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m de leitura Atualizado em 16/03/2022, 10:38

Em 'Drive My Car', que pode ser novo 'Parasita' no Oscar, o amor surge do silêncio

PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de março de 2022

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
AUTOR autor do artigo

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CANNES, FRANÇA (FOLHAPRESS) - Ator e diretor de teatro, Kafuku é apaixonado por sua mulher, a roteirista Oto, cujas traições finge ignorar. Quando ela morre inesperadamente, deixando uma revelação em suspense, Kafuku se desestrutura e só se reencontra completamente ao ser conduzido pelo Japão por uma arredia motorista.

Baseado no conto "Drive My Car", de Haruki Murakami, o filme de mesmo nome rendeu ao diretor Ryusuke Hamaguchi quatro indicações ao Oscar, incluindo a de melhor filme, além do prêmio de melhor roteiro do Festival de Cannes do ano passado.

Há quem acredite, inclusive, que ele pode se tornar um novo "Parasita", que levou as estatuetas de melhor filme internacional e melhor filme em 2020, além da Palma de Ouro em Cannes. O próprio Bong Joon-ho, fã declarado de Hamaguchi, acha que o trabalho deve se sair bem na premiação.

A ficção do escritor japonês, porém, é só um ponto de partida para uma história mais complexa. Hamaguchi mescla ao enredo principal outras duas narrativas --o conto "Scheherazade", do mesmo livro "Homens sem Mulheres", de Murakami, e a encenação da peça "Tio Vânia", do russo Anton Tchekhov.

O fio condutor é a intimidade que se estabelece progressivamente entre Kafuku e Misaki, a motorista que é imposta a ele pela organização de uma instituição cultural, dois anos depois da morte de sua mulher.

De início, Kafuku insiste em dirigir seu próprio carro, um Saab vintage vermelho que ele conserva cuidadosamente. É nesse ambiente protegido e particular que ele se reencontra com a mulher, em fitas cassete nas quais ela gravava peças de teatro.

O fato de que o chofer oferecido pelo festival é uma mulher o deixa ainda mais apreensivo, mas basta um passeio experimental para que ele se renda ao jeito seguro e suave de Misaki ao conduzir.

Calada a maior parte do tempo, a motorista se interessa pela peça de Tchekhov, que ouve repetidas vezes enquanto dirige, e pela técnica de Kafuku --em vez de fazer seus atores ensaiarem, ele os obriga a ler o texto repetidas vezes, sem qualquer interpretação.

Misaki também compreende por que ele formou um elenco multinacional --atores coreanos, chineses, filipinos e japoneses, cada um atuando em seu próprio idioma, o que inclui uma atriz muda, que se expressa na língua coreana de sinais.

Do mesmo jeito que seu protagonista, a intenção de Hamaguchi era fazer uma "obra universal", disse ele em entrevista exclusiva a esta repórter logo depois da estreia de seu longa no Festival de Cannes.

"Em geral, nos comunicamos com palavras, e é com elas que nos entendemos quando falamos a mesma língua. Mas, quando perdemos esse código comum, descobrimos outros meios de conexão. Ao prestar atenção nos outros, sentimos a emoção que emana deles", diz o diretor.

Em "Drive My Car", Hamaguchi volta a esmiuçar contradições e sutilezas dos sentimentos, como em "Paixão", de 2008, "Happy Hour", de 2015, "Asako 1 & 2" de 2018, e "Roda do Destino", que ganhou o prêmio do júri no Festival de Berlim do ano passado.

Aos poucos, motorista e passageiro trocam confidências sobre dramas passados, remorsos e esperanças, aproximação que se intensifica enquanto o Saab vermelho atravessa o país, de Hiroshima até Hokkaido, onde Misaki viveu sob o jugo de uma mãe cruel.

Hamaguchi diz que entrelaçou outras narrativas ao conto de Murakami justamente para preencher o silêncio inicial. "São personagens muito ricos, e um monólogo ou um narrador --recursos que funcionam num texto escrito-- não me pareciam a solução ideal", diz ele.

Com isso, a duração do filme se estendeu a três horas, bem mais que o previsto inicialmente. Ele havia ido ainda mais longe em "Happy Hour", que chegou a cinco horas. "Felizmente tenho produtores que permitem que eu exercite minha imaginação", diz Hamaguchi.