Filme mostra gabinete do ódio de MBS, saudita elogiado por Bolsonaro


THIAGO AMÂNCIO
THIAGO AMÂNCIO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O filho de um chefe de estado monta uma espécie de milícia digital para desacreditar, constranger e ameaçar opositores.

O gabinete do ódio instalado no Palácio do Planalto sob a batuta de Carlos Bolsonaro parece coisa de amador frente à máquina de difamação digital montada pelo príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman.

É que fica mais fácil se você herdar um império do petróleo como MBS, apelido dado ao saudita no Ocidente por governantes e empresários pragmáticos o suficiente para ignorarem que o bilionário é reconhecido como mandante do assassinato e esquartejamento do jornalista opositor Jamal Khashoggi.

A proximidade do monarca com a família presidencial brasileira, aliás, está bem documentada.

MBS foi elogiado --em 2019, já sabida sua participação no crime-- pelo presidente Jair Bolsonaro, que disse ter "certa afinidade" com o saudita, de quem afirmou ser "quase irmão". Como bandido bom é bandido citado no Parlamento, este ano foi a vez de outro herdeiro, Eduardo, agradecer a ele no Congresso Nacional.

O assassinato ignorado pelas autoridades brasileiras é a maior chaga na imagem do líder saudita, que assumiu o poder de fato prometendo modernizar o estado totalitário, e é a história contada em "O Dissidente", documentário exibido nesta sexta-feira no festival É Tudo Verdade.

Depois de vencer o Oscar de melhor documentário com "Ícaro", que escancara o esquema institucionalizado de doping de atletas russos, o diretor Bryan Fogel volta a um escândalo envolvendo autocratas inescrupulosos.

O dissidente da vez é Jamal Khashoggi, prestigiado articulista que se virou contra o regime saudita depois da Primavera Árabe em 2011 e acabou se refugiando nos Estados Unidos e na Turquia, onde foi assassinado --ele estava no consulado da Arábia Saudita para regularizar documentos.

O filme tem seus momentos erráticos ao falar de colegas e dos relacionamentos pessoais do jornalista, mas cresce e encontra ritmo quando enfoca os peixes grandes, de ataques coordenados em redes sociais à invasão ao celular de Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo e ex-amigo de MBS.

É a trama principal, no entanto, a mais chocante, ainda que já bem conhecida e documentada -o planejamento, execução e acobertamento do assassinato, com direito a transcrição de áudio do momento do crime e detalhes sobre como se livraram do corpo.

Numa ironia metalinguística, o próprio filme já finalizado também sofreu de uma maneira ou de outra o impacto de desafiar o regime saudita.

A mais direta -a obra recebeu uma chuva de avaliações negativas do dia para a noite nos sites IMDb e Rotten Tomatoes, que os realizadores creditaram ao gabinete do ódio saudita segundo o jornal Washington Post.

A outra é a dificuldade de distribuição internacional do filme, que chega ao Brasil mais de três meses depois de estrear nos Estados Unidos. Isso porque as companhias de streaming, entre elas a Netflix, que distribuiu "Ícaro", não quiseram bancar a peça desta vez. Ela acabou abrigada pela Briarcliff Entertainment, distribuidora independente com algum portfólio em Hollywood mas nanica perto dos gigantes do circuito americano.

Ao jornal The New York Times, Fogel afirmou que as multinacionais se preocupam com como o filme vai ser recebido em mercados mundo afora, dando a entender que o streaming também não pretende desagradar a MBS.

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O DISSIDENTE

Quando Nesta sexta (9), às 21h

Onde É Tudo Verdade

Direção Bryan Fogel

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