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m de leitura Atualizado em 07/03/2022, 18:42

Coletivo com Grada Kilomba comandará próxima edição da Bienal de São Paulo

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de março de 2022

CAROLINA MORAES
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um coletivo formado pela artista portuguesa Grada Kilomba, o crítico e historiador da arte espanhol Manuel Borja-Villel, diretor do museu Reina Sofía, em Madri, a curadora Diane Lima e o antropólogo Hélio Menezes estará à frente da próxima edição da Bienal de São Paulo, marcada para o ano que vem. O anúncio foi feito pela Fundação Bienal nesta segunda-feira.

O recurso se repetiu em eventos artísticos dos últimos anos --entre eles, a última Flip, Festa Literária Internacional de Paraty--, vindo no rastro da decadência do autoritarismo dos curadores, que abrem mão do poder em nome da horizontalidade. E não é inédito nem mesmo na história da Bienal, que teve grupos de curadores em seu comando em 1989, 2010, 2014 e 2018.

Na última destas, o então curador-chefe, Gabriel Pérez-Barreiro, convidou sete artistas para montar pequenas constelações de trabalhos. O conjunto foi visto pela crítica como demasiado fechado em si mesmo, desconectado com a temperatura política de um ano que, afinal, terminou com a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência.

José Olympio da Veiga Pereira, presidente da Fundação Bienal, conta que os curadores da próxima edição se apresentaram já como um coletivo para a instituição. Apesar de esta não ser a ideia original da instituição, ele afirma que essa foi a proposta mais "ambiciosa e interessante" apresentada para edição de 2023.

"Esse time tem competências diferentes e complementares que tem tudo para produzir um resultado muito interessante", diz ele. Uma das propostas que ele destaca do projeto, batizado "As Coreografias do Impossível", é expandir a mostra principal para outras instituições e espaços públicos --algo que foi feito na última edição.

Ele admite que ter a mostra capitaneada por um grupo é um desafio e tem seus riscos. "Essa foi uma preocupação nossa no processo de seleção, de ter certeza que era uma equipe harmônica com capacidade de trabalhar em conjunto", diz ele. "Estou convencido de que vamos superar esses desafios."

Dos nomes anunciados agora, o mais conhecido é o de Kilomba, escritora e artista interdisciplinar que é uma das grandes vozes do movimento feminista negro hoje. Com obras exibidas em mostras de prestígio, como a Documenta, em Kassel, na Alemanha, e a Pinacoteca de São Paulo, ela usa performances e vídeos para explorar questões como memória, trauma e pós-colonialismo.

Outros dos integrantes, Diane Lima e Hélio Menezes, são dois dos principais nomes de uma geração de curadores negros que despontou nos últimos anos. Lima foi responsável pela curadoria do Festival do Valongo em 2018 e 2019 e esteve envolvida com a última edição do Frestas, Trienal de Artes do Sesc de São Paulo. Menezes coordenou as áreas de arte contemporânea e literatura do CCSP, o Centro Cultural São Paulo, e esteve à frente de várias exposições importantes no cenário paulistano nos últimos anos, como "Carolina Maria de Jesus: Um Brasil para os Brasileiros", no IMS Paulista, e "Histórias Afro-Atlânticas", parceria entre o Masp e o Instituto Tomie Ohtake.

Já Manuel Borja-Villel é mais conhecido por sua trajetória institucional. Ele é o diretor do Reina Sofía, em Madri, na Espanha, e desde 2008 vem buscando repensar a coleção do museu. Antes disso, dirigiu a Fundação Antoni Tàpies e o Museu de Arte Contemporânea, ambos em Barcelona.

Os curadores foram apresentados pela Fundação Bienal sem indicação de idade e nacionalidade, por orientação dos próprios curadores como parte de uma apresentação sem hierarquias do grupo. Segundo Olympio, ainda não se sabe se essa diretriz se estenderá na apresentação dos artistas.

"Embora eles não tenham se apresentado com esses dados, se você der um Google em cada um deles, você vai descobrir. Não é segredo", diz ele. "É uma questão mais simbólica do que de não querer revelar."

A última Bienal foi assinada pelo italiano Jacopo Crivelli Visconti, que iniciou a carreira na própria Fundação Bienal na primeira década dos anos 2000. À época do anúncio, a escolha foi criticada devido à falta de expressividade de Crivelli Visconti no meio artístico-institucional --ele, que na época atuava de forma independente, não tinha grandes mostras no currículo.

A edição em si, no entanto, foi elogiada por sua capacidade de traduzir a desesperança destes tempos pandêmicos, que inclusive modificaram o calendário original do evento --ele deveria ter acontecido em 2020, mas foi adiado por causa da Covid.

"Já estava presente na 34ª edição a questão de trazer todo mundo para trabalhar em conjunto por um objetivo em comum. A nosso ver, isso tem uma simbologia importante no mundo polarizado em que a gente vive. O que a gente quer é mostrar que pessoas diferentes podem se engajar num projeto comum e fazer algo para o benefício de todos", afirma Olympio.