levando a própria líder do SNP a declarar que está andando "sobre o fio da navalha", apesar de sua vantagem. Outro temor é que o histórico do partido --à frente do governo por 14 anos-- faça seus eleitores contarem com uma vitória que parece certa e ficarem em casa, derrubando a margem de liderança e complicando a tarefa de Nicola.

</p><p>O plebiscito, que ela prometeu realizar até 2023 "se a pandemia de Covid-19 permitir", só acontece com autorização do governo do Reino Unido, e Boris já repetiu várias vezes que votações como a de 2014 só acontecem "uma vez em cada geração". Em março, ele chamou a hipótese de uma nova consulta de "completamente inadequada, irrelevante e desnecessária".

</p><p>Boris argumenta que a crise de Covid mostra a importância de Escócia e Inglaterra permanecerem juntas, e seu bom desempenho recente na campanha de vacinação pode explicar parte da redução do ânimo independentista nas últimas semanas.

</p><p>Mas Nicola também teve uma gestão da pandemia elogiada: a Escócia implantou medidas de controle de contágio antes da Inglaterra e manteve restrições por mais tempo. Não que isso seja motivo de alívio, afirmou ela em entrevista recente.

</p><p>"A experiência foi horrível para todos. Fez com que eu reavaliasse toda minha abordagem de liderança e política. Ficou claro que nem sempre é possível ver o futuro e medir o impacto de cada decisão que você toma, e isso requer muito mais transparência", afirmou.

</p><p>Entre as coisas que teria feito diferente, citou a proteção dos asilos de idosos: "Enquanto eu viver, não apenas enquanto for a primeira-ministra, levarei o peso dessas decisões e seus efeitos".

</p><p>Se o tema do combate à Covid-19 produz um equilíbrio entre partidários de Nicola e de Boris, outros fatores, como medo de fuga de empresas ou de uma fronteira dura com a Inglaterra são aventados por analistas para explicar a redução dos que apoiam a independência.

</p><p>Há também barreiras práticas importantes. Num nível mais próximo do cotidiano, por exemplo, estabelecer uma moeda própria não será trivial, mas um problema bem mais complexo é o alto déficit público. Em média o custo de cada escocês em serviços públicos supera os impostos arrecadados em mais de 2.000 libras por ano --um rombo de cerca de R$ 15 mil por habitante--, segundo o Institute for Government.

</p><p>Além disso, a reintrodução na União Europeia --um dos motivos de maior frustração dos escoceses anti-Conservadores-- não é automática nem unilateral. Dependeria de condições negociadas com o bloco europeu e poderia levar vários anos.

</p><p>A independência enfrenta forte oposição também dos militares britânicos, já que só a Escócia tem condições de abrigar a frota de submarinos nucleares do Reino Unido em suas bases da Otan (aliança de defesa entre países da Europa e da América do Norte).

</p><p>O SNP se opõe a armas nucleares na Escócia, mas, por outro lado, terá dificuldades para financiar sua própria defesa ao se tornar independente --uma das sugestões de analistas tem sido justamente a de levantar recursos alugando a base de Falsane para os equipamentos nucleares ingleses.

</p><p>Antes de enfrentar essas discussões, porém, Nicola terá que lidar com o impacto da pandemia na economia e na desigualdade. "Todos vivemos a pandemia, mas os efeitos não foram iguais", disse ela.

</p><p>Ela também se disse preocupada em impedir que o debate sobre a independência provoque fraturas sérias entre os escoceses. "Temos que trabalhar mais para não permitir que desentendimentos se tornem divisões tóxicas. E acho que é uma responsabilidade de todos nós", afirmou em entrevista à mídia escocesa, na semana passada.

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</p><p>Entenda a "superquinta" britânica

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</p><p>Como funciona a eleição para o Parlamento da Escócia?

</p><p>O voto é facultativo. Eleitores registrados, a partir dos 16 anos de idade, tem dois votos: um para parlamentar constituinte, em que vencem os candidatos mais votados, e outro para um representante regional. Há 73 vagas para constituintes e 56 para os eleitos nas oito regiões, o que soma 129 vagas no Parlamento.

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</p><p>Quais as atribuições do Parlamento escocês?

</p><p>Os eleitos aprovam leis sobre aspectos da vida na Escócia, como saúde, educação e transporte e têm alguns poderes sobre benefícios fiscais e sociais.

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</p><p>O que a eleição tem a ver com a independência?

</p><p>Se mantiverem a maioria no Parlamento escocês, partidos pró-independência devem impulsionar a campanha por um novo plebiscito sobre o assunto. Mais que a simples vitória, importa o tamanho da vantagem obtida, já que a consulta popular só acontece com autorização do governo do Reino Unido, e o premiê Boris Johnson tem dito que ela só acontecerá "uma vez em cada geração".

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</p><p>O que implica não ser independente?

</p><p>O país continua sujeito ao Parlamento Britânico nas áreas de negócios estrangeiros, comércio exterior, defesa, função pública nacional, política econômica e monetária, seguridade social, emprego, regulamentação de energia, a maioria dos aspectos de tributação e alguns aspectos de transporte. O chefe de governo da Escócia é o primeiro-ministro britânico (atualmente, Boris Johnson) e o chefe de Estado é o monarca britânico (atualmente, Elizabeth 2ª). A Escócia elege 59 membros do Parlamento na Câmara dos Comuns e nomeia membros para a Câmara dos Lordes.

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</p><p>Os escoceses já não disseram não à independência?

</p><p>Em 2014, 55,3% votaram contra a independência em relação ao Reino Unido e 44,7%, a favor. Porém uma fatia muito maior de escoceses se opunha ao brexit: em 2016, 62% deles eram contrários a uma saída da União Europeia. Com a vitória do brexit no conjunto do Reino Unido, o debate sobre a independência recobrou força. Os defensores de uma nova consulta chegaram a 55% no ano passado. Pesquisas mais recentes mostram um empate técnico, com 47% contra e 45% a favor

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</p><p>O que mais está em jogo nesta quinta?

</p><p>No total, estão em disputa um número recorde de assentos: mais de 5.000. Além de 129 assentos no Parlamento escocês, estão em jogo:

</p><p>60 assentos na Assembleia galesa, 25 membros da Assembleia de Londres, 13 prefeitos eleitos diretamente - incluindo o de Londres, vagas em 145 conselhos municipais (semelhantes a Câmaras de Vereadores e responsáveis por áreas como educação, coleta de lixo, habitação e urbanismo), 39 cargos de comissários de polícia e uma eleição suplementar para o representante de Hartlepool (no norte inglês) no Parlamento do Reino Unido.

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</p><p>Em Gales também está em questão a independência?

</p><p>O movimento independentista galês é muito mais fraco que o escocês, embora tenha crescido a fatia dos que defendem a separação e caído a de seus opositores. Pesquisas recentes dão 27% para os pró e 55% para os contra, com 14% dizendo não saber ou não respondendo.

</p><p>O assunto poderia entrar na pauta se os Trabalhistas não conseguirem consolidar uma maioria e se virem forçados a pedir o apoio do nacionalista Plaid Cymru. Em Gales, pela primeira vez o voto foi aberto a jovens de 16 e 17 anos. Resultados são esperados para a tarde de sexta.

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</p><p>Como está a disputa em Londres?

</p><p>A reeleição do trabalhista Sadiq Khan está garantida e o principal interesse é saber o tamanho do tombo do Partido Conservador, cujo fracasso tem sido crescente na capital britânica nos últimos anos. Resultados são esperados para o sábado.

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</p><p>Qual a importância da eleição em Hartlepool?

</p><p>A disputa para essa cadeira do Parlamento britânico foi aberta porque seu ocupante, o trabalhista Mike Hill, renunciou ao ser acusado de assédio sexual. As pesquisas mostram uma eleição apertada e, para o Partido Trabalhista, perder mais uma cadeira para os Conservadores na região norte da Inglaterra --onde costumava vencer com folga-- será um golpe duro. O resultado deve sair na madrugada de sexta.

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</p><p>Qual o interesse das eleições locais

</p><p>Analistas apostam que os Verdes podem obter bons resultados, trazendo novidade a um panorama político dominado por Trabalhistas e Conservadores. Pesquisas mostram que, para eleitores mais jovens, mudanças climáticas são prioridade

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</p><p>Encontros e desencontros de Escócia e Inglaterra

</p><p>- Século 5 d.C - povos celtas da Irlanda se fixam na costa oeste da Grã-Bretanha, e região passa a ser conhecida como Scotia (terra dos escoceses, em latim). Pesquisas indicam fusão de quatro povos (pictos, escoceses, bretões e anglos)

</p><p>- Séculos 2 e 3 a.C - Império Romano constrói barreiras, como a Muralha de Adriano, isolando os escoceses de seus domínios ingleses

</p><p>- Século 8 a 12 - invasões vikings

</p><p>- Séculos 13 a 16 - começam conflitos anglo-escoceses e a Escócia passa a buscar autossuficiência e alianças com a Europa continental

</p><p>- 1502 - O rei escocês James 4º faz "tratado de paz perpétua" com Henrique 7º, da Inglaterra

</p><p>- 1572 - Rainha Elizabeth 1ª prende na Inglaterra a rainha católica Maria, da Escócia, garantindo estabilidade para o reformista James 6º

</p><p>- 1603 - James 6º se torna James 1º da Inglaterra

</p><p>- 1652 - Inglaterra impõe à Escócia união parlamentar plena, rompida poucos anos depois; cresce a assimilação política e cultural da Escócia pela Inglaterra

</p><p>- 1707 - Escócia se funde com a Inglaterra para integrar o Reino Unido da Grã-Bretanha

</p><p>- 1934 - É criado o Partido Nacional Escocês (SNP)

</p><p>- 1949 - Pacto Escocês exigindo governo doméstico na Escócia recebe 2 milhões de assinaturas, mas nacionalismo é abafado

</p><p>- 1979 - Fracassa tentativa de criar assembleia escocesa com poderes legislativos e executivos limitados

</p><p>- 1999 - É eleito o novo Parlamento escocês - o primeiro desde 1707

</p><p>- 2007 - SNP conquista maioria dos assentos (47) no Parlamento escocês

</p><p>- 2012 - SNP consegue aprovação britância para votação sobre independência da Escócia

</p><p>- 2014 - Em plebiscito, independência escocesa é rejeitada

</p><p>- 2016 - Brexit é aprovado pela maioria dos britânicos, com oposição de 62% dos escoceses

</p><p>- 2019 - SNP conquista mais 13 assentos no Parlamento britânico, chegando a 48, 7 deles obtidos dos Conservadores; Sturgeon promete convocar novo plebiscito sobre independência se for reeleita no Parlamento da Escócia

</p><p>Fonte: Encyclopedia Britannica</p>

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