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m de leitura Atualizado em 25/02/2022, 09:14

Governo Bolsonaro pena para unificar discurso sobre guerra na Ucrânia

PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

RICARDO DELLA COLETTA
AUTOR autor do artigo

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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Um presidente que, em meio a uma mobilização militar russa sem precedentes na fronteira ucraniana, expressa solidariedade a Moscou e se refere a Vladimir Putin como alguém que busca a paz. Um vice que compara as ações do russo à expansão militarista da Alemanha nazista e defende que o Ocidente arme Kiev para combater os invasores. E a chancelaria que promove um malabarismo retórico para, ao mesmo tempo, condenar uma agressão contra o território ucraniano sem responsabilizar diretamente a Rússia.

As diferentes manifestações de autoridades brasileiras sobre a tensão no leste da Ucrânia --que culminou com a invasão russa nesta quinta (24)-- colocaram em evidência a dificuldade da gestão Jair Bolsonaro (PL) de coordenar uma resposta à maior crise de segurança no continente europeu desde a Segunda Guerra.

Deixaram ainda diplomatas estrangeiros que atuam em Brasília se perguntando quem deveriam ouvir para entender a posição do governo federal em relação ao conflito deflagrado.

O principal ruído de comunicação ocorreu ainda na visita oficial de Bolsonaro a Moscou, em 16 de fevereiro.

Naquele momento, os Estados Unidos e aliados ocidentais já denunciavam a mobilização de mais de 150 mil soldados russos nas fronteiras com a Ucrânia. Os americanos chegaram a pedir que Bolsonaro adiasse a viagem, mas essa possibilidade sempre foi descartada pelo mandatário e pelo Itamaraty.

Diplomatas ouvidos pela reportagem avaliam, sob condição de anonimato, que a viagem de um presidente brasileiro à Rússia --parceiro estratégico e sócio do Brics-- não deveria ser um problema, mesmo num momento de tensão.

O receio sempre foi que Bolsonaro desse alguma declaração que fosse interpretada como um endosso do Brasil à mobilização militar russa. Foi o que acabou acontecendo.

Embora genérica, a declaração expressando solidariedade à Rússia --sem especificar a qual aspecto se dava a manifestação-- e a caracterização de Putin como alguém que busca a paz foram lidas como aprovação de Brasília às ações do Kremlin.

Para os EUA e aliados, não era uma questão totalmente periférica, uma vez que o Brasil ocupa no momento um assento não permanente no Conselho de Segurança da ONU, principal órgão internacional onde o tema é debatido.

Diante das declarações de Bolsonaro, o Itamaraty empenhou boa quantidade de tempo e esforço assegurando a diplomatas ocidentais que o governo não havia se alinhado a Moscou.

Com a volta do presidente ao Brasil, o posicionamento do governo diante da escalada de tensões passou a ser centralizado no embaixador do Brasil na ONU, Ronaldo Costa Filho.

Nas manifestações no Conselho de Segurança, Costa Filho tem tentado se equilibrar entre se opor à ameaça contra o território de um integrante da ONU, no caso a Ucrânia, sem apontar o dedo para o Kremlin.

Na noite de quarta-feira (23), o diplomata brasileiro disse que "a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial, a soberania e a independência política de um membro da ONU é inaceitável".

Embora seja uma linguagem dura em relação a manifestações anteriores, Costa Filho não mencionou diretamente o governo da Rússia e passou longe da retórica americana e de aliados europeus que responsabilizam diretamente Putin de violar o direito internacional.

O Itamaraty considera contraproducente disparar críticas contra Moscou. Diplomatas dizem ainda que um discurso mais agressivo contra Putin é algo que as grandes potências podem se permitir; o Brasil não.

Nas falas na ONU, Costa Filho segue destacando que o Brasil defende uma solução negociada.

Na manhã desta quinta-feira (24), no entanto, o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) apresentou uma interpretação do conflito amplamente crítica à Rússia, que vai na contramão da conduta que a chancelaria brasileira tem adotado.

"Tem que haver uso da força, realmente um apoio à Ucrânia, mais do que está sendo colocado. Essa é a minha visão. Se o mundo ocidental pura e simplesmente deixar que a Ucrânia caia por terra, o próximo vai ser a Moldova, depois os Estados bálticos e assim sucessivamente. Igual a Alemanha hitlerista fez no final dos anos 1930", declarou o vice.

A fala de Mourão gerou mal-estar entre diplomatas russos com o governo Bolsonaro, principalmente porque o vice é copresidente da Comissão Brasileiro-Russa de Alto Nível de Cooperação.

Mourão levou uma repreensão pública de Bolsonaro por suas declarações. Em sua live semanal nesta quinta, Bolsonaro desautorizou o vice e disse que ele se intrometeu em assuntos que não lhe competem.

"O artigo 84 da Constituição diz que quem fala sobre assunto é o presidente da República, [que] se chama Jair Messias Bolsonaro. Com todo respeito a essa pessoa que falou isso --e eu vi as imagens, falou mesmo-- está falando algo que não deve, não é de competência dela. É de competência nossa", disse.

"Nós somos da paz, queremos a paz. Viajamos em paz para a Rússia, fizemos um contato excepcional com o presidente Putin, acertamos a questão de fertilizantes para o Brasil."

Para um país que tem tido sua postura diante do conflito questionada por parceiros internacionais, um bom começo seria unificar internamente o discurso sobre o que pensa o governo Bolsonaro da crise na Ucrânia.