São Paulo - O município de Serrana (a 316 km de São Paulo) será palco do primeiro estudo no mundo a avaliar a chamada efetividade das vacinas contra Covid-19, isto é, qual a sua eficácia quando utilizada em massa na população. O estudo, chamado de Projeto S, foi desenhado e desenvolvido pelo Instituto Butantan em parceria com o Hospital Estadual de Serrana, ligado ao governo do estado, e com a Prefeitura Municipal de Serrana.

A Coronavac, vacina é desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac e produzida no país em parceria com o Instituto Butantan
A Coronavac, vacina é desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac e produzida no país em parceria com o Instituto Butantan | Foto: Carl de Souza/AFP

Serrana faz parte do departamento regional de saúde de Ribeirão Preto, cidade distante 10 km do município. A classificação da pandemia na região segundo o Plano SP é fase laranja. O município teve, até o último domingo (7), 1.638 casos de Covid-19 e 52 óbitos registrados.

A Coronavac, vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac e produzida, no país, em parceria com o Instituto Butantan, possui eficácia comprovada em ensaio clínico realizado no Brasil de 50,38%.

Mas a eficácia de um imunizante, calculada durante um ensaio clínico, desenhado para avaliar o desfecho de milhares de pessoas que recebem a vacina em comparação às que receberam um composto inócuo (placebo), é diferente da efetividade da mesma quando usada na população como um todo. Isso ocorre porque os perfis de idade, exposição e históricos dos participantes de um estudo nem sempre correspondem ao observado na população.

O objetivo do Projeto S, cujo nome, segundo Dimas Covas, refere-se a "projeto secreto", é justamente avaliar essa efetividade quando o composto é colocado para uso em larga escala.

O município de Serrana possui 45 mil habitantes, dos quais cerca de 30 mil têm 18 anos ou mais. Os moradores da cidade não serão obrigados a participar da pesquisa, mas todos aqueles que aceitarem participar receberão duas doses da vacina Coronavac. De acordo com o instituto, as doses alocadas para esse estudo não são as mesmas que estão sendo distribuídas para vacinação em todo o país, e por isso não vão interferir no calendário de vacinação nacional.

Esse tipo de estudo, ainda segundo Covas, chama-se "estudo escalonado de conglomerados". A ideia é dividir a população em quatro grupos, segundo os bairros da cidade, e cada grupo irá receber a 1ª dose em fases distintas. Com esse escalonamento, é possível avaliar, em tempo real, qual a eficácia do imunizante em diminuir os casos de Covid-19 no município, bem como avaliar outras medidas como a diminuição da circulação do vírus e da carga do serviço de saúde.

"Quando pensamos em realizar esse estudo, o primeiro do mundo com esse desenho, há 7 meses, a primeira pergunta que surgiu foi: onde aplicar? A escolha se deu com base em três fatores: o tamanho do município deveria ser pequeno, caso contrário necessitaríamos de um grande quantitativo de vacinas, teria que ter uma taxa de infecção elevada, para poder avaliar o efeito da vacina na contenção do vírus, e em terceiro lugar o município deveria conter ou estar próximo a um centro de pesquisa, de preferência ligado ao estado. E o município de Serrana contempla todos esses fatores", disse Dimas Covas, em entrevista a jornalistas na tarde desta segunda-feira (8), no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo.

As vacinas contra Covid-19 testadas e em uso até o momento foram eficazes em diminuir a evolução da doença e impedir a hospitalização e morte, mas pouco se sabe sobre a sua capacidade de reduzir a cadeia de transmissão do vírus.

Na última terça-feira (2), a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford/AstraZeneca, divulgou ainda em um artigo sem revisão de pares resultados que apontam para uma capacidade de reduzir a transmissão do vírus em até 70%. A expectativa do instituto é de demonstrar que a Coronavac também possui essa capacidade.

Os indivíduos serão vacinados em oito escolas escolhidas para realizar a vacinação e o acompanhamento do estudo será feito pelos pesquisadores e médicos do Hospital Estadual de Serrana em parceria com a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo).

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