Conselho diz que evitou humilhação maior de líder europeia na Turquia; Draghi chama Erdogan de ditador


ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
ANA ESTELA DE SOUSA PINTO

BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - O primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, chamou o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, de ditador ao responder a uma pergunta sobre o tratamento dispensado à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em evento na Turquia nesta terça (6) batizado de sofagate.

Von der Leyen foi escanteada explicitamente durante sessão para fotos em um salão do complexo presidencial em Ancara: a visita à Turquia foi feita por ela e pelo presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, mas havia apenas uma poltrona ao lado da destinada a Erdogan.

Como Michel ocupou esse assento, a presidente da Comissão teve que se sentar em um sofá lateral, distante dos dois líderes homens e em posição mais baixa.

"Não aprovo o comportamento de Erdogan em relação à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Acho que foi um comportamento impróprio, e me desgosta muito a humilhação que a presidente da Comissão Europeia teve de sofrer", disse ele, após pergunta em entrevista coletiva.

Draghi porém não respondeu à segunda parte da questão, sobre o que ele teria feito se estivesse no lugar de Charles Michel -o presidente do Conselho foi acusado por políticos e comentaristas de ter aceitado passivamente o constrangimento imposto a Von der Leyen.

HUMILHAÇÃO MENOR

A humilhação poderia ter sido ainda pior, a julgar por comunicado do chefe de protocolo do Conselho Europeu, Dominique Marro, divulgado nesta quinta. Segundo ele, foi por sua intervenção que a presidente da Comissão não recebeu uma cadeira menor também na sala de jantar.

Marro afirmou ainda que foi graças à sugestão de Michel que Von der Leyen não foi excluída da fotografia que registrou o evento.

O relatório do chefe de protocolo diz que houve uma reunião na segunda (5), véspera do encontro, entre as equipes da presidência turca e do Conselho, e ressalta que o cerimonial da Comissão não estava presente -segundo o porta-voz de Von der Leyen, Eric Mamer, porque viagens estão limitadas durante a pandemia.

"Uma breve visita ao local ocorreu, mas as salas de reunião e de jantar não eram acessíveis, apesar de nossos pedidos, porque eram consideradas muito próximas ao escritório do presidente Erdogan", diz Marro.

Segundo o chefe de protocolo, se o salão tivesse sido visitado, ele teria sugerido "que, por cortesia, substituíssem o sofá por duas poltronas, para acomodar a presidente da Comissão".

"Na sala de jantar, à qual nos foi dado acesso alguns momentos antes, tivemos o tamanho das três cadeiras para os VIPs realinhadas, em benefício da presidente da Comissão", afirma o chefe do cerimonial de Michel.

Ainda de acordo com a nota, "foi o presidente do Conselho Europeu que sugeriu que a presidente da Comissão também fosse incluída na fotografia dos dois presidentes para ilustrar a reunião".

Marro procurou justificar o segundo plano a que Von der Leyen foi relegada, dizendo que "o protocolo para países terceiros faz uma clara distinção entre o status de chefe de Estado, detido pelo presidente do Conselho Europeu, e o status de primeiro-ministro, mantido pela presidente da Comissão".

Eric Mamer refuta que haja diferenças de grau e diz que se tratava de uma reunião trilateral, além de os presidentes de instituições europeias terem o mesmo status.

"Foi uma visita de dois presidentes, que deveriam ter sido tratados exatamente da mesma forma", disse Mamer.

Em encontro em 2015 entre Erdogan e presidentes homens do Conselho e da Comissão Europeia -Donald Tusk e Jean-Claude Juncker-, o presidente turco providenciou poltronas semelhantes para ambos e fê-los sentar a seu lado.

Mamer voltou a dizer, porém, que Von der Leyen ignorou o incidente em suas manifestações, e que ele só mencionou o assunto para responder aos repórteres. "A presidente da Comissão se ateve à substância do evento e aproveitou para reforçar seu ponto de vista dos assuntos tratados na visita", disse.

Na Itália, o premiê Mario Draghi defendeu conduta semelhante. "Com esses... Vamos chamá-los do que são, ditadores, no entanto, há necessidade de colaborar. É preciso ser franco ao expressar nossa diversidade de opiniões e visões de sociedade, mas é preciso colaborar, ou antes, cooperar para assegurar os interesses de seu país. É preciso encontrar o equilíbrio", acrescentou Draghi, antes de engatar uma resposta sobre a Líbia.

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