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m de leitura Atualizado em 07/03/2022, 18:53

Guerra faz economistas elevarem projeção de inflação no Brasil

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de março de 2022

LEONARDO VIECELI
AUTOR autor do artigo

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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Com a guerra entre Rússia e Ucrânia, petróleo e commodities agrícolas dispararam no início desta semana. Antecipando os repasses para preços finais de combustíveis e alimentos, economistas no Brasil já veem inflação mais alta.

Por ora, projeções apontam para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) na faixa de 6% ao final de 2022 —um avanço maior não é descartado por parte do mercado financeiro.

Caso as estimativas se confirmem, a inflação vai estourar novamente o teto da meta, estabelecido em 5% para este ano.

Embora reflita o cenário até a semana passada, a edição mais recente do boletim Focus, divulgada nesta segunda-feira (7) pelo BC (Banco Central), voltou a estimar um IPCA maior em 2022.

Na mediana, as previsões do mercado para o indicador ficaram mais próximas de 6%, passando de 5,60% para 5,65%. Foi a oitava semana consecutiva de alta.

O economista-chefe da Necton Investimentos, André Perfeito, avalia que as projeções devem voltar a subir nas próximas semanas, na esteira da tensão geopolítica e das novas pressões sobre as cotações de commodities.

Segundo Perfeito, a Necton deve elevar sua estimativa de IPCA em 2022 de 5,81% para a faixa de 6% nos próximos dias. "As projeções começam a refletir os impactos da guerra", diz.

Nesta segunda, a gestora Santander Asset aumentou sua previsão para o IPCA deste ano, de 5,4% para 5,9%. O viés é de alta —ou seja, a tendência é de novos avanços.

De acordo com o economista-chefe da Santander Asset, Eduardo Jarra, os 5,9% refletem o quadro de preços de bens industriais e serviços ainda pressionados na largada do ano no Brasil.

Jarra relata que a revisão ainda não contempla os efeitos da guerra na Ucrânia, embora ele entenda que o conflito trará impactos sobre a inflação no Brasil.

A questão que ainda não está clara é a magnitude do choque sobre os preços finais, afirma o economista.

"A gente ainda não sabe a intensidade, mas se materializou a piora para a inflação global. Já há uma certeza: vai afetar as projeções", aponta Jarra.

Com a inflação persistente no Brasil, a Santander Asset também revisou para cima sua estimativa para a taxa básica de juros. Agora, a instituição vê a Selic em 12,25% ao final de 2022, em linha com a mediana do Focus. A previsão anterior era de 11,75%.

A consultoria MB Associados também subiu a estimativa para o IPCA, de 5,8% para 6,5%, com impacto dos preços de alimentos e transportes.

A inflação mais forte é vista como reflexo do conflito no Leste Europeu. A MB ainda aumentou a projeção para a Selic, de 12,25% para 13%, acima da mediana do Focus.

"Mais inflação e juros significa menos renda e crédito e reforça a estagnação da economia este ano, com riscos de queda de PIB [Produto Interno Bruto]", indica a consultoria.

Em janeiro, o IPCA teve alta de 0,54%, a maior para o período desde 2016, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Com o resultado, o acumulado em 12 meses chegou a 10,38%, o mais elevado desde novembro de 2021 (10,74%).

O IPCA de fevereiro será divulgado na sexta-feira (11) pelo IBGE. A Necton Investimentos, por exemplo, aposta em alta próxima de 1% no mês, com os preços de alimentos pressionados, aponta André Perfeito, economista-chefe da corretora.

PETRÓLEO NO MAIOR NÍVEL DESDE 2008

Nesta segunda-feira, os preços do petróleo subiram para os níveis mais elevados desde 2008, com o barril do tipo Brent chegando a superar os US$ 139, já que os Estados Unidos e seus aliados europeus avaliavam uma proibição da importação do óleo russo. A medida se somaria às várias sanções adotadas contra o Kremlin depois da invasão da Ucrânia.

Ao mesmo tempo, os futuros de grãos como trigo, soja e milho também eram negociados em seus maiores patamares em anos, afetados por temores de restrição da oferta diante da tensão no Leste Europeu.

A disparada de commodities como o petróleo joga pressão sobre o governo Jair Bolsonaro (PL) às vésperas das eleições. É que as cotações internacionais do produto servem como referência para os valores dos combustíveis praticados pela Petrobras nas refinarias.

Com a alta em meio ao conflito na Ucrânia, o mercado aponta uma defasagem nos preços domésticos, o que abriria margem para novos aumentos no Brasil.

Em entrevista a uma rádio de Roraima, Bolsonaro criticou nesta segunda a paridade internacional adotada pela Petrobras. O presidente defendeu uma revisão na política dos combustíveis.

Uma das propostas na mesa do governo seria a implantação de um programa de subsídios semelhante ao adotado pelo governo Michel Temer (MDB) durante a greve dos caminhoneiros de 2018.

O economista-chefe da Órama Investimentos, Alexandre Espirito Santo, avalia que uma medida nesses moldes poderia atenuar os impactos da guerra e "adiar o problema" dos preços no Brasil.

No caso dos alimentos, Espirito Santo entende que novos avanços são inevitáveis. Além da alta das cotações de itens como trigo e milho, há a pressão de fertilizantes.

A Rússia, de quem o Brasil importa, recomendou aos fabricantes que suspendam as exportações dos insumos usados nas lavouras.

"Os preços de alimentos vão subir. Não tem jeito. Estamos falando de altas expressivas em produtos como milho e trigo", diz Espirito Santo.

O trigo serve como insumo para a produção de itens como pães, massas e biscoitos. Já o milho impacta ovos e aves, por exemplo, porque é usado na alimentação de frangos.

A projeção mais recente da Órama é de IPCA de 5,2% neste ano, mas o número deve ser revisado para cima durante a semana, conforme Espirito Santo.