Falta à sequência de 'Trainspotting' o frescor juvenil do livro original


SANTIAGO NAZARIAN*
SANTIAGO NAZARIAN*

<p>SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Lançado em 1993, "Trainspotting", o primeiro romance do britânico Irvine Welsh, foi uma sensação literária mundial, retratando uma cena pop de sexo e drogas que ainda parecia fresca na literatura e que gerou o cultuado filme dirigido por Danny Boyle em 1996.

</p><p>Quase três décadas depois, a fórmula não é tão fresca nem tão impactante. Mesmo a linguagem oral -vertida de um inglês da Escócia no original, que pode ser um pesadelo para tradutores- já não soa tão fascinante. Mas, se o impacto é perdido, é o momento de se apreciar com mais conforto o humor e o talento de Welsh como contador de histórias.

</p><p>Difícil precisar em qual número da sequência de "Trainspotting" encaixar "A Calça dos Mortos", que a Rocco acaba de lançar no Brasil. A editora afirma que é o quinto, mas a história traz diversos personagens de Welsh, alguns até que não tinham relação com seu romance original, em algo que poderíamos chamar de "welshverso" -o universo compartilhado de personagens de Welsh, como se tornou comum fazer no cinema com personagens de histórias em quadrinhos.

</p><p>Aqui, temos Mark Renton, o junkie interpretado por Ewan McGregor no filme, como um bem-sucedido empresário de DJs; Sick Boy como um cafetão virtual de acompanhantes de luxo; Franco Begpie como um artista plástico de gosto duvidoso e carreira em alta; Daniel Spud trabalhando como mula do tráfico de órgãos e drogas.

</p><p>São todos homens brancos héteros de meia-idade -caminhando para a terceira- ainda em buscas juvenis, em crises com suas escolhas, que escorregam sempre da alta sociedade para a sarjeta. Num cenário de viagens de trem e avião entre Los Angeles, Berlim, Amsterdã e Edimburgo eles se reencontram e tentam acertar as contas com esquemas arriscados e duvidosos.

</p><p>Não deixa de ser divertido. Um universo hipermasculino, de drogas, bebidas, gângsteres, mulheres e futebol. Mas é um bom exemplo de que, ao contrário do que prega o senso comum, a maturidade nem sempre vem a favor da literatura ou é a qualidade ideal a ser perseguida.

</p><p>O frescor da juventude e das primeiras publicações de um autor pode trazer uma força que se perde com o tempo -principalmente com as indulgências de uma carreira bem-sucedida.

</p><p>Welsh parece querer discutir isso em seu subtexto, com personagens de sua geração que, como ele, "chegaram lá" e não se sentem confortáveis com isso.

</p><p>A proposta de "A Calça dos Mortos" gera paradoxos. Como tudo na escrita atual de Welsh, não é nada novo -então se o livro segue a toada do romance original, não segue a intenção de ser original em si; se pode atrair quem acompanha seus personagens, também pode cansar quem já conhece a fórmula; e quem é novo no "rolê" pode ser afastado pelo excesso de referências e "Easter eggs" destinados a quem já conhece bem o trabalho do autor.

</p><p>Para um leitor ocasional do "welshverso" como eu, dá para acompanhar numa boa -é uma leitura bem prazerosa e descartável.

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</p><p>*Escritor e tradutor, é autor de "Fé no Inferno" (Companhia das Letras)

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</p><p>A CALÇA DOS MORTOS

</p><p>Avaliação: regular

</p><p>Autor: Irvine Welsh

</p><p>Editora Rocco

</p><p>Tradução Ryta Vinagre

</p><p>Preço: R$ 89,90 (432 págs.); R$ 44,90 (ebook)</p>

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