Dos bailes de Seu Osvaldo ao D-Edge e à Mamba Negra, cultura do DJ inspira mostra


JOÃO PERASSOLO
JOÃO PERASSOLO

<p>SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No final dos anos 1950, quem passava em frente à antiga loja de departamentos Mappin, no centro de São Paulo, recebia uma circular do tamanho de uma folha de ofício anunciando os bailes do Seu Osvaldo.

</p><p>Em suas noitadas, o primeiro disc-jóquei do Brasil recepcionava o público tocando Ray Conniff, jazz dançante e chá-chá-chá num toca-discos acoplado a um pré-amplificador e a caixas de som, um conjunto avançado para a época.

</p><p>Nas décadas seguintes, o equipamento de som foi se sofisticando e novos estilos musicais, surgindo. Os anos 1970 viram o aparecimento da Techcnis, um toca-discos que praticamente inventou a cultura do DJ como a conhecemos hoje, em torno do então nascente hip-hop, estilo de música da comunidade negra do Bronx nova-iorquino que ganhou popularidade nos anos 1980.

</p><p>Essas revoluções culturais ocorriam sempre em torno do DJ, responsável por ditar o ritmo de noitadas marcantes para muita gente. Agora, esta figura central para a vida noturna de São Paulo ganha um espaço público na cidade dedicado à sua história e também uma exposição celebrando seus 60 anos atrás dos toca-discos.

</p><p>A mostra "60 Anos de Discotecagem em SP", que começa a receber o público a partir da segunda quinzena de maio, na Galeria do DJ Sônia Abreu -a primeira disc-jóquei brasileira-, reúne centenas de flyers, discos, fitas e figurinos de festas num espaço na Galeria Olido, no centro de São Paulo. Sim, as circulares do DJ Osvaldo e uma Technics de época estão expostas.

</p><p>"O DJ há muito pouco tempo é considerado profissional, alguém que pode viver de sua profissão. Em muitas entrevistas que fiz com DJs dos anos 1980, os pais achavam que eles eram vagabundos, não trabalhavam. É preciso legitimar como cultura os bailes, as festas e os DJs", afirma Claudia Assef, uma das idealizadoras do espaço e organizadora da exposição.

</p><p>Pensada em ordem cronológica, a mostra dedica espaços a determinados clubes, personalidades e DJs que fizeram história. Há figurinos usados por frequentadores da Gallery nos anos 1970, flyers de baladas famosas dos anos 1980, como o Madame Satã, e vasto material da cena de raves e da explosão do drum'n'bass na década de 1990, incluindo uma bandeira da festa Avonts e um tênis usado pelo DJ Marky.

</p><p>A cena hip-hop também ganha destaque, com o primeiro toca-discos de KL Jay, exposto próximo a material iconográfico da cena atual de festas, como cartazes da Mamba Negra e figurinos extravagantes usados pelo DJ Paulo Tessuto na sua balada Capslock.

</p><p>Quem deu carta branca para o projeto foi o secretário municipal de Cultura da cidade, Alê Youssef, que diz ver o DJ como um "agregador cultural, fundamental na propagação e difusão artística da cidade".

</p><p>Ele conta que havia chamado Assef, uma jornalista especializada em cultura da noite, para trazer uma nova programação à Galeria Olido, com a ideia de integrar o espaço ao seu entorno, atingindo o público frequentador da Galeria do Rock e da rua Dom José de Barros, onde há diversos bares.

</p><p>Como a jornalista tinha engavetado há anos o projeto de um museu do DJ, a prefeitura acabou bancando a ideia e criando o que é provavelmente um dos únicos equipamentos públicos do mundo dedicado à cultura da noite. O investimento foi de R$ 382 mil.

</p><p>São Paulo é reconhecida internacionalmente pela sua vida noturna, tanto na iniciativa privada quanto na pública. Clubes como o D-Edge, por exemplo, que está representado na mostra, aparecem frequentemente nas listas de melhores baladas do mundo, e trazem centenas de DJs de fora para a cidade, todos os anos, além de incentivarem os talentos locais, que em seguida passam a fazer turnês internacionais.

</p><p>E megaeventos como o SP na Rua, promovidos pela prefeitura, levam dezenas de milhares às ruas do centro da cidade -em 2018, por exemplo, foram 50 mil pessoas dançando em dez horas seguidas de festa.

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