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m de leitura Atualizado em 26/02/2022, 13:35

Empresas não sabem se estão indo bem ou mal na agenda ESG

PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de fevereiro de 2022

THIAGO BETHÔNICO
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Não é possível gerenciar aquilo que não é medido. Esse conceito da administração ganhou novo sentido em meio à proliferação de compromissos ESG (ambiental, social e governança, na sigla em inglês).

Com investidores direcionando mais capital para negócios sustentáveis, muitas empresas têm corrido para anunciar suas metas e implementar boas práticas. O desafio, porém, é conseguir medir o desempenho nessa agenda.

Diferentemente das questões financeiras, a sustentabilidade não consegue ser avaliada por meio de indicadores objetivos, como faturamento, margem de lucro e fluxo de caixa.

Uma pesquisa feita pela consultoria Accenture com empresas que relataram mais de US$ 1 bilhão em receita mostrou que a dificuldade em avaliar, relatar e gerenciar o desempenho sustentável é generalizada, o que pode inclusive prejudicar o cumprimento de metas ESG.

Segundo o relatório, apenas 26% das companhias possuem informações claras e confiáveis para monitorar seus objetivos de sustentabilidade.

O levantamento também indica que, embora a maioria (78%) dos executivos esteja buscando entender os riscos ESG em seus negócios, somente 47% definiram as principais métricas e fontes de dados para seus relatórios.

Celso Lemme, professor de finanças e sustentabilidade da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), diz que fazer esse acompanhamento é desafiador, mas houve grandes avanços ao longo dos últimos anos.

Um dos motivos apontados por ele é a disseminação dos sistemas de relato --os chamados "frameworks"-- como o GRI (Global Reporting Initiative), o TCFD (Task Force on Climate-Related Financial Disclosures) e o CDP (Carbon Disclosure Project).

"Essa sopa de letrinhas nem sempre é simples de usar, mas é muito útil para dar uma estrutura de informação", afirma o professor, que integra os conselhos do CDP e GRI.

As iniciativas fornecem modelos para as companhias divulgarem suas informações "não-financeiras", como emissões de carbono, gestão de resíduos e relações trabalhistas.

No entanto, a pluralidade de indicadores não necessariamente ajudou a dar mais transparência. Pelo contrário, o excesso de abordagens causou uma polifonia para os investidores e para as próprias empresas.

Tantas métricas levaram o mercado a uma busca por padronização. Em 2020, as quatro grandes firmas de auditoria (Deloitte, PwC, KPMG e EY), chamadas de Big Four, se uniram para criar uma estrutura comum de relatórios ESG.

A medida, liderada pelo International Business Council, braço do Fórum Econômico Mundial, procura incentivar grandes empresas a adotarem os padrões.

Iniciativa semelhante foi anunciada durante a COP26, a conferência do clima da ONU. A Fundação IFRS, responsável pelas normas internacionais de contabilidade corporativa, inaugurou o ISSB (International Sustainability Standards Board), com o objetivo de definir padrões de divulgação sustentável para as empresas. A ideia é ajudar investidores e permitir que as informações sejam comparáveis.

Ricardo Assumpção, diretor-executivo da consultoria Grape ESG, diz que a profusão de modelos adotados gerou confusão no mercado. "Existe hoje uma grande pressão dos investidores para arrumar essa bagunça", afirma.

Segundo ele, a forma como a sustentabilidade é medida atualmente é falha, o que pode ser percebido na discrepância entre as avaliações de agências de rating (classificação).

"Se uma empresa vai bem em um índice, não há garantia nenhuma de que ela será bem avaliada em outro", diz.

Por se tratar de um tema complexo e menos sujeito a indicadores objetivos, o desempenho sustentável de uma companhia fica refém de decisões metodológicas.

Certo índice ESG pode dar mais peso a questões ambientais, enquanto outro valoriza os aspectos de governança. A consequência disso é que a avaliação de uma mesma empresa sofre variações bruscas de um índice para outro.

Um estudo da escola de negócios do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) avaliou a discrepância entre as maiores agências de ratings ESG do mundo e concluiu que a forma de monitorar o tema é confusa e desbalanceada.

Os pesquisadores descobriram que a correlação entre as notas dadas por organizações como MSCI, Sustainalytics e Refinitiv foi em média 0,61 --indicando um baixo alinhamento entre elas. A escala varia de zero (nenhuma correlação) a um (máxima correlação). Os ratings de crédito da Moody's e da S&P, por exemplo, estão correlacionados em 0,92.

Para Assumpção, iniciativas como o ISSB são positivas, pois facilitam o trabalho das empresas e dos investidores.

"Isso é essencial para conseguirmos comparar a sustentabilidade. Hoje, a sustentabilidade é incomparável no mundo todo --e no Brasil mais ainda", afirma.

Celso Lemme, da UFRJ, também acredita que os esforços de convergência são meritórios, mas faz uma ressalva: padronizar demais pode tirar a essência do ESG.

"Se não há padrão nenhum, as empresas ficam perdidas, mas se o padrão é absoluto vira camisa de força. A métrica não pode ser o alvo, ela é a flecha."

Relatórios de sustentabilidade refletem pouco o que a empresa faz O professor diz que as empresas estão medindo seus desempenhos em sustentabilidade de forma cada vez melhor e frequente, mas realçando só o que julgam estar indo bem.

Ele compara os relatórios aos currículos profissionais. "Geralmente as pessoas não mentem, dizendo fazer algo que não é verdade, mas dão mais destaque àquilo que fazem de melhor", diz.

Segundo Lemme, é fundamental considerar a materialidade, isto é, os temas que são impactados pela atividade da empresa. "Economia de recursos hídricos, por exemplo, não deve ter o mesmo peso na análise ESG de um banco e de uma empresa de bebidas."

Os exageros em divulgações de sustentabilidade foram abordados em artigo da Harvard Business Review. A publicação argumenta que, embora os relatórios tenham se multiplicado nos últimos 20 anos, as emissões de carbono e os danos ambientais continuaram aumentando, assim como as desigualdades sociais.

"Relatório não é uma proxy [procuração] para o progresso. A medição é, muitas vezes, fora do padrão, incompleta, imprecisa e enganosa", diz o artigo. "Pior ainda, o foco em relatórios pode realmente ser um obstáculo ao progresso [...], desviando a atenção da necessidade real de mudanças de mentalidade, regulamentação e comportamento corporativo", acrescenta.

Métricas ESG indicam processo, não o impacto Outro desafio para que uma empresa consiga avaliar seu desempenho sustentável é a ausência de indicadores. Nem todas as questões socioambientais são traduzidas em métricas precisas.

A contribuição de uma companhia para o efeito estufa, por exemplo, pode ser medida pela quantidade de carbono que ela emite. Já os impactos na biodiversidade, por exemplo, não são tão fáceis de monitorar.

Em outros casos, indicadores de processo se confundem com os de impacto, como acontece nas metas de diversidade. Empresas conseguem medir a quantidade de pessoas negras e de mulheres nas equipes, mas não necessariamente capturam o resultado almejado: decisões corporativas que refletem múltiplas perspectivas.

Marcos Rodrigues, sócio da BR Rating, primeira agência brasileira de classificação de risco ESG, concorda que não é fácil para uma empresa saber o seu estágio sustentável. No entanto, ele diz haver formas de se aproximar desse entendimento.

As análises independentes são uma delas. Em vez de responder a um questionário genérico, a companhia passa por uma avaliação aprofundada feita por terceira parte, com auxílio de entrevistas e documentos.

"Com outra companhia avaliando, a empresa não vai divulgar o que ela quer. O greenwashing [propaganda enganosa verde] ocorre, na maioria das vezes, com o uso da informação incorreta ou mentirosa. Ter uma análise independente garante mais transparência", afirma.