|
  • Bitcoin 144.391
  • Dólar 4,8243
  • Euro 5,1596
Londrina

Últimas Notícias

m de leitura Atualizado em 16/03/2022, 19:11

Condutor de trem que bateu na estação Júlio Prestes, em São Paulo, é demitido (1)

PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de março de 2022

WILLIAM CARDOSO
AUTOR autor do artigo

menu flutuante

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sobrecarregados, com treinamento considerado insuficiente por colegas mais velhos e ganhando menos do que seus antecessores. Com jornadas diárias de mais de 12 horas de trabalho e quatro meses de aprendizado, novos maquinistas das linhas 8-diamante e 9-esmeralda conduzem trens que chegam a carregar 2.000 pessoas simultaneamente pelos trilhos da Grande São Paulo.

Nesta quarta-feira (16), a ViaMobilidade afirmou que foi demitido o responsável pela condução do trem que se chocou, na semana passada, contra a barreira de contenção da estação Júlio Prestes, no centro de São Paulo. Segundo a concessionária, não houve "acionamento do sistema de freio no ponto necessário, pelo operador que não faz mais parte do quadro de colaboradores da concessionária". A reportagem não conseguiu contato com o maquinista até a publicação deste texto.

As causas do acidente ainda estão em investigação, segundo a Secretaria da Segurança Pública.

Um condutor ouvido pela reportagem diz que a maioria dos maquinistas não sabe como recolher o trem até a oficina em Presidente Altino, operação que envolve, por exemplo, a mudança de canais de comunicação para evitar acidentes

Na tarde desta quarta, representantes da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) e da Secretaria dos Transportes Metropolitanos), sob gestão do governador João Doria (PSDB), terão reunião com integrantes da ViaMobilidade. O jornal Folha de S.Paulo mostrou, no último dia 3, a existência de uma série de falhas nas estações e na operação dos trens das linhas 8 e 9.

A falta de tempo para treinar a mão de obra para a nova atividade é apontada com a vilã da transição. Segundo pessoas ouvidas pela reportagem, o treinamento de um novo maquinista da ViaMobilidade dura cerca de quatro meses. Na CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), no passado, levava oito meses para aprender, mais dois sob supervisão. Hoje, segundo a companhia, são cinco meses, mais período de supervisão.

Diante de tantas dificuldades e falhas recorrentes na operação dos trens, a ViaMobilidade passou a adotar o sistema "aponte e fale", quando maquinistas são obrigados a sinalizar e depois verbalizar cada movimento que pretendem fazer na condução.

Segundo pessoas ouvidas pela reportagem, como os novos ainda não estão plenamente preparados, parte das tarefas cotidianas acaba sobrando para 36 maquinistas "das antigas", que se aposentaram ou entraram no plano de demissão da CPTM e agora estão na ViaMobilidade.

O problema está, também, no salário, pouco atrativo para quem já desempenhou a função anteriormente. Segundo maquinistas, um condutor da CPTM ganha em torno de R$ 4.000 de salário base, mais adicional de periculosidade e benefícios. Já a ViaMobilidade paga cerca de R$ 3.000, sem os adicionais e com benefícios mais modestos. No fim, a diferença ficaria em torno de R$ 2.000 por mês.

Presidente do Sindicato dos Ferroviários da Zona Sorocabana, José Claudinei Messias afirma que a culpa por tantos problemas não é exclusiva da ViaMobilidade, um dos braços do Grupo CCR.

"A concessionária não tinha opção. Teria que colocar em operação no dia 27 de janeiro", afirma ele. "Maquinistas foram treinados pela CPTM, mas foi um prazo apertado. O governo estadual tem responsabilidade." Segundo Messias, o alerta a respeito do curto prazo para treinamento foi feito em fevereiro de 2020, em audiências públicas.

O presidente do sindicato afirma também que os trens repassados pela CPTM à ViaMobilidade são antigos, com prazo de manutenção ultrapassado, o que prejudica ainda mais o trabalho.

Questões envolvendo ViaMobilidade e seus funcionários e colaboradores não são novidade para o MPT (Ministério Púbico do Trabalho). Investigação em curso, iniciada em 2021, aponta problemas com equipamentos de proteção individual, veículos de manutenção em péssimas condições, falta de iluminação adequada para a realização do serviço, falta de água potável, entre outros, no pátio Guido Caloi, da linha 5-lilás do metrô, também sob responsabilidade do grupo.

A empresa também é alvo de outra investigação do MPT-SP por expor trabalhadores ao risco de Covid 19.

A CPTM é alvo de ação civil pública que pede R$ 4 milhões em danos morais coletivos e a exigência de regularização do meio ambiente de trabalho, devido a acidentes recorrentes com trabalhadores próprios e terceirizados. As investigações apontam que, de 2009 a 2011, houve 18 acidentes nas instalações da CPTM, nove deles com mortes, segundo o MPT.

A CPTM afirma que tem a frota mais nova do Brasil, que todos os trens passam por manutenção regular e que contam com a mais moderna tecnologia disponível, incluindo os emprestados à ViaMobilidade, com idade média de 11 anos. "A vida útil de um trem é de 40 anos", diz em nota.​

​Com relação à ação civil pública, a audiência está designada para este primeiro semestre.

A ViaMobilidade Linhas 8 e 9 afirma que tem seguido todas as determinações previstas no contrato de concessão e que a transferência de funções foi supervisionada por auditoria independente e pelo poder concedente. "A validação do processo, assim como os treinamentos realizados pré-assunção, seguiram as determinações do regulamento previsto no edital e no contrato de concessão, cumprindo assim o período de quatro meses de treinamento previsto na preparação dos operadores dos trens", diz em nota.

Em relação à jornada de trabalho, os operadores de trem seguem diferentes escalas de trabalho, sendo uma delas 12 horas diárias, totalizando em média de 38 horas semanais.

A concessionária diz que conta com política de cargos e salários, com benefícios, e que a média salarial condiz com seu modelo de gestão e com valores do mercado.

Sobre os operadores, a ViaMobilidade afirma que mantém uma equipe de cerca de 300 profissionais, oriundos de transferências internas, da CPTM e do mercado. E, quanto aos trens, diz que foram recebidos nas condições em que operavam na CPTM e que 23% deles passaram por uma revisão geral, processo que será estendido ao restante da frota.