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m de leitura Atualizado em 26/02/2022, 19:38

Entenda como modernismo na América Latina vai além da Semana de 1922

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sábado, 26 de fevereiro de 2022

SYLVIA COLOMBO
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BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Enquanto no Brasil ocorria a Semana de Arte Moderna, corria na América Latina um clima de efervescência criativa que podia ser observado em quase todos os países. Os anos 1920 foram os das vanguardas artísticas, que trouxeram novidades às culturas de cada país e estavam intimamente conectadas em suas origens e na troca de experiências e contatos entre os artistas.

De um modo geral, essas vanguardas surgiram como reflexo das importantes mudanças sociais marcadas por eventos como a Primeira Guerra Mundial, que ocorreu entre 1914 e 1918, e a revolução socialista de 1917, seguida da criação da União Soviética. A ideia geral era romper com a forma e o conteúdo tradicional da arte clássica, usar distintas técnicas de criação numa arte legitimamente nacional.

"Os artistas dos anos 1920 da América Latina tinham como referência as transformações que ocorriam em Paris e na Alemanha, em menor medida na Espanha e nos Estados Unidos. E aqui no sul alguns desses artistas funcionavam como antenas, escrevendo, lendo e consumindo revistas vanguardistas de vários países, como o peruano José Carlos Mariátegui e o brasileiro Mário de Andrade", diz Jorge Schwartz, professor aposentado de literatura hispano-americana da Universidade de São Paulo.

Em dezembro de 1921, um manifesto surgiu nas paredes da Cidade do México. Seu autor era Manuel Maples Arce, morto em 1981. Jovem poeta e escritor, é considerado um dos fundadores do vanguardismo latino-americano do século 20.

O manifesto lançava oficialmente o estridentismo, movimento artístico que reuniu escritores, fotógrafos, escultores, músicos e artistas plásticos. "O modo como o estridentismo se opôs a uma tradição cultural mais clássica criou uma fricção que está presente até hoje na arte e na cultura mexicana", conta o escritor e crítico mexicano Rafael Toriz.

No estridentismo, os símbolos da modernidade -como os arranha-céus da Cidade do México, a confusão do trânsito e do comércio de rua da capital- conviviam com os símbolos da Revolução Mexicana, ocorrida em 1910.

Porém, para enfrentar o centralismo da cultura mexicana, que emanava da capital do país, os estridentistas se refugiaram na cidade de Xalapa, capital do estado de Veracruz. Só a mudança já dava ao movimento uma característica utópica de ato fundacional da arte mexicana, segundo sua visão, enquanto enfrentava o "establishment" da arte mexicana tradicional. Estridentópolis, como foi rebatizada informalmente a cidade, virou um efervescente centro de difusão de cultura, realização de eventos, atos, exposições e iniciativas educacionais.

Na Argentina, um dos destaques da produção artística dos anos 1920 foi Xul Solar, que viveu entre 1887 e 1963. Segundo Schwartz, "o único artista que incorporou de forma sistemática o Brasil em seu imaginário". Foi pintor, escultor, escritor, astrólogo e linguista.

Em sua obra, abundam termos em português e no chamado "mestizo criollo", linguagem popular argentina. Apesar de nunca ter visitado o Brasil, bandeiras do país e referências à Amazônia estavam em sua obra, assim como várias palavras do vocabulário brasileiro, tupi e afro-brasileiro. Entre seus livros, está uma edição de "Macunaíma", enviada autografada por Mário de Andrade.

Muito próximo ao escritor Jorge Luis Borges, cuja obra poética do início de sua carreira também é considerada vanguardista, Xul Solar era vidrado em astrologia, no esoterismo e nas mitologias. Muito culto, podia ler em quase 20 idiomas, incluindo o sânscrito, o guarani e o russo. Criava a partir de línguas construídas com a mistura desses idiomas em busca do "neo-criollo".

Também da Argentina, é necessário destacar na década de 1920 a obra de Oliverio Girondo. Tendo como referência os simbolistas franceses, viajou no início da década pela Europa e visitou o Brasil. Justamente em 1922, quando ocorria a Semana de Arte Moderna, lançou seus "Veinte Poemas para Ser Leídos en el Tranvía", ilustrados por ele mesmo. Eram peças que exaltavam a vida urbana, o cosmopolitismo e realizavam uma crítica dos costumes.

Girondo dialogava, também, com a modernidade arquitetônica inaugurada pela obra de Le Corbusier e admirava o construtivismo representado por cubos e volumes. Em alguns anos, enveredaria também pela crítica de arte, e em 1932, publicou "Espantapájaros", um livro composto por prosas poéticas e poemas em verso.

Para Schwartz, Girondo "foi vanguarda no sentido mais tradicional e histórico do termo e em praticamente todas as etapas de sua produção".