Embaixador dos EUA no Brasil anuncia aposentadoria e abre espaço para nova indicação de Biden (1)


RICARDO DELLA COLETTA E MARINA DIAS
RICARDO DELLA COLETTA E MARINA DIAS

BRASÍLIA, DF, E WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - O embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Todd Chapman, anunciou nesta quinta-feira (10) que vai se aposentar e que deixará a chefia da representação diplomática em Brasília daqui a 30 dias.

"Servir os Estados Unidos é uma honra e definiu a minha vida. Com emoções mistas, escrevi ontem [quarta-feira, 9] para o presidente Joe Biden para informar minha decisão de me aposentar do serviço público depois de 30 anos de carreira, por razões pessoais positivas", escreveu Chapman no Twitter.

No post, ele também destacou o trabalho realizado durante sua carreira em oito países na América Latina, na África e na Ásia, atuando tanto em governos de presidentes republicanos quanto de democratas.

"Passarei meus próximos 30 dias no Brasil fazendo ativamente minha parte como embaixador dos EUA para continuar avançando na relação Brasil-EUA, mais forte do que nunca, na direção positiva que está seguindo", disse. Diplomata de carreira, Chapman chegou ao Brasil ainda no governo Donald Trump, em março de 2020.

Quando deixar o serviço exterior americano, a representação passará a ser comandada interinamente pelo diplomata Douglas Koneff. Com a saída, caberá a Biden indicar um novo embaixador para o Brasil, e o perfil do substituto será um forte indicativo do que Washington espera para a relação bilateral.

A designação de um nome com forte atuação na área ambiental, por exemplo, sinalizaria que Biden pretende renovar as pressões sobre o Brasil nesse tema. Desde o início de seu mandato, o presidente Jair Bolsonaro se declarou um admirador de Trump e afirmou que torcia pela reeleição do republicano.

Nesse período, o Brasil endossou diversas iniciativas do governo Trump e contou com a boa vontade dos americanos em temas sensíveis, como o avanço do desmatamento na Amazônia. Em seu primeiro ano em Brasília, Chapman foi peça importante do alinhamento entre Trump e Bolsonaro. Não tardou em se aproximar de figuras-chave do bolsonarismo, como o filho do presidente, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

Um de seus primeiros gestos no comando da missão diplomática foi receber Bolsonaro e assessores do governo para um almoço em celebração ao Dia da Independência dos EUA, em 4 de julho de 2020.

Com a vitória de Biden, a situação mudou. O novo presidente dos EUA trouxe o ambiente para o centro da relação bilateral com o Brasil —uma área em que o país acumula sucessivos dados negativos.

Antes um ativo, a identificação de Chapman como um diplomata com laços estreitos com o bolsonarismo tornou-se um problema na gestão Biden. Auxiliares do democrata avaliam que o embaixador não tem o perfil ou sintonia com o novo governo. Assim, a possível troca vinha sendo analisada em Washington.

Um dos episódios que mais desagradaram a aliados do democrata aconteceu em janeiro, quando Bolsonaro —repetindo o discurso de Trump— disse acreditar que as eleições que deram a vitória a Biden tinham sido fraudadas. A avaliação foi que Chapman, na ocasião, não respondeu de maneira assertiva à interferência do presidente brasileiro num assunto interno dos EUA —e altamente sensível, principalmente após a invasão do Capitólio por apoiadores do republicano.

Outro episódio envolvendo o atual embaixador no Brasil que gerou incômodo entre os democratas ocorreu em 2020, antes da derrota de Trump. Os governos Bolsonaro e Trump vinham negociando a extensão de uma cota de etanol americano que poderia entrar no Brasil livre de tarifas.

Nas conversas, segundo pessoas que acompanharam o tema, Chapman usou argumentos políticos a interlocutores brasileiros, entre os quais o de que a ampliação da cota de importação poderia influenciar a disputa eleitoral em estados produtores de milho, em benefício a Trump.

O embaixador americano nega que tenha defendido a reeleição do republicano nas conversas. A situação rendeu a Chapman uma reprimenda pública do então presidente do Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos EUA, Eliot Engel.

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